Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 5 de janeiro de 2017, aworldtowinns.co.uk

Protestos abalam o Irão!

O regime iraniano foi abalado por uma semana de protestos intensos e frequentemente violentos em cerca de 80 cidades e vilas de todo o país.

Ao contrário da última sublevação política em 2009, em que muitos manifestantes urbanos da classe média estiveram ao lado de fações ditas reformistas no interior do regime, desta vez as pessoas que saíram às ruas, esmagadoramente jovens, eram sobretudo dos bairros pobres e da classe média-baixa, frequentemente dos arredores das zonas urbanas para onde muitas pessoas das zonas rurais se mudaram durante a última década. O regime tem considerado estas pessoas como uma parte chave da sua base social, ou pelo menos conta que elas se mantenham silenciosas. Contudo, o que mais tem marcado este movimento é a forma como visou todo o regime e a própria República Islâmica, incluindo todas as suas fações.

A vaga de protestos começou a 28 de dezembro em Mashhad, a segunda maior cidade do Irão, com dois milhões de habitantes, na região nordeste do país que faz fronteira com o Afeganistão e o Turcomenistão. Esta cidade natal do Líder Supremo, Aiatola Ali Khamenei, é considerada uma praça-forte da fação de “linha dura” dele.

Como parte da luta interna dentro das forças dominantes no Irão, o presidente “reformista” Hassan Rouhani tinha tentado minar os rivais dele divulgando detalhes da proposta de novo orçamento do país. Este inclui uma redução dos subsídios às famílias, o aumento dos preços dos combustíveis (e portanto do preço de muitos outros bens essenciais) e a privatização das escolas públicas. A divulgação do orçamento também expôs o enorme aumento do dinheiro que vai para as forças armadas (não só para armas mas também para enriquecer as empresas dos seus já muito ricos dirigentes), para os representantes religiosos do regime e para as fundações islâmicas que são a fonte dos vastos rendimentos deles. O homem-forte local da fação de “linha dura”, o líder das orações de sexta-feira da cidade, Aiatola Ahmad Alamolhoda, que concorreu contra Rhouhani nas últimas eleições, respondeu a Rouhani encorajando manifestações contra o aumento dos preços. O objetivo do líder das orações, conhecido por proibir concertos públicos de música, era usar as reivindicações económicas dos pobres como aríete para combater as reformas do estilo de vida defendidas por Rouhani e pela fação dele.

Isto foi brincar com o fogo, e as chamas rapidamente começaram a visar toda a estrutura da República Islâmica que todas as fações do regime representam e tentam preservar.

No dia seguinte, os protestos propagaram-se ao lado oposto do país, à cidade de Kermanshah, na região ocidental predominantemente curda. A inação oficial na sequência de um desastroso terremoto que aí ocorreu em novembro passado já tinha destruído a crença na legitimidade do regime. Esta cidade é um importante centro das forças de segurança e do equipamento delas, mas as suas ambulâncias, helicópteros e máquinas de remoção de terra mantiveram-se paradas, ao mesmo tempo que as forças armadas e as autoridades civis não ergueram um dedo para salvar os sobreviventes presos nos escombros nem para ajudar as dezenas de milhares de feridos. Isto criou o grito “O estado está morto!” – que acusa o regime pela sua pouca consideração pelas vidas do povo minoritário curdo (tal como o regime de Trump tratou Porto Rico na sequência do recente furacão aí). As pessoas nas ruas gritaram “Liberdade para todos os presos políticos” e “Liberdade ou morte!”

No dia seguinte, os pontos que marcavam os locais de protesto formavam uma larga faixa que atravessava o país. A notícia propagou-se através do Telegram, uma rede social encriptada usada por dezenas de milhões de iranianos. A linha dura avisou que os manifestantes estavam a atravessar uma linha vermelha ao se oporem ao regime islâmico em vez de se manterem focados nas dificuldades económicas. Rouhani pediu às autoridades para ouvirem essas exigências, ao mesmo tempo que também se juntava à condenação da oposição ao regime. Enquanto os governantes debatiam se a República Islâmica seria melhor defendida por um punho de ferro ou por uma língua de veludo, os Guardas Revolucionários do regime vacilavam em intervir diretamente com medo que já não se conseguissem apresentar como salvadores do povo contra os políticos caso massacrassem a população.

