Declaração do CG da AIT sobre a guerra civil em França em 1871
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IV

A primeira tentativa do complot dos negreiros para liquidar Paris foi fazê-la ocupar pelos Prussianos; mas ela fracassou perante a recusa de Bismarck. A Segunda, a do 18 de Março, tinha conduzido à derrota do exército e à fuga para Versailles do governo, que obrigou toda a administração a segui-lo. Simulando negociações com Paris, Thiers ganhou então tempo para se preparar para a guerra contra ela. Mas onde encontrar um exército? Os restos dos regimentos de linha estavam fracos em efectivos e desmoralizados. Os seus instantes apelos às províncias, convidando-as a vir rapidamente em auxílio de Versailles com os seus guardas nacionais e voluntários foram acolhidos com uma pura e simples recusa. Só a Bretanha forneceu um punhado de chouans1 que combatiam sob uma bandeira branca e cujo grito de guerra era: «Viva o rei!». Thiers foi então forçado a reunir, a toda a pressa, um bando pintalgado, composto por marujos, soldados de infantaria da marinha, zuavos pontifícios, gendarmes de Valentin, e polícias de giro e pelos espiões de Piétri. Este exército, todavia, teria sido ridiculamente impotente sem os repatriamentos dos prisioneiros de guerra imperiais que Bismarck largava a conta-gotas, justamente o suficiente para permitir o desenrolar da guerra civil e manter o governo de Versailles servilmente subjugado à Prússia. Durante a própria guerra, a polícia versalhesa teve que vigiar o exército de Versailles, ao mesmo tempo que tinham que o estimular, expondo-se em todos os postos de maior perigo. Os fortes que tombaram não foram tomados, mas comprados. O heroísmo dos federados convenceu Thiers de que a resistência de Paris não podia ser quebrada unicamente pelo seu génio estratégico e pelas baionetas de que dispunha. Esperando, as suas relações com as provinciais tornavam-se cada vez mais difíceis. Nem uma única declaração de aprovação vinha acalmar Thiers e os seus rurais. Pelo contrário... Deputações e declarações choviam de todos os lados, pedindo num tom pouco mais que respeitoso, a reconciliação com Paris como base dum reconhecimento sem equívoco da República, a confirmação das liberdades comunais e a dissolução da Assembleia Nacional, cujo mandato tinha expirado. Elas chegavam em tal quantidade que Dufaure, ministro da Justiça de Thiers, na sua circular de 23 de Abril aos procuradores, lhes impôs que considerassem a «palavra da ordem da conciliação» como um crime! No entanto, começando a desesperar do sucesso da sua campanha, Thiers resolveu mudar de táctica; ordenou, em todo o país, eleições municipais para 30 de Abril, na base da nova lei municipal que ele próprio tinha ditado à Assembleia nacional. Quer pelas intrigas dos seus prefeitos, como pela intimidação policial, Thiers esperava com confiança que o veredicto das províncias desse à Assembleia Nacional o poder moral que esta nunca possuíra e que pusessem ao seu dispor finalmente a força material de que ele tinha necessidade para a conquista de Paris.

O seu banditismo contra Paris, que ele exaltava nos seus próprios boletins, e as tentativas dos seus ministros para estabelecer por toda a França o reino do terror, Thiers, desde o início, preocupava-se em acompanhá-lo duma pequena comédia da conciliação, que devia servir mais que um objectivo. Ela devia engodar as províncias, atrair os elementos burgueses de Paris e, acima de tudo, dar aos falsos republicanos da Assembleia Nacional a oportunidade de dissimular a sua traição para com Paris, através da sua própria fé em Thiers. A 21 de Março, enquanto não tinha ainda nenhum exército, declarara à Assembleia Nacional: «Aconteça o que acontecer, não enviarei o exército contra Paris». A 27 de Março, subia de novo à tribuna: «Eu encontrei a República como um facto consumado, e estou firmemente resolvido a mantê-la». Na realidade, ele reprimia a revolução em Lyon e em Marseille2 em nome da República, enquanto que os rugidos dos seus rurais ocultavam a simples menção deste nome em Versailles. Depois desta proeza, ele atenuou o «facto consumado» que não passou a ser mais que um «facto hipotético». Os príncipes de Orleans, que ele tinha por precaução mandado espiar em Bordeaux, tinham agora, em violação flagrante da lei, toda a licença de intrigar em Dreux. As concessões feitas por Thiers nas suas intermináveis entrevistas com os delegados de Paris e das províncias, ainda que variando constantemente de tom e de cor, iam dar sempre, ao fim de contas a isto; a sua vingança limitar-se-ia provavelmente ao «punhado de criminosos implicados no assassinato de Lecomte e Clément Thomas», com a condição, bem entendido, que Paris e a França reconhecessem sem reservas M. Thiers em pessoa como a melhor das Repúblicas; exactamente como ele tinha feito em 1830 com Louis-Philippe. Às próprias concessões, ele não se limitava a fazer o favor de as pôr em dúvida com comentários oficiais feitos a este respeito pela Assembleia e pelos seus ministros. Ele tinha o seu Dufaure, este velho advogado orleanista, tinha sido sempre o guarda da chancela durante o estado de sítio tanto agora em 1871, com Thiers, como em 1839, com Louis-Philippe, e como em 1848, sob a presidência de Louis Bonaparte. Durante o período em que esteve sem pasta, fez uma fortuna defendendo os capitalistas de Paris, e aumentou o seu capital político pleiteando contra as leis de que ele próprio era autor. No presente, não contente em fazer votar à pressa pela Assembleia Nacional uma série de leis representativas que deviam, depois da queda de Paris, extirpar os últimos vestígios da liberdade republicana, ele deixava prever a sorte de Paris abreviando o processo judicial, demasiado lento por sua vontade, dos tribunais marciais e publicando uma nova lei draconiana de deportação. A revolução de 1848, abolindo a pena de morte em matéria política, tinha-a substituído pela deportação. Louis Bonaparte não tinha ousado, pelo menos em teoria, restabelecer o regime da guilhotina. A Assembleia dos rurais, que não tinha ainda o arrojo sequer de insinuar que os Parisienses não eram rebeldes mas assassinos, teve todavia que limitar a sua vingança antecipada contra Paris à lei de deportação de Dufaure. Com todas estas circunstâncias, o próprio Thiers não teria podido prosseguir a sua comédia de conciliação, se ela não tivesse, como ele o entendia, desafiado os urros de raiva dos rurais que, com os seus cérebros de ruminantes, não compreendiam nem o seu jogo nem a necessidade de hipocrisia, das tergiversações e dos adiamentos.

