Por Samuel Albert. Quando os militares que governam o Egipto
tentaram deslocar os conflitos do país para a arena eleitoral, muitos
jovens e outras pessoas permaneceram na Praça Tahrir, numa ocupação
que até agora já custou pelo menos 42 vidas e vários milhares de
feridos.
Os próximos dias dirão se os manifestantes da Tahrir conseguirão permanecer na praça caso tome posse um «governo de salvação nacional» encabeçado pelos principais candidatos presidenciais civis. A teimosia deles durante os últimos 11 dias, apesar da combinação entre terror armado e promessas de mudança pelo voto que foi lançada contra eles, retirou a iniciativa política às forças armadas e pôs uma vez mais esses jovens rebeldes no centro dos actuais acontecimentos, muito como durante os dias em que eles iniciaram a revolta que acabou por derrubar Mubarak.
As actuais batalhas começaram na manhã de 19 de Novembro quando a polícia militar atacou um pequeno grupo de feridos da revolta original que tinha acampado durante a noite numa zona relvada. Desde então, dia após dia, o regime tem tentado acabar com a ocupação com salva atrás de salva de gás lacrimogéneo e de projécteis disparados por espingardas. Apesar disso, os manifestantes não só se têm mantido firmes no local como montaram mesmo vaga atrás de vaga de contra-ataques ao Ministério do Interior na rua Mohamed Mahmoud, a apenas alguns quarteirões da praça.
Em resposta a amigos no estrangeiro, um jovem farmacêutico enviou um email a partir da praça: «Eu estou OK mas tenho dois amigos jovens, um que já morreu e outro que está nos cuidados intensivos, atingido na cabeça, e ainda outro que perdeu um olho e outro que perdeu os dois olhos... Este massacre está a revelar o lado negro do sistema e tornou isso num movimento totalmente popular, e nós estamos a tentar acompanhar isso. Estamos sempre na Tahrir, tentando ser criativos no nosso contacto com as pessoas e obtendo muita simpatia das pessoas que ainda estão em casa».
Este sentimento foi repetido por outras pessoas: o que lhes tem
permitido ficar na Praça Tahrir durante todo este tempo não tem sido
sobretudo a coragem pessoal, embora tenha havido uma enorme quantidade
dela, mas sim o sentimento de que o que estavam a fazer estava a tocar
fundo entre as pessoas de todo o país e de que por isso valia a pena o
sacrifício. Também sabem que o mundo os está a observar e que as
acções deles estão em ressonância com os movimentos Ocupar nos
EUA, na Grã-Bretanha e noutros lugares. As pessoas na Tahrir sabem das
actividades em defesa da revolta egípcia que tiveram lugar em várias
cidades norte-americanas e britânicas. (Ver en.nomiltrials.com).
A sociedade egípcia está agora muito mais obviamente dividida que em qualquer outro momento desde a queda de Mubarak. Em nome da defesa da «revolução» anti-Mubarak, os militares estão a atacar os jovens que afastaram Mubarak. Os principais grupos islamitas têm saído à rua contra os jovens rebeldes e muitas pessoas comuns estão indecisas e por vezes são mesmo hostis. Os comentadores que se opõem à revolta salientam o conflito entre «a rua» (a opinião da maioria) e «a praça» (Tahrir). Apesar disto, tanta gente em toda a sociedade tem demonstrado uma simpatia tão forte e mesmo um apoio activo aos rebeldes que durante os últimos 11 dias os militares não têm conseguido pôr fim ao impasse político e aos confrontos à volta da praça.
