À volta do dia do aniversário foram organizadas diversas actividades, em colaboração com outros grupos (incluindo o CMA-J e a Casa Ocupada de Setúbal), sob o nome geral de Festival 20 de Junho, com actividades que se prolongaram durante três dias no bairro e no resto da cidade de Setúbal. Tudo começou no feriado de 19 de Junho, quando vários activistas começaram a limpar os pátios em redor do CCA, nomeadamente o lago artificial à frente do CCA e o espelho de água nas traseiras. Estas duas estruturas há muitos anos que não vêm água, estando num estado de degradação muito avançado. São aliás exemplo do abandono a que estão votados os bairros populares como a Bela Vista. A limpeza permitirá, no futuro, aproveitar o lago para um futuro jardim, mais fácil e barato de manter, e evitará que essas duas estruturas continuem a ser locais imundos e focos de doenças para as crianças da vizinhança que aí são obrigadas a brincar.
Nessa noite houve comida africana no CCA e um debate sobre o racismo, com elementos do CCA, da Solidariedade Imigrante e do SOS Racismo. O ponto alto do Festival foi o dia 20. Para além da continuação do mural, houve uma marcha contra a violência policial, que levou dezenas de pessoas, maioritariamente jovens do bairro e da cidade de Setúbal, do centro da cidade até ao bairro da Bela Vista. Antes, houve uma concentração na Praça Bocage, onde se distribuiu propaganda e onde, antes do início da marcha, um familiar do Tony falou aos presentes, evocando Tony e as circunstâncias da sua morte. Circulavam rumores das ameaças veladas feitas a muitos jovens, que ajudavam a explicar a menor presença de habitantes do bairro, mas não reduziu a sua combatividade.
O Festival terminou no sábado, dia 21, com a conclusão do mural e com várias bandas a actuarem no largo, começando à tarde e prolongando-se pela noite dentro. Com uma maior variedade de estilos musicais, envolvendo mais grupos representativos da diversidade étnica do bairro, foi o culminar perfeito das várias actividades que prestaram homenagem a Tony. 5 de Julho de 2003 |
O Assassinato de Tony e o Bairro da Bela Vista:Marginalidade, Repressão e o Germinar da Revolta PopularA 20 de Junho de 2002, fez agora um ano, foi assassinado um jovem negro no bairro da Bela Vista, em Setúbal. António Pereira, ou Tony, como era conhecido, era um activista do Centro Cultural Africano (CCA), e foi morto a tiro quando tentava resolver um conflito entre amigos. As circunstâncias exactas da morte continuam por esclarecer, e o seu assassino ainda não foi julgado. Mas algumas certezas existem: nenhum dos intervenientes - excepto o polícia - estava armado e nunca houve nenhuma ameaça que pudesse suscitar uma reacção tão extrema por parte dos agentes. É também conhecido o passado de conflito entre a população e a polícia instalada no bairro. As horas que se seguiram ao assassinato foram de uma violência raramente vista em Portugal, com uma ocupação policial de todo o bairro, incluindo várias unidades da Polícia de Choque e a presença dos GOEs (que ocuparam posições estratégicas nos telhados). As autoridades repressivas sabiam a dimensão da revolta que tinham acabado de criara e a capacidade de resposta de uma população ultrajada.
Tony era conhecido no bairro pelo seu comportamento exemplar, em particular pelas suas actividades no CCA, incluindo a sua dedicação às crianças apoiadas pelo CCA e o seu envolvimento nas actividades musicais e de dança. Dificilmente se poderia confundir com a imagem de marginal com que a polícia o tentou caluniar, e que a o poder e a imprensa têm tentado colar aos jovens do bairro. Ao polícia que assassinou Tony nada aconteceu. Apenas foi mudado de local de trabalho, afastando-o assim da ira popular, mantendo o seu salário e a sua ligação à instituição, durante o ano entretanto passado. Apenas ao fim de um ano foi concluído o inquérito interno, e suspenso o polícia, por "coincidência" uns dias antes do aniversário da morte, e pouco depois da Amnistia Internacional ter revelado o seu relatório sobre Portugal, onde o caso da Bela Vista era citado como um exemplo do "uso controverso de armas de fogo" por parte da polícia. Entretanto a polícia tem vindo a desencadear várias operações de charme, nomeadamente mantendo-se em contacto com as escolas do bairro e levando as crianças em visitas à esquadra (actividades que não existiam antes do assassinato). Aproximando-se o julgamento do caso, preparam-se as condições para que o polícia seja ilibado. A campanha de imprensa de limpeza da imagem da polícia e de criminalização dos jovens já começou, aproveitando o aniversário. Simultaneamente, são conhecidas as pressões directas ou indirectas sobre as testemunhas e os amigos de Tony (veja-se a sua ausência do marcha de homenagem). A principal testemunha apareceu "misteriosamente" espancada, e nunca mais recuperou a normalidade, estando esse jovem internado há vários meses e não conseguindo pronunciar uma única frase coerente.
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