Do sítio do Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (publicado em inglês a 12 de janeiro de 2026 e em castelhano a 14 de janeiro de 2026)
O povo iraniano levanta-se contra a odiada República Islâmica
O fascista Trump ameaça com uma intervenção militar
“Não me importa morrer. Se o meu país for pelo caminho correto com a minha morte, fico contente.”
“Não tenho medo. Estou morto há 47 anos.”1
— De Manifestantes iranianos que estão a desafiar a violenta repressão do regime (artigo em inglês)
Notícias de última hora, sábado, 10 de janeiro: As agências noticiosas estão a relatar a possibilidade de a odiada República Islâmica do Irão (RII) ter massacrado manifestantes hoje.
(Foto: AP, captura de ecrã do YouTube)
A 28 de dezembro de 2025, eclodiram protestos em massa no Irão contra a amplamente odiada RII. A faísca inicial foi uma forte queda do valor da moeda do Irão e os aumentos praticamente diários dos preços dos bens de consumo diário, tornando quase impossível a sobrevivência de milhões de iranianos. Nos 16 dias que passaram desde então, esses justos protestos têm desafiado a crescente repressão e chegaram a envolver dezenas de milhares de pessoas (se não muitas, muitas mais) em mais de 100 cidades de todas as 31 províncias iranianas.
Face aos protestos contínuos e crescentes que começaram a 28 de dezembro, a sanguinária RII intensificou hoje as suas ameaças contra os manifestantes, na sua esmagadora maioria desarmados. Ela advertiu que qualquer pessoa que saísse à rua seria considerada um “inimigo de Deus” e estaria sujeito à pena de morte se estivesse a promover a “dominação estrangeira” ou se “traísse a nação e criasse insegurança”. Ou seja, se protestasse contra a teocracia fundamentalista islâmica do Irão e qualquer ou todos os inúmeros crimes e atrocidades que ela tem infligido ao povo iraniano nos seus 47 anos de existência.
O jornal israelita Haaretz, em conjunto com a Associated Press e a agência noticiosa Reuters, relataram: “Com a internet e as linhas telefónicas cortadas no Irão, avaliar as manifestações a partir do exterior tem-se tornado cada vez mais difícil. Embora a Agência de Notícias de Ativistas dos Direitos Humanos, com sede nos EUA, tenha relatado que pelo menos 72 pessoas foram mortas e mais de 2300 outras pessoas foram detidas, um médico disse à revista Time Magazine que os hospitais em Teerão tinham registado pelo menos 217 mortes de manifestantes, ‘a maioria das quais com munições reais’. Os médicos que falaram com a BBC descreveram os hospitais como estando ‘inundados’ por pacientes feridos.”
Estão a ser relatados números variáveis mas, independentemente do número exato de mortos, esta sangrenta repressão é mais um gritante ultraje perpetrado por este regime selvagem. E está a ocorrer na sequência das repetidas ameaças fascistas de Trump de atacar o Irão, e há novos relatos de que Trump terá sido “informado nos últimos dias sobre novas opções para ataques militares ao Irão”.
Tanto a RII como o regime fascista de Trump são regimes reacionários que representam perigos graves para o povo do Irão e do mundo. No entanto, para que fique claro (e como iremos analisar mais abaixo), o maior perigo continua a ser de longe o fascista Trump com armas nucleares e o regime genocida dele. Estes acontecimentos sublinham, uma vez mais, a urgência e a responsabilidade de todos nós, nos EUA, de intensificarmos a luta para afastar do poder o seu regime fascista.
