Publicado no Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (em inglês a 12 de julho de 2026 e em castelhano a 16 de julho de 2026)
Da Campanha Internacional de Emergência pela Libertação Imediata dos Presos Políticos no Irão
A resistência dos presos políticos no Irão em condições extremas precisa de um apoio baseado na realidade
Nota da redação do revcom.us: Recebemos o seguinte texto da Campanha Internacional de Emergência pela Libertação Imediata dos Presos Políticos no Irão (CIE). A tradução do farsi (persa) para inglês foi feita por meios automáticos editados e a do inglês para castelhano foi feita pelo revcom.us.
Uma pequena boa notícia
No mesmo dia em que os EUA puseram fim ao pretenso cessar-fogo com o Irão e uma vez mais recomeçaram a sua terrível agressão militar, colocando em perigo a vida de todos no Irão, juntamo-nos à família e aos amigos do preso político Mehran Raouf para celebrar a libertação dele da prisão de Evin, ainda que ele tenha que usar uma pulseira eletrónica no tornozelo que lhe restringe os movimentos e as deslocações.
Protesto de 350 presos contra o espancamento de um preso político. (Gráfico: @IranHRS)
Mehran, com dupla cidadania britânica e iraniana, professor, ativista e tradutor de inglês, foi injustamente detido em outubro de 2020, juntamente com a destacada ativista Nahid Taghavi e outros 4 pessoas, todas elas agora em liberdade. A 8 de julho, a @burnthecage [Queimar a Jaula] noticiou que “Raouf, que tem quase 70 anos, foi privado dos seus direitos legais, (...) apesar dos seus problemas de saúde. O advogado e a família dele têm expressado a sua esperança de que lhe seja concedida liberdade condicional total.” Durante os seis anos dele na prisão em Evin, foi-lhe negado o direito a “licenças médicas, liberdade condicional e acesso adequado a cuidados médicos especializados”.1
A resistência dos presos persiste no meio da guerra dos EUA e Israel e da repressão da República Islâmica do Irão (RII)
A 1 de julho, centenas de prisioneiros levaram a cabo um protesto coletivo, arriscando as suas próprias vidas para defenderem a vida de um preso político. A Sociedade Iraniana de Direitos Humanos reportou (em inglês) que na prisão de Vakilabad, na cidade setentrional de Mashhad, as autoridades prisionais tinham espancado brutalmente um preso político sob a acusação de “faltar ao respeito aos agentes”. Em resposta a este ultraje, cerca de 350 presos iniciaram uma greve de fome de protesto, recusando-se a comer o almoço. Os presos descreveram essa ação como um protesto pela violência contra o seu companheiro e as horrendas condições na cela de “quarentena”. O portal Iran Wire, com sede em Londres, noticiou (em inglês) a 9 de julho que dois desses corajosos grevistas da fome tinham perdido o contacto com as famílias desde o início da greve e desaparecido da enfermaria, gerando uma urgente preocupação com a saúde deles.
Mashhad foi o cenário de uma pompa massiva e de uma unidade encenada em torno do funeral, a 9 de julho, do ex-líder supremo do Irão, Ali Khamenei, assassinado na sua residência familiar em Teerão no primeiro dia dos bombardeamentos levados a cabo pelos EUA e Israel. As enormes multidões do funeral deveriam supostamente demonstrar que agora a população iraniana o apoia e apoia o regime. Na realidade, só demonstrou que muitas pessoas se opõem à guerra dos EUA e Israel contra o Irão e que um regime no poder pode organizar uma grande multidão a seu favor. E então? O tamanho da multidão não pode apagar a forte repressão em Mashhad e noutras cidades, especialmente nos últimos anos, nem a realidade objetiva do descontentamento generalizado e da brutal repressão. Talvez uma leitura mais precisa beneficiasse de uma sondagem aos milhares de presos políticos, incluindo os 32 advogados independentes recentemente detidos, citados, processados ou encarcerados.
“Quero falar com o meu advogado.”
“Também estou aqui.”
