O seguinte artigo é da edição online n.º 480, com a data de 1 de março de 2017, do jornal Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (revcom.us).

 

Michael Slate entrevista George Prochnik

Sobre Stefan Zweig, a ascensão de Hitler e “quando é demasiado tarde para parar o fascismo”

George Prochnik foi entrevistado a 24 de fevereiro de 2017 no programa The Michael Slate Show na Rádio KPFK Pacifica. Este texto é uma reprodução dessa entrevista.

Michael Slate: George Prochnik é um escritor e tem um artigo na edição de 6 de fevereiro de 2017 da revista The New Yorker, “When It’s Too Late to Stop Fascism, According to Stefan Zweig” [“Quando é demasiado tarde para parar o fascismo, segundo Stefan Zweig”]. Nos anos 1930, Stefan Zweig era o autor mais traduzido do mundo. Ele fugiu da Áustria quando os nazis a ocuparam em 1934. Em 1941, estava exilado nos EUA. Passou os meses finais da sua vida a escrever furiosamente as suas memórias e essas memórias eram um aviso às pessoas do futuro. Ele tinha aprendido em primeira mão o que significava não confrontar o fascismo logo quando ele surge, quais as consequências disso.

O artigo de George Prochnik é um texto de tal maneira persuasivo e tão necessário e importante hoje dado o que está a acontecer no mundo. Por isso, estou realmente contente em dar as boas-vindas ao George no programa. George, alegra-me que esteja aqui.

George Prochnik: Obrigado tanto por me receber como pelo que disse sobre o artigo.

Michael Slate: Bem, passemos a isso. Você escreveu recentemente um artigo na The New Yorker sobre o escritor austríaco Stefan Zweig e as memórias dele, O Mundo Que Eu Vi, que ele escreveu no verão de 1941. Diga-nos quem foi Zweig e porque é que as memórias dele são tão importantes que você sentiu que tinha de escrever sobre isso.

George Prochnik: Bem, Zweig era um judeu austríaco abastado. Cresceu em Viena na plenitude do seu encanto cosmopolita. Desde muito cedo, decidiu que a vocação dele era escrever e teve êxito imediato. Começou por escrever poesia, depois começou a escrever ensaios para jornais, e tudo o que fez teve audiência. Começou então a escrever pequenas histórias extremamente populares, ensaios políticos, e por fim histórias, um romance, biografias, um libreto, uma peça de teatro.

Tudo o que Zweig fazia aumentava a aclamação mundial dele. Ele via-se a si mesmo – porque não só se tornou muito popular dentro da Áustria como, de facto, em todo o mundo, e no pináculo da carreira dele, em meados dos anos 1920, era o autor mais amplamente traduzido no mundo e, muito provavelmente, o de maior sucesso. Ele via-se como representando todos os valores do humanismo que ele esperava que as tendências históricas iriam afirmar cada vez mais à medida que a vida dele avançava. O primeiro golpe terrível para esse sonho, claro, foi a I Guerra Mundial, que estilhaçou o Império Hapsburg, equilibrado entre diferentes grupos étnicos, que era um equilíbrio imposto mas que pelo menos durante um período de tempo manteve afastados os piores aspectos do preconceito e do rebaixamento étnicos.

Após essa guerra, Zweig decidiu que mais importante para ele do que ser um autor célebre era fazer o que pudesse para promover a tolerância, o humanismo internacional, etc. Embora continuasse a escrever a um ritmo extraordinariamente prolífico, ele passou provavelmente ainda mais tempo a organizar diferentes conferências, a fazer palestras, a tentar reunir os principais humanistas de todo o lado – do Leste, bem como do Ocidente, para falarem sobre o que poderia ser feito para assegurar que a catástrofe da I Guerra Mundial não se repetisse. Assim, ao longo deste tempo que decorreu até à ascensão do fascismo no final dos anos 1920 e início dos anos 1930 antes de Hitler de facto ter chegado ao poder, Zweig sentia que a situação dele – apesar da séria preocupação dele com outras populações mais vulneráveis, que a própria situação dele era relativamente imune. E claro, depois de os nazis terem chegado ao poder e por fim também à Áustria, que mais tarde nos anos 1930 foi ameaçada, colapsou e caiu sob o domínio nazi, Zweig viu-se de repente entre a população de refugiados que ele tinha observado com compaixão e com um terrível sentimento de premonição que datava de muito antes, de 1933, quando Hitler se tornou chanceler.