Antecedentes: A faísca que desencadeou um tsunami de protestos
(Foto: Iran International, redes sociais)
Esta enorme efusão de protestos, a maior desde os protestos “Mulher, Vida, Liberdade” de 2022, está a ser alimentada pelas profundas divisões que percorrem toda a sociedade iraniana. Isto inclui a brutal e medieval opressão das mulheres pelo regime, a discriminação e repressão sistemáticas das nacionalidades e das religiões minoritárias do Irão; a brutal exploração capitalista; e as sufocantes ideologia, moralidade e repressão impostas pela teocracia fundamentalista islâmica fascista do Irão.2
Na raiz de todos estes ultrajes está a contínua e generalizada dominação do capitalismo-imperialismo global sobre o Irão. Recentemente, isto foi intensificado pelos massivos ataques militares israelitas e norte-americanos de junho passado contra o Irão e, nos últimos dias, pelas ameaças de Trump (e Israel) de voltarem a atacar o Irão. Isto visa supostamente proteger os manifestantes, mas na realidade o objetivo de Trump é dominar e controlar ainda mais o Irão e o seu povo.3
“Abaixo a ditadura”, “Liberdade, liberdade, liberdade”
Vagas de protestos nas ruas, greves laborais, manifestações, confrontos com as forças de segurança e outras formas de protesto espalharam-se pelo Irão, da capital Teerão a outras grandes cidades e aos mais distantes cantos deste país de 90 milhões de habitantes. Os comerciantes da classe média encerraram as suas lojas, os sindicatos e outras organizações convocaram greves.
A Campanha Internacional de Emergência pela Libertação Imediata dos Presos Políticos do Irão (CEI) relata:
Milhares de estudantes de dezenas de universidades juntaram-se à luta, trazendo reivindicações de liberdades políticas, gritando “Abaixo a ditadura”, “Abaixo Khamenei”, “Liberdade, liberdade, liberdade” e, em alguns casos, com as mulheres estudantes a acenar os véus em desafio às leis do véu obrigatório.
Sete organizações curdas emitiram um apelo a uma greve geral no Curdistão a 8 de janeiro, de apoio ao levantamento nacional. Este apelo foi retomado por outras nacionalidades oprimidas, em particular no Baluchistão, onde decorre uma greve dos trabalhadores petrolíferos e protestos dos aposentados, dos professores e dos trabalhadores culturais.
Desafiando a violência e a repressão do Estado
Os protestos têm aumentado e espalharam-se face à repressão e às violentas ameaças da República Islâmica.4
Na sexta-feira, 9 de janeiro, o Líder Supremo do Irão, o aiatola Khameini, denunciou os manifestantes como traidores que estavam a fazer o trabalho sujo de Israel e dos EUA. A televisão estatal avisou que os cidadãos arriscariam as suas vidas ao se juntarem aos protestos. E o governo bloqueou virtualmente todas as formas de comunicação, “cortando a internet, bloqueando as chamadas telefónicas vindas do exterior e interrompendo o serviço doméstico de telemóveis, num esforço para impedir que os manifestantes se organizem e enviem notícias para fora do país”, relatou o jornal New York Times.
No entanto, os protestos que se seguiram nessa noite de sexta-feira foram ainda maiores, mais desafiadores e cada vez tomando como alvo o próprio regime odiado.
O fascista Trump — e Israel — ameaçam atacar o Irão
O regime fascista de Donald Trump vilipendia os manifestantes nos EUA apelidando-os de “terroristas domésticos”, por vezes assassina-os a sangue frio e está empenhado em aniquilar toda a oposição. Agora, alguns meses depois de ter bombardeado o Irão e matado dezenas de inocentes, Trump decidiu repentinamente que está preocupado com os manifestantes iranianos.
Pouco depois do início dos protestos, Trump ameaçou os governantes do Irão de que, se matassem manifestantes, os EUA atacariam novamente: “Estamos armados e prontos a agir.” Se a RII tentar esmagar violentamente os protestos, “iremos atacá-los duramente”, avisou Trump a 8 de janeiro.
A noção de que Trump se preocupa com o povo do Irão é mais que obscena. As sanções impostas por Trump, incluindo algumas que impedem a importação de medicamentos que salvam vidas, ajudaram a enfraquecer a economia do Irão e infligiram um enorme sofrimento ao povo iraniano E, durante décadas, o imperialismo norte-americano ameaçou, cercou e atacou o Irão, direta e indiretamente.
Essas ameaças fascistas podem ser obscenas mas também são gravíssimas, como Trump mostrou na Venezuela e outros lugares. O objetivo dele não é libertar o povo iraniano, mas sim escravizá-lo ainda mais sob a dominação imperialista dos EUA, possivelmente através do derrube da República Islâmica neste momento de fraqueza.5
Lindsey Graham, um aliado próximo de Trump, avisou recentemente que Trump “mataria” o líder do Irão, o aiatola Khameini, se o regime dele continuasse a assassinar manifestantes. O ex-ministro israelita da defesa exortou o governo de Netanyahu a aproveitar os protestos e a atual crise e fraqueza do Irão para atacar e derrubar o regime, argumentando que esta “oportunidade histórica” pode não voltar a acontecer.