(Original: redes sociais. Legenda: CIE)
Enquanto as execuções continuam a aumentar — 850 (!) até agora na primeira metade de 2026, segundo a iranrights.org —, a 7 de julho as greves de fome nas prisões intituladas “Terças-feiras Não às Execuções” persistiram para a sua 128ª semana, agora em 57 prisões, com a adição na semana passada da prisão de Kerman, no sudeste do Irão. Esta luta organizada e determinada para protestar contra os assassinatos levados a cabo pelo Estado, incluindo os de muitos jovens e presos políticos, deve ser apoiada por todos aqueles que anseiam por justiça no nosso mundo. Imaginem as dificuldades de levar a cabo e manter essas ações de protesto numa só prisão durante mais de dois anos e, muito mais ainda, perseverar para que elas se espalhem, mesmo quando são apanhados entre as “duas lâminas de uma tesoura”, como descreveu um ex-prisioneiro sobre os bombardeamentos intermitentes dos EUA e Israel, juntamente com as detenções em massa, os encarceramentos e as execuções levados a cabo pela RII. Os corajosos protestos destes presos funcionam como apelo a que todas as pessoas no mundo resistam à injustiça, independentemente das adversidades.
Os prisioneiros mostraram ter uma aguda noção dos múltiplos perigos que enfrentam, tanto de falsos amigos como de verdadeiros inimigos. A 24 de junho, a campanha semanal de greve de fome abordou o Memorando de Entendimento (MdE) entre os EUA e o Irão para um suposto cessar-fogo e negociações: “Após meses de guerra que causaram enormes danos ao povo iraniano, o Memorando de Entendimento entre o governo teocrático fascista [da RII] e os EUA não menciona os direitos humanos nem a terrível repressão e execuções a decorrer no Irão. Isto demonstra claramente que nenhuma das potências tem qualquer intenção de mudar esta situação, e que as pessoas devem confiar em si mesmas para conseguirem uma mudança, e não em nenhuma força ou potência estrangeira.” (Ênfase nossa)
Cerca de 30 presos políticos, detidos na sequência dos massivos protestos de janeiro de 2026 e atualmente encarcerados na prisão central de Saveh, iniciaram uma greve de fome coletiva. Segundo a Organização Hengaw para os Direitos Humanos, “a greve de fome coordenada começou na sexta-feira, 26 de junho de 2026, em várias alas da prisão central de Saveh, em resposta aos processos judiciais sumários, aos casos fabricados de violações de segurança relacionadas com a guerra e às longas penas de prisão e punições adicionais impostas pelos tribunais. O sistema judicial impôs sentenças com base em confissões forçadas obtidas sob tortura e desconsiderando as declarações dos réus em sua própria defesa.” A prisão de Saveh está situada a cerca de 110 quilómetros a sudoeste da capital do Irão, Teerão.
Os dois lados da mesma estupidez: a guerra dos EUA e da RII contra a realidade objetiva e a verdade
Em relação à CIE, continuamos a opor-nos firmemente à repressão da República Islâmica contra a sua própria população e a apoiar a resistência dos presos políticos e dos dissidentes. Também nos continuamos a opor firmemente aos EUA e à sua guerra contra o Irão. Por isso, somos forçados a denunciar aqueles que se aliam a uma ou outra destas duas forças opressoras: os cada vez mais estridentes megafones dos imperialistas dos EUA e os dos fundamentalistas da RII, já que ambos agem à custa da vida dos presos políticos e do povo iraniano em geral (como é indicado na declaração dos prisioneiros). Cabe clarificar que a oposição ao fundamentalismo islâmico NÃO é islamofobia nem um ato antimuçulmano.