Portanto, depois de ele próprio ter deixado a Áustria, foi para Inglaterra e depois para os Estados Unidos. E por fim acabou no Brasil. Mas nos Estados Unidos fez o essencial do trabalho das suas memórias. No verão de 1941, viveu, entre todos os lugares possíveis, numa pequena cidade ao longo do rio Hudson e perto da Cidade de Nova Iorque chamada Ossining. Viveu numa casa – uma casa muito modesta – diferente dos grandes apartamentos e dos grandes hotéis onde tinha passado a maior parte da vida dele, muito perto da prisão de Sing Sing. Ele trabalhou furiosamente nessas memórias porque não estava tanto a tentar preservar um registo da existência privada dele. Não diz virtualmente nada sobre a própria vida doméstica dele. O que ele estava a tentar fazer era olhar para o que tinha acontecido à geração dele e compreender como mesmo alguém tão privilegiado como ele, já para não falar nos milhões de pessoas que não tinham todas as proteções que ele tinha pensado que o barricariam contra os piores efeitos do fascismo. Como é que tudo tinha resvalado? Portanto, o documento que ele acabou por produzir a um ritmo incrivelmente rápido – por vezes ele estava a escrever várias centenas de páginas num curto período de algumas semanas – o que ele acabou por produzir é este extraordinário, acho que poderíamos dizer, quase um registo em tempo de real de como uma civilização que tinha parecido tão segura e tão investida nos seus valores democráticos progressistas, se podia ter desmoronado tão totalmente e num período relativamente curto de tempo. Ele realmente tenta olhar para isso, e eu estou convencido, depois de ter passado muito tempo com este livro, de que há lições que são tristemente muito pertinentes para nós hoje.

Michael Slate: Esse foi um dos aspectos realmente importantes que você salientou neste artigo. Mesmo o título do livro, O Mundo Que Eu Vi, e ele está a falar para uma audiência que claramente não é uma audiência que necessariamente estava a viver no tempo sobre o qual ele estava a escrever e estava a olhar de facto para o futuro. Se ele na realidade pôde conceber um futuro, dado o que estava a acontecer nessa altura no mundo e que futuro poderia ser. Toda essa ideia de falar às pessoas sobre o que de facto estava a acontecer – isto é um aviso para o futuro. Eu pensei que o que ele salientou foi que é uma lei da história que os contemporâneos negaram o reconhecimento do início dos grandes movimentos que determinam os tempos deles. Se virem ao longo da história, o que tem muita importância é ver como as coisas se desenvolvem e como as coisas chegam ao ponto a que chegam.

George Prochnik: Isso é absolutamente correto – tudo o que você acabou de dizer. Em primeiro lugar, em termos do livro como mensagem para o futuro, penso que ele o concebeu literalmente como uma espécie de mensagem numa garrafa para o futuro. Ele sabia que a própria geração dele ia ser submersa, como ele disse, num abismo e num inferno indescritível durante tanto tempo quanto ele, que tinha 60 anos quando estava a escrever isso, podia ver. Ele tinha 59 anos ou estava a fazer 60. Ao mesmo tempo, ele não pensava que os nazis acabassem por destruir o planeta. O que ele sentia era saber se havia alguma coisa que poderia dar para permitir que a geração seguinte reconstruísse a civilização em termos mais saudáveis, não podia haver nenhuma missão mais elevada que ele pudesse assumir.

Quanto ao ponto em que você menciona a maneira como é negado aos contemporâneos verem no que se irão tornar os grandes ou mais importantes movimentos do tempo deles; isto é algo que Zweig apresenta de uma maneira muito, muito pungente. Quando Hitler começou a criar o seu próprio nome – que foi no início dos anos 1920 – ninguém o levou a sério, porque ele parecia um palhaço, inculto, tão rude e, em última análise, desagradável que a elite, os intelectuais, não conseguiam imaginar que essa pessoa alguma vez se viria a tornar uma ameaça para toda a cultura alemã, austríaca e, em última análise, global. Sabe, há outra cena em que penso neste contexto. O filho do escritor Thomas Mann, Klaus Mann, que também era um autor, descreve ter visto Hitler no início, numa casa de chá em Munique, e ele viu Hitler a encher a cara com baforadas de creme e – como ele diz – ele era de tal forma um porco pequeno-burguês e tão sórdido de um modo tão visceral, e não um líder, não uma figura que parecesse capaz de inspirar o desejo de uma maior glória alemã, já para não falar em preservar qualquer ideal de civilização. Ele disse: “Este homem nunca poderá ser uma ameaça para nós.” E disse: “É impossível.”

