A Vida de uma Escrava Tibetana

No final dos anos 50, numa altura em que as primeiras vagas de libertação varriam o Tibete, uma ex-escrava de 36 anos de idade, Lando, subiu à frente de uma audiência de antigos servos e escravos para testemunhar.

Quando Lando tinha apenas oito anos de idade, o seu pai foi chicoteado até ficar paralisado. O encarregado veio até à cama dele para lhe ordenar que regressasse ao trabalho. Como o pai de Lando não se conseguiu levantar, o encarregado chicoteou-o até à morte por “fingimento” – na sua própria cama!

O encarregado afastou-se do morto e agarrou em Lando e levou-a com ele como escrava. Ela dormia no celeiro com as ovelhas que a encarregaram de cuidar. Foi repetidamente violada pelo seu amo e espancada até à inconsciência pela sua esposa ciumenta. Acabou por ficar grávida e foi vendida a outro amo para esconder a “vergonha”. Durante 28 anos, Lando viveu nesse tormento.

Nunca lhe autorizaram qualquer contacto com a sua família. Rezou muitas vezes pela sua morte, mas tinha medo de cometer suicídio porque temia que isso fizesse com que renascesse numa reencarnação ainda pior. Quando chegou a libertação, equipas de revolucionários iam ter com os escravos e os servos para os organizar para acabarem com a sua opressão. Mas Lando nunca tinha ouvido a palavra “opressão” e a princípio não entendeu o que queria dizer. Ela sempre tinha pensado que o seu sofrimento era por sua própria culpa – devido ao seu inevitável karma.

Ao ouvir a história de Lando, a reunião de servos libertados lamentou e gritou “Abaixo a servidão!” Nessa altura, Lando já se tinha tornado numa activista revolucionária e numa líder regional.

De Quando os Servos Se Ergueram no Tibete
por Anna Louise Strong

(Publicado originalmente no jornal Revolutionary Worker / Obrero Revolucionario n.º 748, 20 de Março de 1994)