Abdul Haq foi recebido entusiasticamente pelo então presidente americano Ronald Reagan como o "bravo comandante que dirige os combatentes da liberdade afegãos"; um ano antes, Março de 1986, tinha sido recebido em Londres, pela primeira-ministra Margaret Tatcher com igual empenho. Quem era Abdul Haq? Um comandante mujahedin responsável da resistência em Cabul contra as tropas soviéticas, um dos ataques perpetrados pelo seu grupo foi contra o aeroporto, em 1984, provocando a morte de 28 pessoas, metade das quais civis.
Abdul Haq e Bin Laden eram os aliados de ontem, os de hoje são Abdul Rashid Dostam, um dos principais chefes da Aliança do Norte, cujos homens abriram caminho pelos subúrbios de Cabul, nos anos 90, à força de saques e de violações; os seus homens, sob o olhar complacente do chefe da Aliança, Ahmed Shah Massoud, recentemente assassinado, escolhiam raparigas para casamentos forçados e assassinavam-lhes as famílias. Este Massoud tinha por hábito mudar de barricada, umas vezes, recebendo subornos, ao lado dos talibans nos massacres por estes cometidos, outras, voltando ao seio da Aliança.
Rasoulf Sayaff, uma pashtun que inicialmente liderava a União Islâmica para a Liberdade do Afeganistão, cujos homens entretinham-se a torturar famílias xiitas, usando as suas mulheres como escravas sexuais, numa série de abusos de direitos humanos cometidos entre 1992 e 1996 - segundo o descrito por Robert Fisk em artigo de opinião publicado em Público/The Independent.
Os conceitos de "terrorismo" e de "terrorista" dependem da utilidade que poderão ter para os interesses do Ocidente e em particular dos EUA, os que ontem eram os "terroristas" "bons", hoje, poderão ser "maus" e há os que ainda permanecem como "maus", ou, quanto muito, os "menos maus"; Tatcher, pouco tempo antes de receber carinhosamente o crápula Abdul Haq, recusara entrevistar-se com os dirigentes do ANC e da OLP e mantinha uma guerra sem tréguas com o IRA.
Os EUA, depois da Segunda Guerra Mundial, apoiaram os elementos mais reaccionários, servindo-se deles como uma defesa para o comunismo ou o nacionalismo progressista. Frequentemente, recrutavam os seus aliados entre os fundamentalistas religiosos: a Irmandade Muçulmana contra Nasser, no Egipto; o Sarekat-i-Islam contra Sukarno, na Indonésia; o Jamaat-i-Islam contra Benazir Bhutto no Paquistão; e, mais tarde, no Afeganistão, Osama bin Laden e outros contra o comunista laico Mohamed Najibullah, que os mujahedins tiraram do exílio (os escritórios das Nações Unidas em Cabul) antes de o matarem, em 1996.
No Iraque, onde o Partido Comunista era a força política mais popular, Washington apoiou então a ala mais mafiosa do partido Baas e incitou esta a dizimar primeiro os comunistas, depois os sindicatos dos operários do petróleo, Saddam Hussein disso se encarregou e obteve, como recompensa, armas e acordos comerciais.
O seu erro foi ter invadido o Koweit, interferindo directamente com os interesses americanos na zona e constituindo uma ameaça séria para o estado de Israel. As sanções económicas não derrubaram Saddam Hussein mas já dizimaram com perto de meio milhão de crianças.
No vizinho Irão, o Ocidente apoiou o Xá de segunda geração, que se comportou como um déspota, pisando os direitos do seu povo e aniquilando, através da tortura e do exílio, o Partido Tudeh (comunista) e ajudando, ainda que involuntariamente, a subida ao poder do clero, não menos reaccionário que o Xá, após a liderança da rebelião popular de 1979; ainda toda agente se lembra como os ayatolahs se livraram dos seus rivais políticos.