Verificação da realidade n.º 1: Mai Sato, relatora especial das Nações Unidas sobre o Irão, numa entrevista a 27 de junho, disse que o MdE entre os EUA e o Irão, ao não abordar a questão dos direitos humanos, se tornava “incompleto” e ela expressou a esperança de que o acordo final pudesse incluir cláusulas que abordem a situação dos direitos humanos no país. Este apelo aos EUA, ao qual se juntam os de outros “peritos” da ONU, propaga a ilusão mortal de que os EUA são uma força positiva “para ajudar o povo iraniano”, como alega insanamente o fascista Trump. Assim, é objetivamente um ataque à verdade porque serve para encobrir a realidade de que os EUA têm uma longa história e uma realidade atual repleta de genocídios, escravatura, golpes de estado e guerras pelo império, incluindo o golpe de estado da CIA no Irão em 1953. Além da ONU, outras forças que promovem esta mentira sobre um Tio Sam benevolente são os monarquistas iranianos pró-EUA/Israel e os chamados “marxistas islâmicos” da organização Mujahedin-e-Khalq (MEK). Ambos estão intimamente ligados a várias fações fascistas das classes dominantes dos EUA e trabalham para branquear os crimes dos EUA, assinalando apenas os crimes (menores) da RII, com a esperança de facilitarem uma “mudança de regime” pró-EUA com um deles como os novos fantoches dos EUA no Irão.
Verificação da realidade n.º 2: No outro lado do ataque fascista contra a verdade e a realidade estão todos os liberais/”esquerda”/turba ”woke” que elogiam o regime teocrático do Irão como força positiva contra os EUA e Israel, aproveitando o justo ódio das pessoas contra esses dois monstros globais. Entre essas forças estão Louis Farrakhan da Nação do Islão, o Drop Site News, George Galloway (um ex-político britânico que agora vive em Moscovo), os meios de comunicação relacionados com a RII e muitos membros da anquilosada “esquerda” dos EUA. Escolher o “mal menor” pode parecer mais razoável ou até progressista, mas na realidade é uma maneira de promover o beco sem saída de não terem NENHUMA verdadeira alternativa ao imperialismo, ocultando a verdade de que o regime islâmico do Irão NÃO é uma sociedade libertadora.
Há consequências reais do pensamento mágico (em oposição a uma pensamento realista) que tenta branquear a verdadeira natureza opressora do regime do Irão. Independentemente das intenções, isto objetivamente prejudica os presos políticos e os dissidentes, apagando de forma insensível e negligente a sua luta, como as 128 semanas consecutivas de greves de fome dos prisioneiros ou as horrendas execuções. Temos a obrigação de apoiar essas pessoas que no Irão enfrentam corajosamente a repressão — como as mulheres que lutam contra o extremo sistema patriarcal — e não a de nos opormos a elas, elogiando o regime. Por exemplo, vejamos a barra lateral do novo vídeo da música que inclui muitas das minorias étnicas e oprimidas do Irão. Será que esses comovedores mas incipientes gritos pela libertação não estão a ser desconsiderados por fórmulas nefastas e ignorantes como “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”?
O que tanto os fascistas/imperialistas como essas supostas “vozes de oposição de esquerda” têm em comum é a sua negação da realidade objetiva, como a complexa e contraditória situação no Médio Oriente (e no mundo), optando nefastamente por verdades superficiais ou por uma “narrativa” inventada que é uma “verdade” conveniente, popular e reconfortante. Esta visão míope e tóxica nega a realidade, como a opressão e a libertação das mulheres (por exemplo, a revolta de 2022–2023 após a polícia da moralidade do regime ter assassinado Mahsa Amini); nega a base socioeconómica da sociedade exploradora do Irão como uma parte inteiramente integrada da economia imperialista mundial, baseada na desapiedada busca do lucro à custa do trabalho assalariado.
A RII e os seus seguidores atribuem os corajosos protestos no Irão a “fantoches” da CIA e dos EUA, enquanto a CIA alega que todos os que favorecem o Irão são “fantoches” da RII. Ambos os lados desta estupidez usam o método de insistir em que a verdade é o que nós dizemos que é ou o que queremos que seja, independentemente da realidade objetiva. Tudo isso faz parte da enorme luta filosófica que está a ocorrer no nosso mundo em torno da ciência e do processo baseado em evidências para determinar o que é verdadeiro segundo um método científico. Ignorar esta luta prejudica gravemente os presos políticos no Irão, cujas vidas estão em perigo, bem como o futuro que eles e nós teremos. Esta luta para enfrentar o que está em jogo — e as possibilidades positivas — é mais uma razão para apoiarmos aqueles que se opõem às injustiças no Irão e em todo o mundo.
