Editorial

UMA PÁGINA

A "Página Vermelha" aparece como resposta a uma necessidade sentida há muito tempo por quem considera que as questões referentes à luta de classes, ao movimento operário, à actualidade do marxismo e à necessidade e inevitabilidade histórica do socialismo e do comunismo são questões do presente e incontornáveis, pesem todos os esforços das classes dominantes e das modas no campo da política e da filosofia. E os factos aferem da veracidade das palavras.

Com a queda do Muro de Berlim, os arautos do Capital declararam a falência definitiva do socialismo e do marxismo - o "fim da história" - e a vitória da livre concorrência e da democracia burguesa, por força das suas virtualidades - a "globalização" e o neoliberalismo nas suas formas de "reaganismo", de "tatcherismo" ou, mais provincianamente, de "cavaquismo".

Mas os factos vêm desmentir algumas "evidências inquestionáveis". Nos países onde impera este neoliberalismo serôdio, os resultados deste capitalismo desenfreado são catastróficos. É a degradação rápida dos sistemas de protecção social, acompanhada pelo aumento da precaridade, aumento dos horários e dos ritmos de trabalho, instituição da polivalência e da flexibilidade, e o alastrar do desemprego - surge um novo exército de excluídos.

Uma década de acumulação capitalista desenfreada obriga o grande Capital a retirar da sua cartola política os chefes e os partidos da pequena-burguesia tradicional, do "socialismo democrático", colocando-os no lugar dos seus representantes mais directos. Deu-se assim início à era dos governos da "terceira via" que proliferam por toda a Europa Comunitária mas que não conseguem esconder que a Revolução é, apesar de tudo, um perigo a esconjurar.

A queda do Muro de Berlim foi uma excelente oportunidade que foi perdida por aqueles que, nas três décadas anteriores, ousaram denunciar o regime da União Soviética e dos seus satélites de falso socialismo. Regimes que, embrulhando um capitalismo de Estado, mantinham no poder uma nova burguesia, agora com um carácter burocrático de Estado. O derrube das ditaduras de Leste, contra quem lutaram as classes operárias e os povos desses países pela sua emancipação, acabou por ser apenas uma vitória das novas burguesias que nesses países haviam sido formadas e dos seus amos imperialistas ocidentais, a que entretanto se haviam vendido.

A luta desses povos ficou amarrada à luta pela liberdade e pela democracia burguesas, e foi abandonada à direcção de alguns sectores da nova burguesia, que se queriam libertar do fraseado socialista e das limitações que a anterior forma de regime impunham à sua ditadura de exploração e opressão.

Continuar a defender a validade do socialismo implica saber das razões da natureza capitalista da ex-URSS, de quando, em que condições e quais as causas da derrota do socialismo no país que historicamente constitui a primeira experiência de libertação da classe operária do jugo capitalista. Questões pertinentes que serão tratadas nesta página.

A inevitável "globalização", o novo "humanitarismo militar", o "fim das ideologias" são outros tantos aspectos do processo de internacionalização do Capital que, neste início de novo século, já invadiu de forma irreversível todos os países do mundo e todas as actividades humanas, e não meramente as económicas. Aspectos que terão forçosamente que constituir objecto de análise de todos os comunistas e revolucionários do mundo e que vêm confirmar a validade do que foi afirmado por Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista, há mais de cento e cinquenta anos.

Os efeitos da chamada globalização no nosso país, e particularmente por via da integração na União Europeia, obrigam a classe operária portuguesa e aqueles que se reivindicam do campo socialista a repensar toda a sua estratégia. Saber agora, na época do domínio do capital financeiro e da hegemonia de uma só potência imperialista, qual o caminho a seguir pelo proletariado revolucionário, quais as suas formas de luta, que tipo de organização, quais as classes que também estão interessadas na Revolução e a que se deve aliar, se a Revolução ainda é possível num só país ou terá que acontecer em diversos simultaneamente, são questões a debater.

Fazer o balanço de todo o movimento operário e social português, com particular incidência dos últimos trinta anos, compreender as transformações económicas e sociais ocorridas neste período, bem como as lições da Revolução de 1974-75, é uma nossa intenção.

Desmistificar a história oficial: o "25 de Abril", o golpe de estado e a Revolução; os diversos partidos de esquerda, a sua natureza e papéis desempenhados; o significado do golpe de 25 de Novembro de 1975, a derrota da Revolução; a instituição da democracia burguesa, o "cavaquismo". Conhecendo o passado se poderá compreender a precariedade do momento actual e preparar a estratégia para o futuro.

Para além de todas estas razões, outras houve que levaram à criação desta página: o seu relativo fácil acesso, a economia de meios na sua construção e manutenção e o rápido aumento do número de cidadãos, especialmente por parte dos mais jovens, que se inicia na navegação na Net.

As tentativas de regulamentação das publicações electrónicas e até de censura clara e aberta por parte de alguns governos mostram que a Internet poderá ser uma faca afiada apontada à garganta da burguesia e assim um instrumento poderoso ao serviço do debate alargado de ideias e à própria organização de todos aqueles que lutam pela emancipação da Humanidade.

Façamos votos que esta página cumpra as tarefas a que se propõe: um fórum de debate de opiniões, um contributo para a clarificação de ideias e que se traduza no enriquecimento da ideologia proletária e no aumento da consciência proletária - em suma, um pequeno impulso para o avanço da Revolução em Portugal e no mundo.

Julho de 2001
A Página Vermelha