A LUTA DOS OPERÁRIOS DA SOCIEDADE DE PORCELANAS - COIMBRA

Por denúncia de alguns trabalhadores da Sociedade de Porcelanas ficamos a saber que:

Greve por tempo indeterminado - decisão tomada em plenário pelos trabalhadores - até que os salários em atraso sejam pagos (mês de Dezembro e 13º mês). Os trabalhadores não deixam sair qualquer mercadorias ou equipamento da fábrica. O patrão quer que os trabalhadores voltem ao trabalho e façam só greve de zelo.

Objectivo manifestado pelo patrão (Ramiro Vieira, dito empresário, com interesses na Argentina e em outras áreas... ) em reduzir o número de operários, dos actuais 140 ficariam 70 operários. Destes só cerca de um quarto são trabalhadores com menos de 35 anos. Há famílias inteiras, marido e mulher, empregadas na fábrica.

A União dos Sindicatos do Centro (USC), voz do Sindicato dos Cerâmicos do Centro (mais CGTP/Inter) tem dois discursos: para os trabalhadores, diz para lutarem, para os delegados sindicais, diz para irem vendo quem é que deve sair ou ficar, substituindo-se ao próprio patrão na concretização dos despedimentos - o patrão manda, o sindicato cumpre!

Não há dinheiro para os salários, mas há para as indemnizações, os trabalhadores a contrato já saíram todos. Foram admitidos trabalhadores imigrantes (ucranianos) a contrato, cerca de 10, que dormem na fábrica, e alguns engenheiros portugueses.

Os trabalhadores resolveram e foram, muito justamente, falar com os trabalhadores da outras fábricas pertencentes ao mesmo patrão, situadas na zona de Fátima (S. Mamede), a solicitar apoio, bem como contactar os hipermercados de Coimbra, através da Câmara de Coimbra, a fim de angariar "cabazes" de alimentos para as famílias de trabalhadores em situação mais aflitiva.

O governador civil de Coimbra foi contactado pelos trabalhadores sem que, até agora, se tenha manifestado ou falado com os trabalhadores.

Quais as ilações a tirar?

Que este patrão, à imagem dos restantes, só lhe interessa é ganhar dinheiro (função de todo o bom capitalista), não se importando se há trabalhadores a passar fome, ou no desemprego.

Que para atingir os seus objectivos conta com a prestimosa colaboração dos dirigentes sindicais (alguns até militantes de um partido que diz defender os interesses dos trabalhadores - o PCP) que utilizam um pau de dois bicos. Assim se compreende que as fábricas em Coimbra fechem umas a seguir às outras e com tanta facilidade! Só que desta vez, até os delegados sindicais não estão pelos ajustes quanto a serem eles a indicar o nome dos colegas a despedir!

Que as ditas autoridades, isto é, governo - que agora diz não governar porque está demissionário! - e Câmara Municipal de Coimbra (antes PS, agora PSD) nada fazem para impedir os despedimentos eminentes dos trabalhadores. O governador civil, esse nem sequer fala!

Que os trabalhadores só podem contar consigo próprios, com a sua determinação, e com o apoio dos outros trabalhadores - trabalhadores das outras fábricas do mesmo patrão (amanhã poderão ser eles!) e de todos os trabalhadores da região de Coimbra, daí a necessidade de propagandear o mais que possível a sua luta e as suas justas reivindicações - a primeira das quais é o direito ao pão (salário digno e pago pontualmente).

Que se este governo fosse mesmo um governo socialista há muito que teria metido os patrões vigaristas e especuladores na prisão (Vales Azevedos há muitos!) e teria tomado conta das empresas em risco de fechar, apoiando os trabalhadores na gestão das mesmas. Os trabalhadores se servem para produzir também servem para dirigir desde que disponham dos meios adequados.

Que se a democracia saída do 25 de Abril fosse mesmo uma democracia para quem trabalha, há muito que não haveria nem desemprego nem salários em atraso.

Coimbra, 21 Janeiro 2002