Uma forma importante de o fazermos é contribuindo para os esforços desta campanha (CIE), que desde há mais de cinco anos tem documentado o heroísmo dos presos políticos no Irão contra a injustiça, e cuja voz é ouvida atrás dos muros da prisão. Apelamos a que todos se juntem a eles desde já. Façam uma doação para apoiar esta iniciativa enviando cheques ou vales postais para: International Emergency Campaign, 18601 N. Hwy 1 #212, Fort Bragg, CA 96437.
Do Apelo de Emergência da CIE publicado em março de 2021:
Todos os presos políticos do Irão devem ser incondicional e imediatamente libertados.
Os governos dos EUA e do Irão agem em função dos seus interesses nacionais. E, neste caso, nós, as pessoas nos EUA e no Irão, juntamente com as pessoas do resto do mundo, temos os NOSSOS próprios interesses compartilhados, como parte de chegarmos a um mundo melhor: unirmo-nos para defender os presos políticos no Irão. Nos EUA, temos uma especial responsabilidade de nos unirmos de uma forma muito ampla contra esta vil repressão levada a cabo pela RII, e de nos opormos ativamente a qualquer manobra bélica do governo dos EUA que traga um ainda mais insuportável sofrimento ao povo do Irão.
Exigimos à República Islâmica do Irão: LIBERTAÇÃO IMEDIATA DE TODOS OS PRESOS POLÍTICOS!
Dizemos ao governo dos EUA: NÃO ÀS AMEAÇAS OU MANOBRAS DE GUERRA CONTRA O IRÃO! LEVANTAMENTO DAS SANÇÕES!
“Nas mais sombrias reuniões no Irão, na mais profunda dor pela qual uma família podia estar a passar, eles dançavam”: Vídeo musical de Toomaj Salehi e Rastak Music
Queremos partilhar este cativante vídeo musical publicado a 9 de julho com legendas em inglês pelo ex-preso político e condenado à morte, o rapper rebelde Toomaj Salehi, em colaboração com o grupo iraniano de música folk contemporânea Rastak Music e com base na poesia de um renomado poeta curdo, o falecido Sherko Bekas.
A beleza da música fala por si própria, mesmo sem a letra poética. Mas, de uma forma ainda mais poderosa, ao reconhecer a profundidade da dor e do desespero de muitos iranianos após a brutal repressão pelo estado iraniano da revolta de janeiro de 2026, seguida pelo devastador ataque dos EUA e Israel, a obra insiste em manter um espírito de desafio como esperança, como forma de seguir os passos dos que dançaram sobre as sepulturas dos seus entes queridos assassinados pelo regime. Ainda que um espírito desafiador não seja a soma total de todos os ingredientes para se chegar a um mundo melhor, no nosso mundo atual há EFETIVAMENTE uma imperiosa necessidade de música e poesia de resistência para ajudar a elevar as perspetivas e as emoções na feroz luta que está a ocorrer contra as forças que nos oprimem: o capitalismo, o imperialismo, o sionismo, o fundamentalismo religioso e o fanatismo de diversos tipos.
O lançamento do vídeo é especialmente corajoso num momento em que muitas figuras culturais estão a enfrentar uma severa repressão, como, por exemplo, a condenação a 74 chicotadas pronunciada contra a cantora Parastoo Ahmadi e toda a sua equipa de produção pelo seu concerto online realizado em desafio à lei do hijab obrigatório, a sentença de morte para o rapper de 22 anos Mahnam Navaab Savahi e a possível sentença de morte para o rapper Hossein Afrasiab pelo apoio dele à revolta de janeiro. Estes e muitos outros artistas que se recusam a ser silenciados ou a ceder ao desespero são valiosos para os povos do mundo e devem ser defendidos.
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NOTAS:
1 O Irão liberta o ativista laboral britânico-iraniano Mehran Raoof ao fim de 6 anos (em inglês), iranwire.com, 9 de julho de 2026.