A seguinte entrevista foi publicada no sítio do Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (em inglês a 2 de fevereiro de 2026 e em castelhano a 4 de fevereiro de 2026)

Entrevista à Osyan sobre a insurreição de janeiro no Irão

Nota da redação do Revolution/Revolución: Recentemente, a organização Osyan (um grupo de mulheres iranianas e afegãs cujo nome significa “Somos rebeldes” em farsi) foi entrevistada pela publicação feminista turca feministçerçeve (Marco Feminista) sobre a insurreição de janeiro de 2026 no Irão e a situação atual. A Osyan publicou essa entrevista em farsi e inglês a 29 de janeiro de 2026.

Iranianos num protesto antigovernamental em Teerão
Iranianos num protesto antigovernamental em Teerão, Irão, 9 de janeiro de 2026 (Foto: AP/UGC)

Feministçerçeve: Sabemos que no Irão há uma forte tradição construída através de protestos de rua. Nas últimas semanas, vimos manifestações que se propagaram a quase todo o país. No entanto, devido aos bloqueios da internet e à intensa censura, a informação que chega ao mundo exterior é bastante limitada. Antes de mais, gostaríamos de ouvir da vossa parte: Qual é a situação atual no Irão? O que aconteceu nas últimas semanas?

Osyan: A faísca que desencadeou os protestos foi uma acentuada subida do preço do dólar, que provocou o aumento da pobreza e o colapso económico em toda a sociedade iraniana. Eles começaram com greves e manifestações no Bazar (mercado de Teerão) e logo se propagaram às universidades, às ruas de Teerão e a muitas outras grandes e pequenas cidades. Muito rapidamente, os protestos revelaram o seu caráter político, visando todo o regime islâmico com gritos como “Abaixo o ditador” e “Morte a Khamenei”.

As manifestações cresceram a cada dia e a cada noite até que Reza Pahlavi, filho do deposto Xá (rei) do Irão, fez um apelo aos manifestantes e prometeu apoio vindo do exterior. Ao mesmo tempo, Trump emitiu ameaças de ataques contra o Irão e a Mossad afirmou: “estamos no terreno”. Nesse momento, os protestos atingiram o seu pico, e as forças repressivas da República Islâmica enfrentaram-nos com toda a sua força, como se a sua própria existência dependesse de matarem sem piedade todas as pessoas nas ruas.

A internet foi bloqueada e as ruas converteram-se num banho de sangue. O número exato de mortes ainda é desconhecido, mas as estimativas mais recentes sugerem que mais de 30 mil pessoas foram assassinadas em apenas 48 horas. Atualmente, as pessoas no Irão permanecem sob um apagão da internet. As cidades estão efetivamente sob um regime militar, com recolher obrigatório às 18h ou às 20h. Muitas pessoas estão em estado de choque ou de luto pela perda de entes queridos, e por todo o lado paira no ar um persistente cheiro a balas e sangue.

Feministçerçeve: Uma das principais razões por trás da recente vaga de protestos parece ser o aprofundamento da crise económica. A acentuada depreciação da moeda iraniana face às moedas estrangeiras, o aumento do custo de vida e o empobrecimento generalizado estão a afetar a sociedade de várias maneiras. Como estão as mulheres a ser afetadas por este colapso económico? Que tipo de consequências tem na vida quotidiana, nos processos laborais e nos encargos com os cuidados?

Osyan: As mulheres no Irão já suportavam o pesado fardo da pressão económica devido ao desemprego e à superexploração. Em 2025, soube-se que a taxa de participação económica das mulheres no Irão era entre 13,1 e 14%, aproximadamente um quinto da dos homens. Até os homens no Irão lutam por ganhar a vida, o que significa que a situação é várias vezes pior para as mulheres.

Quase 72% das mulheres desempregadas no Irão têm estudos universitários. Isto mostra que apesar de serem altamente educadas e de procurarem a independência financeira, as mulheres sofrem uma exclusão sistemática do mercado de trabalho e são empurradas para trabalhos domésticos não remunerados. A maior parte das mulheres desempregadas trabalha no setor de serviços, representando 61,3% do emprego feminino — um setor mal remunerado e cada vez mais caracterizado por contratos instáveis e inseguros.

Como resultado disso, muitas mulheres não têm escolha a não ser criarem pequenas empresas online na economia informal para mal conseguirem sobreviver. O agudizar da crise económica irá empurrar inevitavelmente muitas mais mulheres para baixo do limiar de pobreza. As mulheres tiveram uma presença notável na atual sublevação porque reconhecem que esta crise as afeta diretamente e que as vidas delas estão à beira do colapso.

Também gostaríamos de salientar que esta crise económica não é causada unicamente pelas “sanções”. Pelo contrário, resulta do funcionamento de um estado capitalista dependente, como a República Islâmica, que transfere as tensões das crises capitalistas para a sociedade local com uma força intensificada, e assim não tem outra forma de existir a não ser através da redução do sustento das pessoas e do aumento da sua exploração.

Feministçerçeve: Por outro lado, é sabido que milhares de pessoas perderam a vida devido à violência do estado durante os protestos, e muitas outras enfrentam penas de morte. Alguns relatos refletidos na comunicação social internacional alegaram que as intervenções internacionais detiveram ou reduziram essa violência. Há alguma mudança observável na abordagem do governo em relação aos protestos?