A organização revolucionária de mulheres Osyan resumiu: “Para nós, é evidente que tal apoio de forças genocidas e fascistas significa levar a liberdade do povo iraniano para um matadouro. Em consequência, declaramos em voz alta que as nossas justas lutas contra o regime islâmico não fornecem nenhuma justificação para as intervenções políticas ou militares deles! Tirem as mãos do Irão!”
O perigo real de uma guerra mais vasta
A República Islâmica respondeu às ameaças de Trump de uma forma desafiadora. Khamenei declarou que o Irão “não irá recuar perante o inimigo”. As autoridades iranianas disseram que reagiriam a qualquer interferência dos Estados Unidos, incluindo potenciais ataques a bases e forças dos EUA na região.
Tudo isto aumenta o perigo real de uma guerra que poderia ameaçar a vida de milhões de iranianos e dos habitantes de toda a região. Os residentes nos EUA têm a responsabilidade de se oporem enérgica e visivelmente às ameaças de Trump e a qualquer ataque dos EUA contra o Irão e de intensificarem a luta para expulsar do poder o seu regime fascista.6
Desafios difíceis, uma complexa mistura de forças
Há muitas forças políticas diferentes na complexa mistura política do Irão. Elas variam desde monárquicos reacionários pró-EUA como Reza Pahlavi (filho do ex-Xá), corajosos democratas burgueses como Narges Mohammadi, até aos comunistas revolucionários seguidores do novo comunismo de Bob Avakian, o Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista) [PCI(MLM)].7
Os acontecimentos no Irão estão a evoluir muito rapidamente e o resultado é muito incerto. Em “A República Islâmica tem de desaparecer!”, o PCI(MLM) coloca a seguinte questão — e desafio:
Irá um outro regime opressor cavalgá-lo para substituir este sobre os corpos maltratados do povo? Ou, através de uma ampla divulgação da compreensão social do que é uma verdadeira revolução, irá o derrube da RII abrir caminho a uma verdadeira revolução que a substitua, não por outro regime opressor e explorador, mas por uma nova república socialista? Neste momento, o derrube da RII está na agenda imediata — mas o desafio ainda mais vital é a maneira como esta questão irá ser respondida.
Mantenham-se atentos ao revcom.us para uma cobertura contínua da situação no Irão, Gaza e Médio Oriente. E consultem o sítio e as redes sociais do PCI(MLM) e usem o Tradutor do Google para obterem relatos em tempo real sobre a sua avaliação desta situação.
Não a um ataque dos EUA e Israel contra o Irão
Em nome da humanidade, recusamo-nos a aceitar uns Estados Unidos fascistas!
Todo este sistema está putrefacto e é ilegítimo! Precisamos e exigimos: uma maneira inteiramente nova de viver, um sistema fundamentalmente diferente!
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Ver também:
- Crime Norte-Americano, Caso n.º 98: O golpe de estado de 1953 da CIA no Irão — Tortura e repressão, fabricadas nos EUA (inglês/castelhano)
- Do Atash (Fogo), voz do Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista): A República Islâmica tem de desaparecer!
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NOTAS:
1 Estes 47 anos referem-se às décadas em que a República Islâmica do Irão está no poder. Fontes: New York Times, PBS.
2 O Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista) [PCI(MLM)] escreveu no Instagram que, além da pobreza e da privação económica, os protestos também foram motivados “pela opressão das mulheres que são assassinadas por não cumprirem a obrigação de uso do hijab [cobertura da cabeça], pela opressão nacional no Curdistão, no Baluchistão, do povo árabe no Khuzestão, etc., pela incapacidade de respirar facilmente devido à poluição atmosférica, pela falta de água e eletricidade [a capital do Irão, Teerão, está a ficar sem água], pela falta de instalações médicas e do fornecimento de medicamentos devido ao seu elevado custo e escassez, pela falta de instalações educativas que fez com que centenas de milhares de estudantes abandonassem a escola e até fez com que alguns estudantes se suicidassem sob essas pressões.”
