O Dalai Lama e a CIA

Pouco depois da vitória de 1949 das forças maoistas contra o ditador Chiang Kai-shek apoiado pelos EUA, a revolução chegou ao Tibete. A classe dominante do Tibete – uma classe feudal de aristocratas e monges – alternou grandemente entre a passividade e a resistência.

A partir de 1957, sectores dessa classe participaram numa série de actos armados anticomunistas – tentando impedir as profundas transformações revolucionárias no Tibete. Os propagandistas lamaístas, incluindo o próprio Dalai Lama, retratam esses actos como uma resistência nobre e interna ao domínio estrangeiro.

A verdade é esta: desde o seu início nos anos 50 no Tibete até à insurreição feudalista armada de 1959, passando pelo movimento dos anos 60 de guerrilha armada baseada nos exilados – que essa “luta” foi organizada, financiada, treinada, armada, liderada e, por fim, desactivada pela CIA.

Nos velhos tempos, o Dalai Lama era uma figura de proa de uma ordem feudal opressora. No exílio, tornou-se na figura de proa de um movimento armado anticomunista tibetano apoiado pela CIA e encabeçado pelo seu irmão Gyalo Thondup – semelhante aos muitos exércitos “contra” (contra-revolucionários) que a CIA criou para levar a cabo guerras encobertas.

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“Muitas das armas vieram de fora. A base dos rebeldes a sul do rio Tsangpo recebeu várias vezes fornecimentos atirados do ar vindos dos bandos de Chiang Kai-shek e as estações de rádio foram instaladas por agentes enviados pelos imperialistas e pelos bandos de Chiang Kai-shek para as suas manobras”.

Agência noticiosa revolucionária Xinhua, Março de 1959.

“Ninguém, seja nos países envolvidos ou nos não envolvidos, pode acreditar na alegação comunista de que... a rebelião foi apoiada pelos ‘imperialistas, bandos de Chiang Kai-shek e reaccionários estrangeiros’.”

The Economist, 1959.

“Não há nada que tenha vindo do exterior.”

Thubten Norbu, irmão do Dalai Lama, entrevistado pelo U.S. News and World Report, 1959.

No início dos anos 50, os EUA invadiram a Coreia e ameaçaram invadir a própria China revolucionária. Ao mesmo tempo, a Agência Central de Informações (CIA) trabalhava dia e noite para juntar as forças reaccionárias às suas redes de espiões e para desenvolver equipas clandestinas que pudessem levar a cabo uma guerra secreta contra o novo poder popular na China.

Em Abril de 1949, o Secretário de Estado dos EUA, Dean Acheson, enviou um telegrama ao seu Embaixador em Nova Deli dizendo que os governantes norte-americanos gostariam de ver “discretamente fortalecida a capacidade militar tibetana [de] resistência”. O historiador do Tibete A. Tom Grunfeld escreveu: “No verão de 1950 foram dadas instruções ao Gabinete de Coordenação Política, o ramo burocrático oficialmente encarregue das operações encobertas, para se ‘iniciar uma guerra psicológica e operações paramilitares contra o regime comunista chinês’.”

As principais forças feudais à volta do Dalai Lama ofereceram-se como sequiosos agentes – inicialmente das forças reaccionárias do Kuomintang (KMT) liderado por Chiang Kai-shek em Taiwan e depois directamente dos EUA. Os dois irmãos mais velhos do Dalai Lama, Gyalo Thondup e o “lama reencarnado” Thubten Jigme Norbu, emergiram como importantes agentes tibetanos da CIA.

Grunfeld escreveu: “George Patterson... esteve intimamente envolvido nessas negociações como tradutor e intermediário. Ele relatou que em 1953 Thubten Norbu contactou a CIA e que lhe disseram para levar o seu caso ao KMT (de quem já recebia apoio encoberto). Patterson também recordou um encontro dois anos depois entre Ragpa Pangdatsang e representantes dos governos da Índia e dos EUA. Nessa altura os Estados Unidos terão supostamente sugerido um plano de revolta em dez anos, cujo objectivo seria um eventual fim do controlo da China sobre o Tibete... John F. Avedon, cujo recente livro pode ser considerado a versão ‘oficial’ da perspectiva histórica do Dalai Lama, contesta que Gyalo Thondup tenha feito um acordo com a CIA logo em 1951. Foi inicialmente um arranjo para recolha de informações que se transformou numa guerra de guerrilha em 1956. Num curto espaço de tempo, os Estados Unidos tinham eclipsado o KMT como principal fonte de ajuda militar aos rebeldes.” Grunfeld acrescenta que quando iniciou esses arranjos com os imperialistas norte-americanos, Thubten Norbu levava consigo “uma carta que o autorizava a negociar em nome do Dalai Lama”. Em 1958, a CIA começou a usar bases aéreas em Banguecoque, na Tailândia, para despejar do ar armas e munições na região de Kham, de etnia tibetana.

Grunfeld escreveu: “Foi Gyalo Thondup que organizou as primeiras missões de treino da CIA, escolhendo seis tibetanos para esse fim”. Pouco depois, um campo secreto de treinos da CIA para agentes tibetanos foi instalado em Camp Hale, nas montanhas Colorado Rockies, nos EUA.

Conspirações Tibetanas – Made in USA

As manobras da CIA encorajaram uma insurreição armada em Março de 1959, quando as forças feudais tentaram expulsar o exército revolucionário do Tibete. Diz Grunfeld: “Apesar dos gritos de inocência da parte do Dalai Lama, responsáveis em Washington planearam os acontecimentos meses antes daquele fatídico Março de 1959”.