Osyan: Essa alegação é completamente contrária à realidade. Ao mesmo tempo que as potências estrangeiras (EUA e Israel) aproveitavam os protestos para defender os seus próprios interesses e agendas, a República Islâmica também explorou as alegações de interferência estrangeira para levar a cabo todo o seu plano de massacre de dissidentes usando armas militares, sob o pretexto da “continuação da guerra de 12 dias com Israel”. Não só não reduziu a violência, como a intensificou drasticamente.

Por um lado, as vidas dos que lutavam pela liberdade foi tratada como sendo supérfluas pelo governo: os corpos foram empilhados uns em cima dos outros, as famílias foram forçadas a pagar para receberem os restos mortais dos seus entes queridos e foram disparados tiros de execução contra os que estavam feridos.

Por outro lado, Trump não deu importância e humilhou essas mortes, afirmando que as pessoas “simplesmente foram espezinhadas no meio da multidão”, e Pahlavi descreveu-as como sendo danos colaterais de uma guerra.

Atualmente, estamos profundamente preocupados com as vidas de milhares de detidos, a maioria dos quais com menos de 25 anos de idade. Eles estão a ser submetidos a tortura, a confissões forçadas, a acusações fabricadas, a sentenças severas e a uma constante ameaça de execução. Enquanto Trump se orgulha de ter “salvado” mais de 800 pessoas de serem executadas, sabemos que as vidas do nosso povo não poderão ser protegidas através de acordos ou das guerras desses monstros, já que eles não dão nenhum valor à vida humana e operam dentro de um sistema concebido para a destruir.

Feministçerçeve: Que posição assumem as mulheres nos atuais protestos? Com que exigências e de que maneira estão a sair para as ruas e a participar na luta? O que acham que este processo significa para o movimento das mulheres no Irão?

Manifestantes bloqueiam uma intersecção em Teerão, Irão
Manifestantes bloqueiam uma intersecção em Teerão, Irão, 8 de janeiro de 2026
(Foto: captura de ecrã a partir de um vídeo da agência AP)

Osyan: Nos últimos anos, especialmente após a revolta “Mulher, Vida, Liberdade”, as mulheres têm estado muito ativas em atos de resistência e de desobediência civil. Na atual sublevação, uma vez mais elas foram ativas, ousadas e corajosas. No entanto, à medida que as forças patriarcais, fascistas e reacionárias alinhadas com Pahlevi se foram tornando mais fortes e tentaram cooptar a sublevação, muitas mulheres e forças progressistas tornaram-se cada vez mais alienadas. As suas exigências de liberdade e igualdade foram gradualmente apagadas da luta.

Fora do Irão, essas mesmas forças atacaram todos os que discordavam delas, usando uma linguagem machista e patriarcal e até ameaçando quem gritasse “Mulher, Vida, Liberdade”.

Portanto, este momento é um ponto de viragem crítico para o movimento das mulheres no Irão, à medida que está a ser configurado o futuro das mulheres — e da sociedade no seu conjunto. Se nos retirarmos e aceitarmos essa alternativa à República Islâmica, as mulheres irão enfrentar uma ainda mais severa repressão no futuro.

Temos de nos defender e opor a qualquer forma de ordem patriarcal que tente tomar o poder através de uma intervenção estrangeira, de bombardeamentos e do violento silenciamento dos que se lhe opõem. Nenhuma sociedade pode ser livre a menos que as mulheres sejam livres. Claramente, essa fação da oposição não se preocupa com a libertação das mulheres, e o mesmo se passa com os seus aliados, Netanyahu e Trump.

Feministçerçeve: Por último, o que gostariam de dizer às feministas que vivem na Turquia e noutros países que se desejam solidarizar com a luta das mulheres no Irão? Como podemos oferecer um apoio significativo à luta do povo iraniano?

Osyan: Exortamos todos a não aceitarem este “golpe mediático” que apresenta os monarquistas como a principal — e única — solução para o futuro do Irão. Por favor, ajudem a amplificar as nossas vozes: uma voz independente que não é apoiada por nenhuma potência no mundo, uma voz contra a República Islâmica, contra a guerra, e contra o fascismo.

Apelamos a todos que não acreditem na narrativa do regime que reduz as justas lutas do povo do Irão a operações da Mossad. Apoiem o povo do Irão, apesar das manobras e jogos de poder de potências geopolíticas rivais.

A Turquia irá desempenhar um importante papel nas próximas mudanças na região. Enquanto Erdogan se prepara para explorar o colapso da República Islâmica ao serviço dos seus próprios interesses, as pessoas devem estar preparadas para se organizarem e lutarem contra os seus próprios governos e contra as alianças dos seus governos com os nossos opressores.

A todas as pessoas do mundo: por favor, não permitam que os vossos governos nos usem, a nós e à nossa luta, como moedas de troca em jogos geopolíticos, nem que interfiram na nossa luta pela liberdade. Quanto mais avançarem nas vossas próprias lutas pela liberdade, mais fortalecerão a nossa. Apoiem-nos contra qualquer ofensiva de guerra ou agenda imperialista imposta ao Irão.

Tirem as mãos do Irão! Abaixo a República Islâmica!

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