HISTÓRIA DO MOVIMENTO COMUNISTA INTERNACIONAL

Relembrar a história não faz mal a ninguém e muito menos numa altura em que ela é tão mal tratada, nomeadamente por aqueles que deveriam ser os primeiros a respeitá-la.

Ouvimos em debate realizado não há muito tempo, organizado por partido que se reivindica da revolução, umas quantas barbaridades a respeito da Revolução Bolchevique, uma das quais referentes ao papel de Stakanov, mais precisamente ao significado do movimento por si iniciado, e que lhe tomou o nome, na construção económica da sociedade socialista na ex-URSS.

A fim de assentar e esclarecer ideias, transcreve-se dois excertos, um retirado da História do Partido Comunista (Bolchevique) da URSS, obra escrita sob direcção do próprio Estaline, o outro retirado do livro de Charles Bettelheim, As Lutas de Classes na URSS, escrito em finais de 70 e princípios de 80.

O STAKANOVISMO

Este movimento (movimento stakanovista) nasceu e desenvolveu-se na bacia do Donetz, na indústria hulhífera, tendo-se estendido a outras indústrias, aos transportes e conquistado seguidamente a agricultura. O nome do movimento stakanovista adveio-lhe do seu promotor, o mineiro Alexei Stakanov, do poço «Tsentraínaia Irmino» (bacia do Donetz). Antes de Stakanov, Nikita Izotov tinha já estabelecido recordes sem precedentes na extracção do carvão. O exemplo de Stakanov, que a 31 de Agosto de 1935, extraiu numa só jornada 102 toneladas de carvão, ou seja, 14 vezes mais que o normal, marcou o começo de um movimento de massas dos operários e dos kolkosianos pelo elevamento dos níveis de rendimento, por um novo desenvolvimento da produtividade do trabalho. Bousayguine na indústria automóvel, Smétanine no calçado, Krivonos nos transportes, Moussinsky na indústria florestal, Evdokia e Maria Vinogradova nos têxteis, Maria Demtchemko, Marina Gnatenko, P. Angélina, Polagoutine, Kolessov, Kovardak. Borine na agricultura, tais foram os nomes dos pioneiros do movimento stakanovista.

Outros se lhes seguiram, destacamentos inteiros de pioneiros, que elevaram ainda mais do que os seus predecessores a produtividade do trabalho.

A primeira Conferência dos stakanovistas da URSS efectuada em Novembro de 1935 no Kremlin, assim como a intervenção do camarada Estaline, tiveram uma importância imensa para o desenvolvimento do movimento stakanovista.

«O movimento stakanovista, disse o camarada Estaline, exprime um novo desenvolvimento da emulação socialista, uma etapa nova, superior, da emulação socialista. Anteriormente, acerca de três anos, durante a primeira etapa da emulação socialista, esta não se encontrava necessariamente ligada à nova técnica. Aliás, nesse momento, quase não possuíamos, para falar correctamente, uma técnica moderna, enquanto que a etapa actual da emulação socialista, o movimento stakanovista, está, pelo contrário, necessariamente ligado à técnica moderna. O movimento stakanovista não seria concebível sem a técnica nova, superior. Eis, perante vós, pessoas como os camaradas Stakanov, Boussyguine, Smetanine, Krivonos, Pronine, os Vinogradova e muitos outros, pessoas novas, operários e operárias, que se tornaram inteiramente senhores da técnica da sua profissão, que a dominaram e a fizeram avançar. Estas pessoas não as tínhamos ou quase não as tínhamos há três anos... A importância do movimento stakanovista, reside em que este movimento faz cair as antigas normas técnicas por serem insuficientes, ultrapassa em muitas ocasiões a produtividade do trabalho dos países capitalistas avançados e assim abre a possibilidade da prática de um contínuo desenvolvimento do socialismo no nosso país, a possibilidade de tornar o nosso país mais rico»

Definindo os métodos de trabalho stakanovistas e analisando o enorme papel deste movimento no futuro do nosso país, o camarada Estaline prosseguia nestes termos:

