Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 11 de dezembro de 2017, aworldtowinns.co.uk

O que mudou com o anúncio de Trump sobre Jerusalém?

O anúncio feito pelo Presidente norte-americano Donald Trump de que os EUA iriam reconhecer Jerusalém como capital de Israel tem sido visto por demasiadas pessoas como “motivado pelo ego” ou como algo irracional, uma tentativa de distração em relação aos muitos desafios políticos e legais. Isto é uma interpretação errada de uma situação extremamente perigosa. Há ampla evidência de que o regime de Trump tinha planeado esta decisão muito antes das suas atuais dificuldades políticas. De facto, ela foi mais uma das promessas de campanha dele que muito pouco liberais levaram a sério.

Lendo um discurso cuidadosamente elaborado, Trump acentuou a continuidade da decisão dele em relação à política norte-americana das últimas décadas, bem como a ideia de que esta decisão constituiu uma “nova abordagem”, à luz de “estratégias falhadas”. A “nova abordagem” é a de, tal como noutros lugares do mundo, Trump estar a exacerbar deliberadamente os antagonismos no Médio Oriente, ao mesmo tempo que despe o verniz liberal que durante muitos anos foi uma capa para a política norte-americana e estar a afirmar abertamente a hegemonia norte-americana e a acelerar a tomada de decisões para a conseguir.

O argumento da continuidade é que desde 1995 o Congresso norte-americano vem pedindo aos EUA que mudem a sua embaixada para Jerusalém. Isto de facto capta o grau deliberado de ambiguidade – ou de duplicidade de linguagem – da política norte-americana oficialmente afirmada. Esta política tem sido esmagadoramente pró-sionista de uma maneira plena e inconfundível. Contudo, os EUA também têm avançado com a possibilidade de poderem usar a sua influência para conter Israel (por exemplo, ao poderem um dia limitar a expansão dos colonatos israelitas na Cisjordânia). Isto permitiu a Washington converter a Autoridade Palestina [AP], cujo núcleo, a Organização de Libertação da Palestina, foi historicamente muito importante na resistência palestina, num aliado das forces de segurança de Israel para o controlo dos palestinos. Chamar aos EUA um “negociador honesto” nas relações israelo-palestinas é apenas um nome bonito para a feia realidade de que os EUA têm usado o “processo de paz” para controlar os palestinos e dar um pouco de cobertura política a regimes como o egípcio, cuja cumplicidade tem ajudado grandemente Israel a transformar Gaza numa prisão ao ar livre.

Trump deixou, muito deliberadamente, aberto suficiente espaço para a AP e o seu presidente Mahmoud Abbas, e outros, manterem essa colaboração. Ao dizer que “não estava a tomar uma posição sobre (sic) quaisquer questões do estatuto final”, Trump ofereceu uma magra esperança de que algum dia os EUA poderão vir a apoiar algum tipo de presença palestina em Jerusalém Oriental. Ele nem endossou nem rejeitou a ideia de uma futura solução de dois estados (um estado para os palestinos e outro para os israelitas), embora tenha deixado claro que se isso acontecesse teria de ser em condições aceitáveis para Israel (“aceitáveis para ambos os lados”).

Mas o anúncio de Trump também representa um salto na resolução do que tem sido um pequeno e deliberado nível de ambiguidade e hipocrisia sobre o papel dos EUA a dar uma bênção oficial ao apetite de Israel pelos territórios conquistados. Ao aprovar a tomada por Israel de Jerusalém em nome de simplesmente reconhecer a “realidade” também é um importante passo para a aprovação oficial para Israel ocupar permanentemente toda ou a maior parte da Cisjordânia, incrementando perigosamente a atual limpeza étnica que está a ser levada a cabo pelo estado teocrático sionista. Nestas circunstâncias, não há claramente nenhuma possibilidade para um estado palestino viável.

Além disso, Trump humilhou deliberadamente a Autoridade Palestina e os regimes do Médio Oriente que a apoiam. Isto irá certamente causar dificuldades à Arábia Saudita, por exemplo, cuja família reinante, embora crescentemente aliada a Trump e implicitamente alinhada com os interesses israelitas, continua a depender do seu alegado papel de defensor da fé e dos locais santos muçulmanos sunitas para legitimar a monarquia.

Isto não significa que Trump tenha desfeito a aliança dele com o Príncipe Real Saudita Mohamed Bin Salman. Pelo contrário, ele esfregou o nariz dos governantes sauditas no facto de que eles não podem tomar nenhuma decisão e que se trata de tudo menos de uma aliança de iguais. O mesmo acontece com a monarquia da Jordânia (em que metade dos súbditos são palestinos) e com o general Abdel Fattah al-Sisi que governa o Egito. Trump também envergonhou as potências europeias cuja impotência para montarem um desafio efetivo à política norte-americana está à vista de todos. Em vez de ficar na defensiva em relação ao facto de a decisão de Trump representar uma violação de todas as resoluções existentes da ONU e do direito internacional contra a anexação pela força do território, a embaixadora de Trump na ONU, Nikki Haley, vomitou uma diatribe contra a própria ONU. Isto está em linha com a recente ameaça de Trump de fechar os escritórios da Autoridade Palestina na ONU se os palestinos ousarem abrir um processo de acusações contra Israel junto do Tribunal Penal Internacional. Em tudo isto, a questão é declarar e demonstrar que o direito internacional, as considerações diplomáticas e as opiniões dos países aliados não vão dissuadir os EUA de terem uma afirmação global mais agressiva de “os Estados Unidos em primeiro lugar”. Isto está muito relacionado com as ameaças de Trump de aniquilar a Coreia do Norte.