O Ocidente, o bastião das liberdades e dos direitos individuais, nunca teve rebuço em utilizar dois pesos e duas medidas conforme os seus objectivos e interesses, os seus valores humanos são bastante elásticos e vagos. Muitas lágrimas são derramadas (e mandadas derramar) pelas sete mil vítimas inocentes do atentado nos Estados Unidos, mas sobre os dois milhões de afegãos mortos desde 1980, numa guerra provocada e mantida do exterior, nenhuma lágrima ainda se verteu por parte dos nossos "humanistas", tipo Miguel Sousa Tavares, entre nós, ou um Woody Allen, lá fora, mais preocupados com a "sua liberdade" de passar férias sem o incómodo de urbanizações selvagens, ou de comer em bons restaurantes.
Como ninguém se preocupa, ou sequer se lembra, que foi a liberal e democrata Inglaterra, após a Primeira Guerra Mundial, o primeiro país a usar as novas armas de ataque aéreo e de gás venenoso, sendo este último meio particularmente de agrado de Winston Churchil sobre "tribos incivilizadas" e "árabes recalcitrantes" (curdos e afegãos). Os ficheiros sobres estes massacres, alguns deles descreviam pormenorizadamente o modo como as tropas usaram gás venenoso sobre os dissidentes iraquianos, incluindo curdos, em 1919, foram cuidadosamente removidos do Arquivo Público (Public Record Office) no "governo aberto" do primeiro-ministro conservador John Major.
Todos os anos milhares de pessoas, principalmente crianças e camponeses pobres, são mortas na planície de Jars, no norte do Laos - cenário do mais pesado bombardeamento de alvos civis de toda a história da humanidade, e provavelmente o mais cruel - pelo rebentamento de bombas cluster. Estas bombas, de tamanho inferior ao punho de uma mão, foram lançadas em número de centenas de milhões e que ainda vão rebentando ao contacto, com um elevado grau de incapacidade para as pessoas atingidas, acabando por falecer cerca de metade, isto é, dez mil pessoas por ano. Quem é que se rala com a morte de uns miseráveis camponeses num canto remoto do mundo e com umas bombas lançadas há mais de vinte cinco anos?
O Ocidente e os EUA não estão interessados em instalar no Afeganistão um governo democrático e inter-étnico que, assente numa base social de apoio abrangente, levasse a paz e o bem-estar económico ao povo afegão. Utiliza-se o mesmo palavreado e as mesmas promessas do tempo da expulsão dos soviéticos de: "regresso do rei", "constituição da assembleia do povo" (a "loya jirga"), "apoio económico", mas o governo que os EUA irão apoiar será um governo fantoche, feito à sua medida, - diremos mais - não será substancialmente diferente do actual. A experiência diz-nos que os talibans irão ficar, serão quanto muito expurgados dos seus elementos mais extremistas, sejam Bin Laden e o mullah Omar mortos ou não, com a inclusão de uma ou outra facção da Aliança do Norte.
A expulsão definitiva dos talibans do governo e a entrega do poder à Aliança do Norte faz correr o risco do Afeganistão passar da esfera de influência do Paquistão para a do Irão ou da Índia, provocando uma alteração profunda na relação de influências das diversas potências regionais que ali têm interesses. Um prolongamento dos ataques ao Afeganistão, e ainda antes de uma mudança de governo em Cabul, apressará com certeza o fim da ditadura do general Musharraf. Uma Índia com excesso de influência incomodará de certeza uma China em ascensão de poder económico e militar. Não nos espanta que a solução para o caso Afeganistão seja muito semelhante à encontrada para o Iraque: massacra-se o povo, deixa-se o ditador no poder - do mal o menos.
Porque o verdadeiro inimigo do Ocidente liberal e civilizado não são os Saddam ou os Bin Laden, são os povos oprimidos do mundo. Perigo há, isso sim, se um povo afegão toma em suas as mãos o seu destino, se os povos de religião maioritariamente muçulmana sacodem a canga do obscurantismo religiosos e deixam de correr atrás de falsos profetas ou se os diversos povos árabes se unem e põem fim aos regimes feudais e retrógrados que os dividem e exploram.
(Fontes consultadas: Le Monde diplomatique, Outubro de 2001; O Novo Humanismo Militar, Lições do Kosovo, Noam Chomsky, Campo das Letras, 2001)
21 Out. 01