As causas da guerra civil do Iraque, III:
As consequências para o Iraque e para a região
4 de Dezembro de 2006. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

IraqueAs consequências da guerra civil do Iraque podem ser analisadas a dois níveis: para o próprio Iraque e para toda a região.

As divisões que existem hoje no Iraque como resultado da política dos EUA durante as duas últimas décadas não se limitam às divisões entre xiitas e sunitas. Há uma grande fenda entre os curdos e os árabes.

O historiador e analista Gareth Porter escreveu: “A verdadeira ameaça de guerra civil no Iraque não vem do conflito sunitas-xiitas, mas das tensões curdo-árabes que foram remexidas pela estratégia norte-americana de ‘iraquização’. Durante o último ano, o exército dos EUA tem tentado fazer com que sunitas e xiitas combatam os insurgentes ao lado das tropas dos EUA. Mas as únicas tropas iraquianas dispostas a participar na guerra em grande número têm sido as curdas... Confiar nos curdos como auxiliares da ocupação norte-americana é uma estratégia perigosa.” (Foreign Policy in Focus, 20 de Janeiro de 2005)

Também há tensões entre diferentes grupos xiitas. “Há mil milícias xiitas que podem lutar umas contra as outras, podendo mesmo vir a dilacerar a zona sul do Iraque, [disse] Kenneth Pollack, director de investigação do Centro Saban da Instituição Brookings em Washington. Pollack avisa que uma guerra civil poderia vir a tornar-se particularmente dolorosa para os xiitas. Não há nenhuma razão, diz ele, para assumir que eles não lutarão entre si. Cada um dos três principais movimentos xiitas tem milícias. Elas têm colidido algumas vezes.” (The New York Times, 27 de Fevereiro de 2006)

Com as tropas norte-americanas a lançarem agora ataques contra o bairro da Cidade de Sadr em Bagdad, onde o Exército do Mahdi se baseia, e com a pressão de Bush sobre o primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki para que afaste as forças de Sadr do seu governo, há um perigo ainda maior de combates entre o Exército do Mahdi por um lado e o Partido Dawa de Maliki e a Brigada Badr do CSRII, por outro. Estes três grupos fundamentalistas xiitas rivais partilham ligações históricas ao Irão e uma história de tentativas de chegada ao poder através do governo de ocupação imposto pelos EUA (em vez de lutarem contra ele).

A reunião de Bush com o chefe do CSRII, Abdul Aziz al-Hakim, a 4 de Dezembro teve como objectivo mostrar o apoio dos EUA a essa organização contra o Exército do Mahdi. Isso foi altamente irónico e verdadeiramente indicativo de quanto da política e da propaganda dos EUA são ditadas pelos interesses imediatos apercebidos em Washington. Segundo alguns analistas, tanto o CSRII como o Hezbollah do Líbano podem ter estado ligados a um importante ataque com um camião-bomba contra as forças armadas dos EUA no Líbano no início dos anos 80. Mas os EUA decidiram usar esse incidente para aplicar a etiqueta de “terrorista” ao Hezbollah, ao mesmo tempo que apoiava o CSRII. A Brigada Badr do CSRII foi organizada e treinada pelos Guardas Revolucionários da República Islâmica do Irão e, apesar disso, os EUA acusam o Hezbollah de ser “um braço do Irão” e preferem ignorar o passado da Brigada Badr. De facto, pelo menos até recentemente, o CSRII parecia ser mais favorecido pelo regime iraniano que as forças de Sadr. Ideológica e programaticamente, tanto o CSRII como Sadr são pela imposição da Sharia, a lei islâmica. Aparentemente, a diferença mais importante entre eles e a razão clara e simples para os EUA terem escolhido apoiar um grupo fundamentalista xiita armado contra o outro é que Hakim anunciou: “Pedimos às forças norte-americanas que fiquem no Iraque”, enquanto Sadr lhes pediu que partissem. Contudo, o actual namoro Bush-Maliki-Hakim é apenas uma das muitas manobras em que os EUA estão empenhados para encorajar divisões e rupturas no Iraque.

Essas divisões entre diferentes sectores do país e das massas criam o risco de a guerra alastrar em diferentes direcções – por exemplo, entre curdos e árabes ou entre os próprios xiitas.

Também não há nenhuma garantia de que a maré não possa voltar-se contra os xiitas se os EUA adoptarem uma política de tratar todos os xiitas como peões do Irão. Parece que os EUA estão a preparar-se para essa situação, caso acreditem que seja necessário.