As formas de protesto variaram de manifestações através da cidade a concentrações em espaços públicos e ações-relâmpago em esquinas em que as pessoas se juntavam e depois dispersavam antes da chegada das forças de segurança. Na chamada cidade santa de Qoms, conhecida pelas suas escolas clericais, as pessoas atacaram a Basij (milícia islâmica), edifícios governamentais e esquadras da polícia. No centro de Teerão, foram usados canhões de água e gás lacrimogéneo contra as pequenas multidões e dezenas de estudantes da Universidade de Teerão apelaram aos transeuntes para se juntarem a eles.

Em todo o lado, as pessoas gritaram “Vocês transformaram o Islão numa rampa para esmagarem o povo”, um slogan mordaz em farsi [a língua persa], e “Abaixo a teocracia – a República Islâmica tem de ser destruída”. Em Zanjan, uma multidão rasgou e queimou um grande cartaz ao ar livre com um retrato de Khamenei. Em oposição ao slogan dos aiatolas quando eles tomaram o poder em 1979, “Independência, liberdade, República Islâmica”, as pessoas gritaram “Independência, liberdade, república iraniana”, juntamente com “Morte ao ditador, morte a Rouhani!” Também se ouviram slogans a favor da restauração da monarquia derrubada. Não há relatos de slogans a favor dos candidatos reformistas verdes que lideraram as pessoas nas ruas em 2009, quando as eleições presidenciais foram viciadas. Também ausente desta mais recente vaga de protestos esteve o slogan “Allahu Akhbar”, mais uma indicação de importantes mudanças na perspetiva dos manifestantes. Um cartaz dizia simplesmente: “A todas as fações do regime: Acabou-se o jogo”.

Ao fim de uma semana, os Guardas Revolucionários tinham sido deslocados para as províncias de Hamadam, Isfahan e Lorestan. O governo anunciou que tinham sido mortos 22 manifestantes, juntamente com dois membros das forças de segurança, e que centenas de pessoas tinham sido detidas. As autoridades organizaram manifestações a favor do regime em Teerão e noutras cidades, entre as quais Mashhad, com milhares de participantes. “A sedição acabou”, anunciou o chefe dos Guardas Revolucionários.

As fações do regime que se tinham unido em torno do acordo nuclear do Irão com o Ocidente, na esperança de uma expansão económica que levantasse o seu regime, estão uma vez mais a atacar-se umas às outras. As várias fações estão a culpar-se umas às outras e a tentar usar os acontecimentos para obterem vantagem contra os seus rivais. Esta divisão entre a classe dominante forneceu uma brecha através da qual rebentou alguma da fúria das pessoas contra o regime, em particular entre as classes mais baixas que nos últimos anos representaram um papel muito reduzido na política pública do país, mesmo quando as classes médias urbanas, o principal suporte da oposição reformista, parecem ter decidido que por enquanto não se juntariam a esta agitação radical.

Estes seis dias de revolta, entre pessoas que se contava que não se revoltassem, deram ânimo às pessoas em todo o lado e lançaram o medo em governantes reacionários para além das fronteiras do Irão. O presidente turco Recep Tayyip Erdogan exprimiu alarme com as implicações para a estabilidade regional. Até o governo saudita, ao mesmo tempo que se regozijava com as dificuldades do regime iraniano, absteve-se de dizer alguma coisa que pudesse encorajar outros a se revoltarem contra um regime religioso. As linhas divisórias que foram abertamente arrombadas não foram resolvidas. Isto trouxe as primeiras boas notícias que as pessoas no mundo tiveram em demasiado tempo.