3 Este regime, no início liderado pelo aiatola Khomeini, chegou ao poder após a revolução de 1979 que derrubou o Xá [Rei] do Irão. O Xá tinha sido um fiel defensor do imperialismo norte-americano no Médio Oriente e, com ele, o Irão foi um posto militar avançado contra a então União Soviética. A queda dele foi um grande golpe para os EUA. A República Islâmica nunca foi “anti-imperialista”, mas tem sido um obstáculo ao domínio irrestrito dos EUA e de Israel na região. Por isso, desde que foi fundada, os EUA e o seu cão de ataque Israel têm trabalhado secreta e abertamente para cercar, enfraquecer e minar o regime.
4 Uma organização de direitos humanos documentou 2 045 execuções em 2025, o número mais elevado em 30 anos.
5 Um analista do Médio Oriente escreveu no New York Times que a República Islâmica está particularmente fraca e vulnerável neste momento:
O novo elemento é a crescente fragilidade da República Islâmica. Desde o ataque do Hamas a Israel a 7 de outubro de 2023 e da guerra de Israel contra Gaza, Teerão sofreu uma série de golpes à sua estratégia regional com a mutilação dos seus aliados em Gaza e no Líbano e a queda do seu principal aliado regional na Síria. A desastrosa guerra de 12 dias com Israel em junho revelou um aparelho de segurança corrompido pela infiltração israelita e expôs o regime como um leão de papel incapaz de defender o seu espaço aéreo. O seu programa nuclear está em ruínas após os bombardeamentos norte-americanos.
Esta vulnerabilidade é agravada pela incapacidade das famílias de fazerem face às despesas, pelas falhas de energia num país rico em recursos e pela possibilidade de a capital poder ficar sem água. A paralisia do estabelecimento clerical, liderada pelo cada vez mais rígido aiatola octogenário Ali Khamenei, sugere que se está a basear numa obsoleta estratégia de resistência, apoiando intermediários e desenvolvendo mísseis balísticos.
6 As ameaças bélicas de Trump proporcionam à RII uma conveniente desculpa para difamar os manifestantes no Irão como vândalos que estão a protestar para “agradar” a Trump, como alega Khameini. “De cada vez que nos fartamos desta situação e saímos às ruas, somos rapidamente chamados de agentes de Israel ou da CIA”, disse um iraniano ao Middle East Eye.
7 Do lado positivo, 17 ativistas iranianos muito progressistas e pró-democracia emitiram recentemente um comunicado conjunto a exigir que as forças de segurança do regime cessem os ataques contra os manifestantes. Esse comunicado declarava: “O único caminho para salvar o Irão é uma transição que afaste a República Islâmica, uma exigência que não é nem temporária nem reprimível.” Entre os signatários estão a encarcerada Prémio Nobel da Paz, Narges Mohammadi, e reconhecidos realizadores de filmes como Jafar Panahi e Mohammad Rasoulof.
Quanto aos reacionários pró-EUA, Reza Pahlavi, filho do ex-governante do Irão, o Xá pró-EUA, emitiu recentemente um apelo à intensificação dos protestos que teve uma forte repercussão. No Washington Post, Pahlavi escreveu um artigo de apoio às ameaças de Trump: “Saúdo o apoio claro e firme do Presidente Donald Trump ao povo iraniano. A mensagem dele de que os Estados Unidos estão com aqueles que buscam a liberdade em vez de com um regime que exporta o terror e a instabilidade tem ressoado profundamente dentro do Irão.”
O PCI(MLM) escreveu: “Reza Pahlavi tenta posicionar-se como salvador do povo iraniano através de uma extensa propaganda em alguns dos seus meios de comunicação pró-governamentais. O programa dele está completamente dentro desse mesmo sistema sociopolítico: com uma economia e uma política capitalistas, com a repressão da dissidência, com a opressão das mulheres, com a propagação da cultura patriarcal pelos seus apoiantes quando atacam quem se lhes opõe, ao mesmo tempo que proferem insultos sexistas, ao enfatizar o nacionalismo, uma nação persa que siga o mesmo caminho do capitalismo global, mas sob uma forma monárquica.”