Na sexta-feira 25 de Novembro, o número de ocupantes aumentou para
as dezenas de milhar quando a eles se juntaram vários contingentes
organizados, entre os quais pessoas de várias universidades e bairros
e mulheres que gritavam palavras de ordem contra os partidos
islamitas. Uma das marchas que afluiu para a praça era liderada por um
jovem que tinha perdido um olho na revolta de Janeiro e Fevereiro e o
outro olho recentemente. A concentração reuniu uma multidão
socialmente mista de homens e mulheres, em contraste com os jovens e
miúdos, geralmente mais pobres, que combatem a polícia perto do
Ministério do Interior. (Para um retrato vividamente traçado dos
vários segmentos de manifestantes, ver «A batalha da Rua Mohamed
Mahmoud no Cairo», de Lucie Ryzova, no sítio web da Al Jazeera.)
Nessa mesma noite, alguns milhares de contra-manifestantes agruparam-se noutra praça do centro da cidade para gritarem: «Abaixo a Tahrir, sim ao conselho militar».
Num gesto muito raro, o principal imã da mesquita Al-Azhar, a máxima autoridade religiosa do Islão sunita, emitiu um comunicado de apoio aos manifestantes da Tahrir.
O medo da opinião pública forçou mesmo os militares – ou pelo menos
os dois generais que falam em nome do Conselho Supremo das Forças
Armadas (SCAF) – a exprimir «pesar e profundas desculpas pelas mortes
dos mártires entre os leais filhos do Egipto durante os recentes
acontecimentos na Praça Tahrir».
Mas, ao mesmo tempo, um tribunal militar ordenou mais 15 dias de detenção para o blogger Alaa Abd El-Fattah, que já estava há um mês na prisão e que agora irá enfrentar um julgamento num tribunal especial de segurança do estado. Um outro blogger, Maikel Nabil, condenado a três anos de prisão por escrever «O exército e o povo nunca estiveram unidos», está em greve da fome há quase cem dias e o seu novo julgamento foi adiado. Ao que parece, o plano dos militares para lidarem com a opinião pública inclui esmagar os fazedores de opinião adversários.
O SCAF tentou minar o apoio aos rebeldes da Praça Tahrir afastando todo o governo que eles próprios tinham nomeado, de forma a proporcionar-lhes uma face civil. O novo primeiro-ministro que escolheram é Kamal El-Ganzouri, um economista treinado nos EUA que desempenhou o mesmo cargo no tempo de Mubarak no final dos anos 90. Quando as notícias da nomeação de Ganzouri chegaram à concentração de 25 de Novembro, a multidão rugiu em rejeição.
O ambiente nessa noite foi de celebração, porque o regime parecia
estar a retirar-se tanto politicamente como das ruas à volta da praça.
As pessoas lançaram fogo-de-artíficio colorido como os que se vêem nos
jogos de futebol. Porém, na manhã seguinte, quando os jovens e as
jovens organizaram um protesto frente ao edifício do governo para
impedir a entrada de El-Ganzouri, um veículo militar atropelou e matou
um deles, Ahmed Sayed, de 21 anos. No dia seguinte, 27 de Novembro,
houve mais milhares de pessoas na Praça Tahrir apesar das primeiras
chuvas intensas de inverno. Como as urnas eleitorais abriam no dia
seguinte, o número de pessoas diminuiu, com os sentimentos divididos
entre boicotar as eleições (sobretudo com a esperança da realização de
futuras eleições já com um governo civil) ou agora votar de uma forma
relutante (sobretudo para conter uma vitória islamita).
A situação clínica revela muito sobre o alinhamento político. Muitos médicos e outro pessoal de saúde têm ido ajudar os manifestantes e os jovens lutadores, montando na própria praça cerca de uma dúzia de hospitais de campanha. Durante a revolta de Janeiro e de Fevereiro passado, esses hospitais foram instalados devido ao temor de que a administração pública hospitalar denunciasse ou entregasse os feridos à polícia. Este espírito de que é necessário uma alternativa às instituições oficiais ainda continua a funcionar.
