Passado quase um mês sobre o atentado que destruiu as torres do World Trade Center, a máquina de guerra americana voltou a funcionar, agora contra o Afeganistão e com o objectivo, amplamente divulgado e demoradamente amadurecido, de "destruir as bases do terrorismo internacional" e de eliminação ou captura do seu chefe máximo, Osama bin Laden, o presente "inimigo público número um" dos EUA.
Mas, mais uma vez, as bombas caíram sobre as cidades e as aldeias e as principais vítimas são civis. A vingança está em curso, quem se arroga a defender bin Laden, à semelhança de Saddam Hussein ou de Slobodan Milosevic, sentirá a ira americana. Algumas centenas de mortos e de feridos se contam entre o povo afegão. Mais do que castigar os faltosos, há que esconjurar a revolta e mostrar quem na realidade manda no mundo.
Osama bin Laden é uma criação da guerra fria, da luta contra o comunismo (espectro representado ainda pela defunta Rússia soviética e revisionista), que agora se levanta contra o seu criador, tendo atrás de si um fundamentalismo religioso fomentado à custa dos dólares do petróleo por um estado religioso, a Arábia Saudita, o principal amigo dos EUA na sensível e estratégica região do Golfo Pérsico. Dirigente e fundamentalismo apadrinhados e acarinhados pelo Ocidente na sua cruzada contra o comunismo e não contra o Islão ou outra confissão religiosa considerada inimiga pelo "teórico" S. P. Huntington.
Este terrorismo, que se poderá considerar como feito de encomenda, existe à medida das necessidades que o imperialismo sente em justificar os massacres contra os povos que se levantam contra a sua dominação. Concretamente, esta versão de fundamentalismo calha às mil maravilhas funcionando de duas maneiras: para além do pretexto para a agressão, um bom recuperador do ímpeto nacionalista e anti-imperialista manifestado pelos povos de cultura islâmica.
Enquanto que estes povos acreditam num bin Laden que os salve, a revolução será postergada para as calendas gregas. Elementos do povo dispostos a sacrificar a vida para a libertação de uma parte significativa dos povos do mundo do jugo do capitalismo, fazem-no na barricada errada, em nome de um deus e atrás de uma figura que, tanto uma como outra, são o produto acabado do sistema de exploração e de subjugação da esmagadora maioria da sociedade humana por um pequeno punhado de parasitas.
Este fenómeno de "grande dirigente" surge em alturas de grande crise, ou de precipitação de crise anunciada, e tanto surge à direita como à esquerda; de um lado, o "messias" e "salvador da pátria", do outro, o "grande educador", todos eles fruto da ideologia burguesa dominante e, no segundo caso, da insuficiência da ideologia proletária de dar uma direcção clara e confiante às largas massas operárias e populares. Os bin Laden, à semelhança de outros falsos dirigentes, caso não existam, terão quase forçosamente (como já alguém disse) de ser inventados.
A principal potência capitalista, os EUA, não só fomenta o terrorismo como o considera segundo as suas conveniências. O que ontem era bom, hoje é mau, porque lhe foge ao controlo; discrimina o terrorismo, escondendo o que ainda lhe interessa. Há poucos dias, ao ser interpelado por um jornalista em conferência de imprensa, o representante do Departamento de Estado de serviço não respondeu à pergunta porque é que a organização conhecida por Mujahedin e-Khalq (MEK), aliás Mujahedin dos Povos do Irão (PMOI), aliás Conselho Nacional da Resistência (NCR), considerada terrorista pela própria Secretaria de Estado, tem escritório aberto em Washington? Também, ainda há pouco, o presidente egípcio Mubarak denunciou o governo inglês de dar guarida em território de Sua Majestade a grupos terroristas egípcios.
O capitalismo é, ele próprio, não só o principal autor do terrorismo como cria todas as condições para que o terrorismo, personificado nas organizações tipo Al-Qaeda e quejandos, medre, angariando apoios financeiros, não apenas aos ditos off-shores, mas a instituições mui veneráveis como a Bolsa de Londres, apontada como uma fonte privilegiada dos proventos financeiros destas organizações, e buscando razões ideológicas, numa similitude clara com o bonapartismo ou qualquer outra formas de dominação fascista, agora a nível global.
O terrorismo, mesmo quando não exercido directamente pelo estado burguês e capitalista, é o rebento querido lançado ao mundo pelo ventre prenhe do imperialismo. O capitalismo é a causa e o meio ambiente onde medra a violência, e mais violência gera sempre mais violência. Violência que, parecendo gratuita, não o é, ela visa manter a dominação de uma classe, cada vez mais minoritária e supérflua, sobre uma imensa maioria de produtores.
Para combater o terrorismo só há uma forma que se depara aos povos do mundo que é fazer a revolução, a repressão exercida pelo imperialismo, em nome do combate ao terrorismo, irá fazer com que os povos agora martirizados ultrapassem os limites estreitos do nacionalismo ou da confissão religiosa e, ao contrário do que aconteceu na década de setenta, se abalancem decididamente na revolução socialista. O princípio maoista de: ou a guerra imperialista irá desencadear a revolução ou a revolução irá esconjurar a guerra imperialista é cada vez mais actual.