Há relatos de que o exército iraquiano está cada vez mais sob controlo de ex-oficiais baathistas. Também há sinais de que os EUA estão a tentar empregar e integrar ex-oficiais baathistas e ex-funcionários do Mukhaberat (os Serviços Secretos de Saddam). Isto é consistente com as notícias de Março de 2006 da revista Time que indicavam que os EUA libertaram alguns importantes ex-oficiais baathistas da prisão. Há razões para crer que há bastantes pontos de concórdia entre os baathistas e os EUA e que estes poderiam empregar os primeiros na luta contra alguns sectores islâmicos fundamentalistas xiitas que eles não conseguem controlar. Isto pode vir a tornar-se ainda mais importante se os EUA atacarem o Irão.

Há mesmo relatos de que os EUA estão a negociar com diferentes grupos sunitas insurgentes. As verdadeiras intenções dos EUA ao se sentarem à mesa com esses grupos não são claras, mas isso enfureceu os sectores xiitas do governo, incluindo o primeiro-ministro Maliki.

Os líderes, conselheiros e defensores do imperialismo norte-americano estão actualmente a examinar e a debater diferentes tácticas para lidarem com o Iraque de forma a salvarem o seu império de um fracasso catastrófico e, além disso, a continuarem em frente com os seus planos regionais e globais.

Uma “solução” proposta é dividir o Iraque em três sectores: curdo, sunita e xiita. O facto de essa ideia parecer agora possível é uma consequência da intromissão imperialista num país em que as pessoas, apesar dos muitos problemas e da grande opressão e sofrimento, conseguiram dar-se bem umas com as outras durante a maior parte do último século. Mas esta proposta poderia de facto fazer alastrar o conflito a nível regional.

O povo curdo tem sido há muito tempo oprimido pelas classes dominantes árabes, turcas, sírias e persas. Ele tem direito à autodeterminação. Os imperialistas negaram-lhe esse direito durante um século e mantiveram-no dividido entre quatro países. Os líderes dos dois principais grupos nacionalistas curdos do Iraque foram durante muito tempo favoráveis a um sistema federalista e não à formação de um estado curdo, seja no Iraque seja em toda a região curda que inclui também o Irão, a Turquia e a Síria, porque os EUA e os seus aliados não o tolerariam. O que algumas autoridades norte-americanas estão agora a considerar é aumentar o abuso e a opressão do povo curdo, concedendo-lhe uma falsa autonomia cujo resultado seria ele permanecer sob o tacão das botas dos EUA e participar nos esforços norte-americanos para controlarem os povos da região.

Do lado árabe, os grupos sunitas e algumas organizações xiitas, sobretudo a de Sadr, opuseram-se-lhe, em parte por causa de algum pan-arabismo da sua parte e em parte, sobretudo do lado dos sunitas, porque a região de maioria sunita não tem nenhum recurso petrolífero. Esta é a principal fonte de rendimentos do país e uma separação significaria um ainda maior sofrimento económico bem como uma humilhação política para eles.

Os importantes congressistas norte-americanos do Partido Democrático Joseph R. Biden e Leslie H. Gelb escreveram (The New York Times, 1 de Maio de 2006): “A administração Bush, apesar dos seus profundos erros de julgamento estratégico no Iraque, tem... uma oportunidade... para manter um Iraque unido, descentralizando-o e dando a cada grupo étnico-religioso, curdos, árabes sunitas e árabes xiitas, espaço para tratarem dos seus próprios assuntos, deixando ao mesmo tempo ao governo central a responsabilidade dos interesses comuns.” Embora o porta-voz da Casa Branca, Scott McLain, tenha então rejeitado a ideia, há sinais de que essa política está a ser considerada ou que pelo menos não foi afastada.

À parte o facto de que os EUA não tem nenhuma intenção de permitir que o povo curdo desfrute de uma verdadeira libertação e que, por isso, a separação dos curdos do resto do Iraque nestas circunstâncias só pode ser reaccionária e nefasta, não há nenhuma maneira de dividir um país segundo critérios religiosos que não possa ser outra coisa que não um desastre para o povo. Apenas pode dar uma configuração formal às divisões reaccionárias criadas pelo imperialismo. Além disso, e este é seu conteúdo prático, iria implicitamente (se não abertamente) apoiar e alargar o domínio teocrático. Promoveria os imãs (líderes religiosos muçulmanos) à posição de líderes políticos e chefes de estado. Esta tem sido uma das medidas favoritas da classe dominante imperialista norte-americana na história recente – por exemplo, o estabelecimento da República Islâmica do Afeganistão sob o patrocínio dos EUA. As consequências para o povo seriam terríveis. A opressão das mulheres, das outras nacionalidades e das outras minorias religiosas, para não falar do esmagar do laicismo, seriam ainda maiores e oficialmente sancionadas. As retrógradas relações, tradições e ideias tribais, feudais e outras, que foram sendo minadas durante o último século seriam reconsolidadas ou pelo menos ganhariam algum impulso, ainda mais que desde o início da ocupação.