A polícia tem feito dessas tendas médicas um alvo especial do gás lacrimogéneo e dos fogos postos. Uma jovem médica morreu sufocada quando enormes nuvens de gás lacrimogéneo submergiram a tenda onde ela estava a trabalhar. Muçulmana devota, diz-se que ela era apoiante da Irmandade Muçulmana, um partido que é particularmente forte na Associação de Médicos e que apelou aos seus membros para se manterem longe da Tahrir. Segundo os relatos, não tem havido falta de pessoal médico nem sequer de abastecimentos na Tahrir, graças a doações permanentes.
Os cuidados médicos tornaram-se mais cruciais que nunca devido ao
uso de novas tácticas policiais – disparos para cegar as pessoas
com projécteis de chumbo de caça e balas de borracha e plástico. Isso
é visível nos vídeos de vítimas que mostram ferimentos na parte
superior do tórax e no rosto. Um hospital regular informou que na
semana anterior ao 27 de Novembro e só nesse hospital tinham sido
admitidas 60 pessoas com ferimentos nos olhos. Entre essas feridas
estavam córneas rebentadas, órbitas oculares explodidas e corpos
estranhos nos olhos. Um médico voluntário que trabalha no hospital de
campo mais próximo da Rua Mohamed Mahmoud que dá para a Tahrir a
partir do Ministério do Interior relatou ter tratado cerca de 25
pessoas na manhã e na tarde de 25 de Novembro. A maioria tinha sido
atingida na parte superior do corpo, sobretudo no rosto, com quatro
dessas pessoas atingidas nos olhos com chumbo de caça. (Relatório da
Iniciativa Egípcia para os Direitos Pessoais)
Testemunhas oculares disseram que a polícia escarnecia os manifestantes que a enfrentavam: «Se queres perder um olho, vem para aqui». Um conhecido vídeo no YouTube mostra um agente da polícia a disparar sobre um manifestante na Rua Mohamed Mahmoud. Um soldado felicita-o, dizendo-lhe: «Bom tiro, acertaste naquele tipo mesmo no olho». Um blogger perguntou que tipo de exército e que tipo de sociedade treina os seus soldados para pensarem assim.
As autoridades não têm vacilado em matar – um outro vídeo mostra
homens à paisana a brandir bastões longos, aparentemente para acabarem
com pessoas deixadas inconscientes por cacetes policiais. Mas disparar
para os olhos das pessoas parece ter-se tornado numa política
deliberada que visa causar tanta dor e terror quanto possível, ao
mesmo tempo que evita um grande número de mortes politicamente
problemáticas. Além disso, segundo o mesmo relatório, houve quase 400
pessoas que foram presas e depois espancadas e abusadas na prisão,
entre as quais crianças.
Além disso, muitos dos casos fatais têm sido atribuídos a gás lacrimogéneo. Tem sido levantada a questão de se saber o que é que esse gás lacrimogéneo contém exactamente, embora até agora a análise dos cartuchos usados não tenha revelado nada que o torna mais mortal que o habitual. Alguns peritos médicos especulam que as mortes não estejam a ser causadas por uma variedade mais letal do gás mas pela sua utilização concentrada e repetida durante um longo período. Pode acontecer que as pessoas venham a sofrer de danos pulmonares, cardíacos e outros, acumulados. Há tanto gás que se tem combinado com o pó que normalmente cobre esta cidade do deserto que em grande parte do centro da cidade a mais leve rajada de vento desencadeia a tosse.
Este gás é fornecido sobretudo pelos Estados Unidos, como qualquer pessoa pode ver ao examinar as inscrições nos cartuchos usados. Os EUA fornecem ao exército egípcio 1,3 mil milhões de dólares por ano em ajuda directa, os quais constituem dois terços do total do financiamento norte-americano ao Egipto (o dinheiro para projectos civis não é menos nocivo – a «ajuda» norte-americana obriga os egípcios a dependerem das importações de trigo norte-americano para o seu pão diário). Os registos do Departamento norte-americano de Estado mostram que os EUA forneceram «agentes toxicológicos» no valor de 1,7 milhões de dólares – «incluindo gás lacrimogéneo e agentes de controlo de motins», só em 2010. (El Ahram Online, 25 de Novembro.)