Penso na nossa própria situação aqui em que é obviamente o caso de Trump que tem andado por cá há muitos anos à vista de todos. Ninguém que estava em posição de o parar compreendeu durante muito tempo que ele poderia vir a ser capaz de canalizar nenhum tipo de disposição de uma grande parte do país que o pudesse acabar por empurrar para o poder.

Michael Slate: Sabe, uma das coisas que também surge, no seu artigo, e eu pensei que realmente me fez parar porque ao mesmo tempo aquilo de que está a falar em termos de Zweig e do que ele começou a compreender. Quando ele de facto lá estava, num certo momento ele acabou mesmo por aplaudir os nazis pela capacidade de trazerem “um sentimento renovado de paixão e importância” às eleições alemãs. E eu não paro de pensar em toda a ideia de que alguém possa aparecer e agitar as coisas – a ideia é incendiar as cabeças das pessoas e então poder entrar aí de facto e poder combater algumas coisas, mas foi uma coisa realmente estonteante ver alguém que se preocupava da maneira como ele se preocupava com o que estava a acontecer e, ao mesmo tempo, ficar de certa forma cego por todo este aspecto de que os nazis tiveram a capacidade de trazer um sentimento renovado de paixão e importância às eleições alemãs.

George Prochnik: Penso que isso é um ponto muito importante e, uma vez mais, houve certas pessoas que olharam para o lado – que continuam a olhar para o lado – eu tenho visto esta frase em vários ensaios e sítios internet relativamente conservadores: a ideia de que, bem, o que este presidente está a fazer é agir como um touro numa loja de porcelanas; tínhamos um problema enorme, algo tinha de acontecer. Ele está aí. Ele vai fazer estremecer as coisas e há este sentimento quase astuto, pestanejante, gracejante de que eles vão saber como guiar esta força no momento certo. Falando historicamente, a ideia de que se pode controlar um excêntrico carismático no momento em que se decidir que ele foi longe demais – tem sido repetidamente refutada. Penso que temos de ser muito claros em que as paixões que um líder pode estimular – ainda que essas paixões possam ter diferentes motivações e vir de todo o tipo de pessoas diferentes com objetivos diferentes em mente, elas não validam de maneira nenhuma a plataforma mais vasta em que esse líder carismático se baseia. As paixões podem ser reais, sinceras e ter elementos positivos. Isso não faz com que aquilo que o próprio líder representa seja algo que nós como país possamos aceitar.

Michael Slate: E isso é extremamente importante. Eu quero dizer uma vez mais, vejam o que está a acontecer hoje – e pensem nisso. Com todas as coisas que vimos no caminho para as eleições onde era do tipo: “Vejam, as pessoas da cintura de ferrugem estão realmente a aparecer – pessoas que nunca tinham votado – que ficaram tão alienadas pelo sistema e que finalmente encontraram o seu herói”. Quando leio o seu artigo, penso: “Maldição, há aqui demasiadas semelhanças.”

George Prochnik: Certo. Houve tantas razões para se ser cético de que ele viesse a ser um herói das pessoas que se sentiam esquecidas, destituídas, etc., a começar claro pela vasta riqueza dele e a notória falta de generosidade dele como ser humano em todos os sentidos. Mas ele disse o que pessoas queriam ouvir. Um outro ponto que Zweig salienta e que é relevante, porque é óbvio que o voto do, nas palavras de Trump, “homem esquecido”, era importante.

Mas outra coisa que Zweig salienta sobre a ascendência de Hitler, no momento em que o próprio Zweig começou a levar Hitler a sério, foi quando ele percebeu quanto dinheiro estava a ser gasto nos diferentes bandos de jovens que ele viu a treinar naquelas cidades ao longo da fronteira austro-alemã. Eles conduziam caminhões novos, usavam uniformes perfeitamente novos, e todos eles tinham muito, muito cuidado com a sua aparência. E ele percebeu que havia interesses financeiros que usavam o nascente Partido Nazi como fachada. E também houve inquestionavelmente muitos interesses financeiros por trás de Trump. E não deveríamos perder isso de vista – interesses financeiros que acabaram, desde a eleição, independentemente de como tenham votado, por decidir, bem, talvez isto afinal de contas possa funcionar a nosso favor. Um amigo estava a dizer-me recentemente que um amigo dele, que está envolvido num fundo financeiro, fez centenas de milhões de dólares nas primeiras semanas após a eleição de Trump. Obviamente, há este enorme agrupamento em Wall Street. Portanto, também houve uma aceitação das ações mais odiosas, do ponto de vista dos direitos humanos, tomadas pela administração, infelizmente penso que porque a cobiça das pessoas com dinheiro até agora ainda está a ser recompensada. Portanto, não é só que esta população encontrou o seu herói, é que uma outra população encontrou alguém que lhes permite ficar muito mais rica e, de facto, aumentar as próprias desigualdades socioeconómicas que de alguma maneira tornaram possível este presidente.