«Observem mais de perto os camaradas stakanovistas. Quem são eles? São, sobretudo, operários e operárias, jovens ou de idade média, pessoas de vanguarda, dominando firmemente a técnica, que dão o exemplo da precisão e da atenção ao trabalho, que sabem apreciar o factor tempo no trabalho e que aprenderam a contar não só os minutos mas também os segundos. A maior parte deles, ultrapassou aquilo a que se chama o mínimo técnico (nível de conhecimentos técnicos estabelecido para os operários nas empresas socialistas) e continuam a completar a sua instrução técnica. Estão isentos do conservadorismo e da rotina de certos engenheiros, técnicos e dirigentes de empresa; colocam-se ousadamente na vanguarda, substituindo as velhas normas e criando novas normas técnicas, mais avançadas; produzem rectificações nas capacidades de rendimento previstas e nos planos económicos estabelecidos pelos dirigentes da nossa indústria; completam e corrigem constantemente os engenheiros e os técnicos; frequentemente chamam-lhes a atenção e impulsionam-nos, pois são homens que se tornaram plenamente senhores da técnica da sua profissão e que sabem retirar da técnica o máximo que dela se pode retirar. Hoje, os stakanovistas são ainda pouco numerosos, mas quem pode duvidar de que amanhã o seu número não esteja decuplicado? Não é evidente que os stakanovistas são inovadores na nossa indústria? Que o movimento stakanovista representa o futuro da nossa indústria? Que contém em gérmen o futuro do desenvolvimento técnico e cultural da nossa classe operária? Que abre perante nós a única via que nos permitirá obter índices mais elevados de produtividade do trabalho, índices necessários para passar do socialismo ao comunismo e suprimir a oposição entre o trabalho manual e o trabalho intelectual?»

(in História do Partido Comunista (Bolchevique) da URSS, Editora Vento de Leste, 1975)

Mas Bettelheim põe em causa que se estivesse a edificar uma economia socialista, mas apenas a efectuar-se uma revolução capitalista, onde se dava primazia à técnica e a política não contava para nada, reforçando-se as relações produção capitalista, com a organização taylorista do trabalho levada às últimas consequências, e dando-se todo o poder de decisão aos quadros técnicos e aos dirigentes de fábrica que ultrapassavam o próprio Partido Bolchevique:

«A natureza destas transformações pode ser evidenciada pela análise das mais importantes entre elas, descritas com minúcia pela imprensa soviética dos anos 1935 e 1936...

Em resumo, estas transformações têm essencialmente as características seguintes:

1)  Conduzem a um aprofundamento da divisão capitalista do trabalho, "libertam" os operários qualificados das tarefas secundárias, que são transferidas para os operários não qualificados. Favorecem, assim, uma divisão maior do trabalho colectivo entre um número reduzido de trabalhadores qualificados e um número relativamente maior de não qualificados. A polarização que caracteriza o trabalhador colectivo nas condições do capitalismo acha-se, portanto, acentuada. No exemplo acima citado de Stakanov passa-se da relação de 17 ou 18 operários qualificados para 5 não qualificados à de 6 operários qualificados para o mesmo número de não qualificados. No caso da transformação do processo de produção pela operária Vinogradova, que trabalha com teares Northrop, havia 9 operárias qualificadas e 4 auxiliares numa equipa, antes da transformação do processo de produção, passando a haver, após a transformação, 1 operária qualificada e 12 auxiliares. Como estas últimas recebem salários mais baixos, o preço médio da força de trabalho fica reduzido e a rendibilidade acrescida;

2)  Permitem, em geral, uma intensificação do emprego dos meios de trabalho existentes (assim, no caso de Stakanov, os martelos-picadores passam a ser utilizados a tempo completo). Existe, pois, economia relativa do capital constante e acréscimo possível da taxa de lucro;

3)  Determinam um aumento da intensidade do trabalho pela eliminação dos "tempos mortos". É isto visível no caso de Stakanov, assim como no de Boussyguine, em que se parcelizam as tarefas, de tal modo que cada operário repete a ritmo rápido os mesmos gestos. A intensificação do trabalho evidencia-se bem através de uma reportagem que descreve o trabalho da equipa de Boussyguine:

A brigada, toda ela, arde numa raiva de trabalho sem medida. Nem sequer se concebe que alguém se possa aproximar de um dos seus homens para distraí-lo por um instante, ninguém fuma, ninguém fala. Visitei bastantes empresas e em parte nenhuma testemunhei semelhante êxtase de trabalho. Trata-se, verdadeiramente, de um trabalho patético.

(...)

Como Marx mostrou, este tipo de transformação do processo de produção permite obter "uma contracção dos poros do dia de trabalho", conduz a uma produção de mais-valia absoluta.

De uma maneira geral, o aspecto dominante do movimento stakanovista é a adaptação do trabalho vivo às exigências de uma plena utilização do trabalho morto, o que permite acrescer a taxa de lucro.

Por esta razão, as transformações do processo de produção induzidas pelo movimento stakanovista inscrevem-se inteiramente na forma capitalista deste processo. Correspondem à sua finalidade. Não desembocam num domínio colectivo da produção, mas sim numa parcelização, numa desqualificação e numa intensificação acrescidas do trabalho. Procedem das mesmas tendências que o taylorismo, mas transformando um dos operários em chefe de equipa ou de brigada.

(Continua)