As organizações de jovens tornaram públicos documentos que lhes foram entregues por funcionários das alfândegas que indicam que os EUA estão agora no processo de enviar para o Ministério egípcio do Interior cerca de 21 toneladas adicionais de gás lacrimogéneo. O segundo dos três navios de contentores estava a ser descarregado na cidade portuária do Suez quando esses documentos foram divulgados a 28 de Novembro.
Embora a polícia seja um corpo civil, é dirigida pelo Ministério do
Interior, o qual está sob controlo militar. As principais unidades
policiais que atacam os manifestantes são das Forças Centrais de
Segurança, responsáveis pela maioria das mortes em Janeiro e
Fevereiro. Os membros desse corpo militar são recrutados entre os
conscritos do exército que se voluntariam para esse trabalho. As
forças armadas alegam que têm intervindo para proteger os
manifestantes da polícia, mas há muitos relatos de membros do exército
e da polícia militar a acompanhar outros polícias nos ataques à Praça
Tahrir e na defesa do Ministério do Interior, frequentemente cercado
por tanques. Agora, os militares instalaram um muro de dois metros de
altura de blocos de betão ao longo da rua Mohamed Mahmoud.
Os EUA têm apelado a uma «transferência total do poder para um governo civil», uma medida que o líder do SCAF, o Marechal de Campo Tantawi, inicialmente rejeitou. A 27 de Novembro, ele anunciou que, independentemente do resultado das eleições, «o lugar do exército irá continuar exactamente como está. Não irá mudar em nenhuma nova constituição.»
Embora a Praça Tahrir esteja unida em torno do cântico «O povo quer a queda do marechal de campo», há uma prevalecente falta de claridade sobre que tipo de regime pode ser uma alternativa ao domínio militar. O SCAF tornou-se tão desacreditado quanto a maior parte das instituições políticas do Egipto e não há muita esperança numa verdadeira mudança nas actuais eleições. (Somos Todos Khaled Said, um dos principais grupos do Facebook por trás da revolta original, pediu às pessoas para irem votar usando insígnias negras em memória dos mártires, um apelo que parece reflectir um ambiente de deprimente condescendência em relação às eleições devido à ausência de uma alternativa.) Apesar disso, algumas pessoas antevêem um derrube revolucionário de toda a estrutura do estado, incluindo as forças armadas. Pelo contrário, a maioria gostaria de ter a esperança de que, de alguma forma, as eleições parlamentares ou uma assembleia constituinte – debate-se sobre qual delas – possam estabelecer um estado de direito que de alguma forma esteja acima da sociedade. Mas as classes dominantes egípcias e os imperialistas norte-americanos a que elas obedecem nunca respeitarão nenhuma estrutura legal que não reflicta os seus interesses económicos e políticos!
O horror do que o movimento enfrenta pode ser visto nas tácticas militares que estão a ser usadas contra ele. Essas tácticas não só são completamente possibilitadas pelos EUA como também parecem estar em linha com o objectivo político de Washington que é facilitar o surgimento de um regime que em simultâneo continue a ser servil aos interesses dos EUA e a desfrutar de suficiente legitimidade para se conseguir manter esmagando os jovens rebeldes e os seus apoiantes. Embora possa haver algumas contradições entre o SCAF e Washington, é sobre a forma de melhor atingirem esse objectivo.
Ao mesmo tempo que o SCAF exprimia o seu «pesar» pelas mortes na sua página no Facebook, a embaixadora norte-americana no Egipto usava a sua conta Twitter para anunciar que os EUA iam doar 100 mil dólares em «ajuda humanitária às vítimas da violência». À luz de tudo o resto que os EUA têm feito no Egipto, incluindo construírem, manterem e armarem as forças armadas egípcias, isso é o mesmo que arrancar os olhos e uma pessoa e depois oferecer-lhe gotas para os olhos.