Michael Slate: Você diz no seu artigo que Zweig reconheceu o papel crucial da propaganda na corrosão da consciência do mundo naquela altura, e isso foi um enorme benefício para o que Hitler estava a tentar fazer. Falemos sobre isso.

George Prochnik: Um ponto que Zweig salienta é que no início da I Guerra Mundial ainda era possível a um poeta, a um intelectual, a uma voz eloquente, intervir no brado em direção à guerra, e fazer uma declaração que mesmo que não detivesse o rumo em direção à guerra, causava pelo menos suficiente controvérsia, suficiente dissensão dentro daquela pressa para a matança, que havia alguma esperança de que fosse possível afetar o curso da história através de articular suficientemente os perigos do que aí vinha.

Mas no decurso daquela guerra, aquilo em que pensamos hoje como propaganda moderna realmente se instalou, e saturou todas as formas de comunicação, não só a comunicação social impressa, mas também a rádio, e Zweig documenta, até certo ponto, como a própria capacidade de exagerar o medo dos estranhos, os perigos colocados pelos estrangeiros, se tornou não apenas num fenómeno autoperpetuado, mas num fenómeno em expansão, em bola de neve, pelo que, no final da guerra, ele de facto rotulou o que a imprensa estava a fazer de “dopagem da excitação”, que havia uma necessidade de produzir um certo tipo de efeito nos leitores ou nos ouvintes, para que pudessem continuar a ter o que hoje chamamos uma audiência.

Quando a II Guerra Mundial estava a tornar-se mais iminente, Zweig disse que a “organização das mentiras”, que é como ele descreve a propaganda, tinha-se tornado tão eficiente que já não era mais possível a ninguém dizer nada que pudesse ter o mais leve efeito na corrida para a loucura em que aquela guerra terrível se tornou. E houve tantas declarações eloquentes no período anterior ao nosso próprio período eleitoral. Estou a pensar no justamente celebrado discurso de Michelle Obama na Convenção Democrata, e nalgumas outras circunstâncias, que se fosse possível as palavras terem importância para toda a população, elas teriam tido importância nesses momentos. Infelizmente, é óbvio que a nossa capacidade de escolhermos o nosso próprio alimento noticioso, através das redes sociais, a nossa falta de qualquer padrão global de verdade, conduziu a uma situação em que a propaganda é vista agora como um lado ou o outro, e eu alegaria, infinitamente mais pernicioso do lado da direita, é visto agora como apenas um problema com as notícias. As pessoas estão à procura de uma reafirmação da sua própria opinião, não de alguma espécie de relato factual. Nesta situação, não sei como é que pode encontrar de novo um terreno comum.

Michael Slate: Uma coisa que é muito importante em relação a tudo isso é o facto de que a propaganda tem aquele outro papel que, tal como você salienta, tanto atingiu a base de Hitler, como encobriu algumas das coisas mais brutais que ele estava a fazer quando estava a consolidar o seu controlo do poder. As pessoas de facto não viram a verdade. A verdade era ofuscada com desejos ilusórios, mesmo quando todas essas coisas terríveis estavam a acontecer.

George Prochnik: Absolutamente. A combinação que você acabou de dizer, entre a maneira como a propaganda pôde esconder das pessoas o que de facto estava a acontecer e agitar os sentimentos para encorajar os piores excessos. Nós vimos isso. E também vimos – o último ponto que você salientou – como, numa situação em que tudo parece tão caótico e perigoso, qualquer gesto em direção à normalidade se torna em algo a que as pessoas se agarram desesperadamente. Houve um longo período prévio, tanto depois da eleição como no período anterior à eleição, em que eu sentia que Trump só tinha de não fazer nada terrível durante 24 horas, ou 36 horas, e houve declarações extraordinárias por parte da CNN que começava a soar como se isso fosse uma indicação clara de que ele se tinha convertido e tinha ficado como qualquer outro político.