Porém, este tipo de divisão do povo poderia conter em si mesmo as sementes de mais dificuldades e elevar as tensões a um nível mais elevado, em vez de as resolver. A separação do Paquistão da Índia com base na religião, que se seguiu a uma guerra civil entre muçulmanos e hindus, não conseguiu resolver as questões religiosas na Índia e os confrontos religiosos entre as duas comunidades permanecem um problema actual. No Paquistão, a formação do país com uma base religiosa – porque essa é a única característica comum do Paquistão – apenas levou a novos confrontos entre muçulmanos sunitas e muçulmanos xiitas. Em geral, a criação de estados hindus e muçulmanos tornou a situação em toda a região mais explosiva e forneceu um terreno permanente tanto para a interferência imperialista em ambos os países como para a contenda e a rivalidade inter-imperialista para atiçarem as chamas.

O conhecido estratega militar e político Anthony Cordesman refere outros grandes problemas que surgiriam em consequência da divisão do Iraque: “Qualquer esforço para dividir o Iraque segundo critérios sectários e étnicos requereria ‘deslocações’ generalizadas. Isto seria provavelmente violento e empobreceria quem fosse obrigado a mudar-se, deixando um legado de medo e ódio e atrasando ainda mais a recuperação política e económica do Iraque.” Ele também salientou: “O Iraque é densamente urbanizado, com quase 40 por cento da população nas zonas multiétnicas da grande Bagdad e Mosul.” Finalmente, ele diz: “Não há nenhuma maneira de dividir o Iraque que não provoque lutas pelo controlo do petróleo.” (The New York Times, 9 de Maio de 2006)

A guerra civil e o seu impacto na região

Esta guerra civil pode vir a mergulhar toda a região na guerra.

Iria, como escreveu um jornalista norte-americano, “fazer nascer enclaves combatentes sunitas, xiitas e curdos dentro do Iraque, mas a violência também poderia alastrar imprevisivelmente a toda a região. Poderia muito bem incitar conflitos sectários em países vizinhos e, pior ainda, levar esses países a tomar partido no próprio Iraque. O Irão poderia apoiar os xiitas. Já é aliado das principais milícias xiitas... e países sunitas como a Arábia Saudita, a Jordânia e o Kuwait poderiam sentir necessidade de defender os sunitas ou talvez de criar estados tampão para si próprios ao longo das fronteiras iraquianas. A Turquia também poderia sentir-se forçada a intervir, protegendo a minoria turcomano do Iraque contra um estado curdo no norte.

“As populações xiitas do Líbano, do Kuwait e sobretudo da Arábia Saudita, onde por acaso os xiitas vivem na zona oriental rica em petróleo, facilmente se poderiam revoltar. Um tal conflito regional poderia demorar anos a esvaziar-se e poderia forçar ao redesenho das fronteiras” (The New York Times, 27 de Fevereiro de 2006)

A Jordânia e o Egipto, cujas populações são predominantemente sunitas, já mostraram a sua preocupação e medo de um governo dominado pelos xiitas no Iraque e querem pôr fim a isso.

A Arábia Saudita, o Irão, o Kuwait e o Barém têm populações xiitas e sunitas e, um pouco mais para leste, no Paquistão e no Afeganistão, já houve conflitos entre esses dois grupos religiosos. Não é impossível que uma guerra civil religiosa possa surgir nesses países. O perigo é exacerbado pelo crescimento do fundamentalismo na região durante as duas últimas décadas, minando o conceito de estado-nação e levando ao abandono do objectivo de libertação nacional do domínio do imperialismo e dos seus esbirros locais burgueses e feudais.

A rápida propagação do conflito entre sunitas e xiitas não só é uma indicação da existência e persistência do feudalismo e do tribalismo, mas também fortalece essas relações. Uma guerra religiosa mais alargada poderia ter um efeito ainda pior. O Iraque não só está agora no meio de uma guerra civil, poderá vir a estar em breve no meio de uma guerra regional se não for evitada a escalada da guerra.

Parte I: As causas da guerra civil do Iraque, I
Parte II: Terão os EUA fomentado deliberadamente esta guerra civil?
Parte III: As consequências para o Iraque e para a região
Parte IV: Os interesses dos EUA – e os interesses do povo