A decisão de Trump trouxe êxtase aos cristãos evangélicos, um pilar de apoio dele entre os civis e os militares. Estes literalistas da Bíblia que estão convencidos de que Trump está a fazer “o trabalho de deus” para criar o domínio de Cristo na Terra, o que, na ideologia deles, requer a concretização da profecia bíblica de que um messias judeu será entronizado em Jerusalém (embora muitos deles acreditem que no segundo ato desse drama épico os judeus que não aceitem Cristo serão lançados para sempre no inferno para arderem juntamente com os muçulmanos e quase todos os outros). Trump fez este discurso acompanhado pelo seu vice-presidente fundamentalista cristão Mike Pence e flanqueado por duas bandeiras norte-americanas e duas árvores de Natal. Os pinheiros decorados seriam estranhos no gabinete de um presidente mas não têm piada agora que Trump declarou que exibi-los era um símbolo de resistência à “guerra” contra os valores cristãos.

O discurso de Trump invocou deus quatro vezes nos últimos segundos e referiu se aos “muçulmanos” em vez de à Palestina. Esta representação da questão palestina como um conflito religioso entre a civilização “cristã” (ou por vezes “judaico-cristã”) e o Islão beneficia o fascista Trump e os parceiros fascistas cristãos dele, outros ideólogos imperialistas e os sionistas. Mas também beneficia os sauditas, os monarcas dos Emirados e os outros regimes reacionários da região. Beneficia muito os salafistas jihadistas como o Daesh (também conhecido como ISIS) e a República Islâmica do Irão. Esta confluência de interesses entre inimigos ficou ilustrada quando Israel continuou o discurso de Trump atacando o que disse serem instalações do Hamas e matando duas pessoas. Jornalistas do The New York Times e do Le Monde disseram que isto tinha sido feito por razões políticas em vez de militares. O Hamas, com o seu fundamentalismo religioso e as suas ligações ao Irão, é há muito tempo o opositor favorito de Israel.

Bob Avakian descreveu este tipo de contenda entre os imperialistas ocidentais (McMundo/McCruzada) e as forças jihadistas como “os dois obsoletos” – “os estratos historicamente obsoletos da humanidade colonizada e oprimida contra os estratos dominantes e historicamente obsoletos do sistema imperialista” e salientou: “Estes dois polos reacionários reforçam-se um ao outro, mesmo que ao mesmo tempo se oponham um ao outro. Apoiar um ou outro destes ‘obsoletos’, acabará por fortalecer ambos.” Forças como o Hamas querem projetar a luta palestina pela libertação nacional contra Israel em termos religiosos. Isto coloca um sério desafio aos apoiantes da causa palestina. O que é necessário é uma luta pela libertação que faça parte da luta mais geral para libertar a humanidade de todas as formas de opressão e do obscurantismo que simultaneamente as refletem e as sustentam, ao mesmo tempo que combata as tentativas imperialistas de usar o fundamentalismo islâmico como pretexto para mais ataques.

Israel foi esculpido através da limpeza étnica de centenas de milhares de habitantes da Palestina, e ainda mais chacinas massivas ou pior serão provavelmente necessárias para a continuação da sua existência como estado definido pela religião e/ou pelo ADN que para o sionismo determina a identidade. O caráter de Israel como estado de colonos e por conseguinte a sua incapacidade de sobreviver sem um poderoso apoio imperialista é o que fez dele uma boa correspondência às necessidades norte-americanas, um pilar essencial do controlo norte-americano da região durante décadas. O que Trump representa não é apenas a substituição dos cínicos valores imperialistas liberais ocidentais pelo fundamentalismo religioso e o novo nível de sede de sangue não dissimulada que ele possibilita. Também está a responder à necessidade de um novo ímpeto para o que ele chama “O Grande Regresso Norte-Americano”. Isto significa fortalecer a dominação norte-americana face a uma situação mundial em mudança, incluindo as rivalidades com outras potências imperialistas (entre as quais a Alemanha, a Rússia e, cada vez mais, a China) e os esforços de potências regionais (como a Turquia e o Irão) e de outros inimigos reacionários famintos por reforçarem a posição deles dentro da opressora ordem mundial à custa dos EUA. Isto, para Trump, requer tanto o fim de qualquer ambiguidade nas relações EUA/Israel com um papel ainda mais agressivo para Israel na região – talvez, ainda que como exemplo, contra o Irão. O anúncio de Trump promete exatamente o oposto do que ele disse ser o seu objetivo – a paz no Médio Oriente.

Quando há um ano Trump entrou na Casa Branca, algumas pessoas bem-intencionadas pensaram que isso não tinha importância a porque a situação para os palestinos não podia ficar pior. Mas agora o mundo enfrenta a possibilidade real de Israel poder derramar sangue a uma escala ainda mais massiva, na Palestina e noutros lugares. Isto realça a ligação entre a luta nos EUA para expulsar o regime fascista de Trump e Pence e outras lutas justas em todo o lado contra o imperialismo e os seus cães de fila como Israel