Foi preciso muito pouco para as pessoas se quererem projetar tanto em qualquer sinal de que as coisas não iam ser tão desastrosas quanto muitas pessoas temiam.

Michael Slate: Uma pergunta que você fez no seu artigo foi, quão fundo na escala da degeneração moral iria Zweig julgar os estados Unidos hoje, com Trump?

George Prochnik: Bem, penso que um fenómeno encorajador aqui foi obviamente a força da resistência a todo o tipo de diferentes medidas que foram promulgadas pela Casa Branca. As manifestações e os boicotes mostraram que a população é dificilmente subjugada. E há muitos sinais positivos de as pessoas estarem a compreender que isto tem de se autossustentar e ganhar ímpeto.

Uma coisa que é clara sobre o caráter de Trump é que ele é capaz de perder o equilíbrio. E eu digo, com apenas uma ligeira ironia, que desejo que alguma da energia do movimento Ocupar se possa transformar num movimento Preocupar Trump. Penso que isto poderia tomar todo o tipo de diferentes formas: mais boicotes, greves, obviamente manifestações, todos os esforços possíveis para romper o próprio esforço dele para dar um verniz de quotidianidade ao que é de facto uma política radical.

Pelo que é um sinal positivo. Penso em termos de como estamos em relação às notícias, de como estamos em termos da dúvida em relação aos controlos e equilíbrios no nosso governo, de qual era o alcance que o GOP [Partido Republicano] tinha a todos os níveis, não só em termos do Congresso, mas em termos dos governos locais, etc., coisas que são muito mais pedregosas, particularmente porque o GOP mostrou ser tão absolutamente invertebrado.

O ponto que Zweig salienta é que se pode ter esta equação particularmente perigosa de valores partilhados corroídos e instituições corroídas, e as coisas ainda assim poderem não ruir totalmente até algo catastrófico. No caso da Alemanha, menos de 30 dias depois de Hitler se ter tornado chanceler, houve o incêndio do Reichstag, o incêndio do edifício do parlamento. do qual os nazis culparam os comunistas, e que ainda hoje há algumas dúvidas sobre se não poderia ter sido de facto ateado pelos próprios nazis. Mas, independentemente disso, assim que isso aconteceu, Hitler impôs uma jangada de medidas de emergência que de imediato eliminaram completamente a justiça.

O que me preocupa aqui é o grande acontecimento, qualquer que seja a forma que ele assuma – ou o grande acontecimento fabricado, mas algo que se torne numa desculpa – e já vimos Trump a fabricar incidentes terroristas, a fabricar ameaças colocadas por diferentes grupos demográficos – de maneiras que realmente poderiam virar muito depressa as coisas para um lugar diferente daquele em que nos encontramos hoje.

Michael Slate: Vou ler a última frase do seu artigo, e você pode fazer um comentário sobre isso. “O excruciante poder das memórias de Zweig reside na dor de olhar para trás e ver que houve uma pequena janela em que era possível agir, e então descobrir como de repente e irrevogavelmente essa janela pode ser fechada com força.” Isto é como aquilo de que você está a falar agora, mas é algo que precisa de ser enfatizado porque, francamente, eu estou realmente contente por ver toda a resistência que está nas ruas, e há uma necessidade de muito mais. É preciso que sejam milhões de pessoas nas ruas a falarem de facto sobre a horrível situação que existe hoje. Mas eu pensei que a sua última frase coloca um agudo aviso às pessoas.

George Prochnik: Concordo consigo em relação ao que aconteceu até agora, é preciso que haja mais disto e, infelizmente, não vai haver uma oportunidade para nos cansarmos disto. Isto não é algo que vá desaparecer rapidamente. No melhor dos casos, penso que há aqui uma batalha que vai ter de ser levada a cabo durante muito tempo e é encorajador ver que bastantes norte-americanos têm um espírito de desafio à injustiça, que estão dispostos a se afastarem das rotinas das próprias vidas deles e falarem contra o que está a acontecer. Mas precisamos de mais disto, e realmente espero que os diferentes grupos, não só os vulneráveis, mas diferentes grupos com diferentes tipos de privilégios, possam encontrar maneiras de resistirem em conjunto. Porque só com uma co-resistência muito poderosa e inabalável vamos poder manter esta janela aberta durante o tempo suficiente para fazer com que de facto estas pessoas sejam afastadas do poder.