Em Março de 1959, as forças feudais tibetanas foram rapidamente derrotadas. O Dalai Lama foi forçado a exilar-se na Índia numa operação encoberta da CIA. Grunfeld documentou que os agentes treinados pela CIA na caravana do Dalai Lama colocavam na neve alvos especiais lançados do ar para guiarem um avião militar C130 dos EUA que tinha sido especialmente modificado para voar nos rarefeitos céus tibetanos. A meio caminho da Índia, um operador de rádio juntou-se ao grupo do Dalai Lama para que toda a operação pudesse ser monitorada directamente pela estação da CIA em Dacca, no Paquistão Oriental (actual Bangladesh).

A CIA estabeleceu imediatamente uma força “contra” entre os tibetanos exilados. Dez campos foram instalados no minúsculo principado de Mustang na fronteira Nepal-China. A CIA obteve mais três C130 modificados para as entregas aéreas de alta altitude. Diz Grunfeld: “Este importante esforço de recrutamento reuniu no campo 14 000 tibetanos e mais alguns membros dos povos tribais, ‘inteiramente dependentes dos transportes de longa distância e da infiltração’, e ‘armados, equipados e alimentados pela Agência [a CIA]’.”

Em 1961, o Dalai Lama disse: “as únicas armas que os rebeldes [lamaístas] possuem são as que conseguiram capturar aos chineses”. Alguns relatos dizem que o Dalai Lama escolheu pessoalmente o chefe do campo de Mustang.

As Ameaças de Guerra da Índia

Nessa altura, o governo indiano estava a preparar uma guerra fronteiriça com a China revolucionária e aumentou o seu envolvimento directo no exército contra-revolucionário tibetano. Numa base secreta indiana em Orissa, agentes norte-americanos, responsáveis indianos e “contras” tibetanos reuniam-se semanalmente para coordenarem as suas actividades. A primeira incursão contra-revolucionária tibetana na China teve lugar no final de 1961, pouco antes de rebentar a guerra entre a Índia e China. Grunfeld documenta um estudo da CIA desse período com informação detalhada sobre como as condições meteorológicas únicas do Tibete poderiam afectar o uso de antenas, substâncias químicas e guerra biológica.

Entretanto, o alto clero tibetano alugava dezenas de milhares de refugiados tibetanos ao governo indiano na construção de estradas militares no norte da Índia para a iminente guerra contra a revolução chinesa (ver o artigo anexo com uma descrição desses campos de trabalhos forçados). Quando, em 1962, estalou a guerra entre a Índia e a China revolucionária, as forças da Índia foram rapidamente derrotadas pelo Exército Popular de Liberação.

Enquanto os exilados tibetanos ajudavam a Índia a atacar a China, poderosas forças revolucionárias dentro da Índia inspiravam-se na revolução maoista. Os internacionalistas revolucionários indianos tomaram o partido da China. Pouco depois, os comunistas revolucionários liderados por Charu Mazumdar formaram na Índia um novo partido maoista de vanguarda que, em 1967, iniciou uma grande luta armada entre os camponeses de Naxalbari – o mesmo distrito de Darjeeling por onde muitos feudalistas tibetanos entraram na Índia.

Incursões e Espionagem a Partir das Bases Contra-Revolucionárias Tibetanas

As incursões fronteiriças dos contra-revolucionários tibetanos continuaram durante os anos 60. O dinheiro que Gyalo Thondup recebia da CIA para essas operações aumentou. A CIA esperava que esses “contras” tibetanos pudessem manter redes de agentes, levar a cabo actos de sabotagem e hostilizar em geral as forças revolucionárias.

Mas, globalmente, toda essa operação “contra” tibetana foi um fracasso. À medida que a revolução se aprofundava no Tibete, a fronteira foi protegida com cada vez mais sucesso. As milícias revolucionárias das Comunas Populares – compostas por antigos servos tibetanos – juntaram-se ao Exército Popular de Liberação na perseguição e morte desses odiados sabotadores e espiões feudais. Entretanto, o povo do Nepal exigia cada vez mais que esses campos armados fossem removidos.

Na última incursão conhecida, em 1969, um bando invasor “contra” tibetano foi completamente esmagado pelas forças revolucionárias. No início dos anos 70, a classe dominante dos EUA estava atolada no Vietname e a preparar a abertura de relações com a República Popular da China. Um movimento armado “contra” tibetano corrupto e ineficaz já não servia os planos imperialistas dos EUA. A CIA pura e simplesmente abandonou os “contras” tibetanos.

Este é o padrão de usar-e-deitar-fora usado pelos reaccionários entre os curdos do Irão, as tribos Hmong das montanhas da Indochina, os índios Misquito do leste da Nicarágua e as forças fundamentalistas islâmicas que combateram no Afeganistão.

Em 1975, o Dalai Lama ordenou às remanescentes forças “contra” no Nepal para baixarem as suas armas. Os senhores feudais tibetanos estavam política e militarmente derrotados dentro do Tibete. Quando secaram os fundos da CIA, os “contras” tibetanos já não tinham nenhuma base para continuarem a sua guerra de guerrilha no exílio.

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Para mais documentação e detalhes sobre o envolvimento da CIA no movimento “contra” do Dalai Lama, ver o livro de A. Tom Grunfeld, The Making of Modern Tibet.

(Publicado originalmente no jornal Revolutionary Worker / Obrero Revolucionario n.º 765, 17 de Julho de 1994)