Em vista da proximidade das eleições municipais a 30 de Abril, Thiers jogou, a 27, uma das suas grandes cartadas de conciliação. No meio dum dilúvio de retórica sentimental, afirmou na tribuna da Assembleia: «Não há complot contra a República, de modo que não é a questão de Paris que nos obriga a verter o sangue francês. Eu disse-o e digo agora: logo que as armas ímpias caiam das mãos que as seguram, o castigo cessará imediatamente por um acto de clemência de que apenas estará excluído o pequeno número de criminosos de direito comum». E como os rurais o interrompessem violentamente: «Senhores, digo-lo eu, suplico-vos, tenho ou não razão? Atentai realmente no que disse, será verdade, que os criminosos não são mais que um punhado? Não é reconfortante, no meio das nossas desgraças, que os homens capazes de verter o sangue de Clément Thomas e do general Lecomte não sejam mais que raras excepções?».

A França no entanto fez orelhas moucas ao que Thiers se orgulhava com todo o gosto de ter sido um canto de sereia parlamentar. Dos 700.000 conselheiros municipais eleitos pelas 35.000 comunas que restavam ainda em França, os legitimistas, orleanistas e bonapartistas reunidos não contavam mais que 8.000. As eleições complementares que se seguiram foram ainda mais decididamente hostis. Também, em lugar de obter das províncias a força material de que ele tinha tanta necessidade, a Assembleia Nacional perdeu até a sua última pretensão moral, a de ser a expressão do sufrágio universal do país. Para completar a falência, os conselhos municipais, novamente eleitos de todas as cidades de França, ameaçaram abertamente a Assembleia usurpadora de Versailles duma contra-Assembleia em Bordeaux.

O momento há muito esperado por Bismarck para a acção decisiva tinha chegado finalmente. Ele intimidou Thiers a enviar a Francfort plenipotenciários para o regulamento definitivo da paz. Com uma submissa obediência ao apelo do dono, Thiers apressou-se a despachar o seu fiel Jules Favre, apoiado por Poyer-Quertier. Poyer-Quertier, «eminente» proprietário de fiação de Ruão, adepto fervoroso e até servil do segundo Império, a que não tinha nunca encontrado outro defeito a não ser o seu tratado de comércio com a Inglaterra, prejudicial aos seus próprios interesses de mercado. Logo que se instalou em Bordeaux como ministro das Finanças de Thiers, ele denunciou este tratado «ímpio» dando a entender que ele seria proximamente abolido, e tinha mesmo o descaramento de tentar, inutilmente então (ele não contava com Bismarck), a reposição em vigor imediato das velhas tarifas protectoras contra a Alsácia, pois que, dizia ele, nenhum tratado internacional anterior a isso se opunha. Este homem, que considerava a contra-revolução como um meio de baixar os salários em Rouen e a cessão das províncias francesas como um meio de fazer subir o preço das suas mercadorias em França, não estava então totalmente indicado como digno compadre de Jules Favre na sua última traição, coroamento de toda a sua carreira?

A chegada a Francoforte deste belo par de plenipotenciários, o brutal Bismarck acolheu-os imediatamente com esta alternativa imperiosa: «Ou a restauração do Império, ou a aceitação incondicional das minhas próprias condições de paz!». As condições comportavam uma redução dos prazos de pagamento da indemnização de guerra e a ocupação contínua dos fortes de Paris pelas tropas prussianas até que Bismarck se desse por satisfeito com o estado de coisas em França; a Prússia era assim reconhecida como árbitro supremo dos negócios internos da França. Em contrapartida, comprometia-se a libertar, para a exterminação de Paris, o exército bonapartista prisioneiro e aprestar assistência directa com as tropas do imperador Guilherme. Ele dava garantia da sua boa fé fazendo depender da «pacificação» de Paris o pagamento da primeira entrega da indemnização. Uma tal isca, foi naturalmente com avidez mordida quer por Thiers quer pelos seus plenipotenciários. Eles assinaram o tratado de paz a 10 de Maio, e fizeram-no ratificar pela assembleia de Versailles a 18.

No intervalo que medeia entre a conclusão da paz e a chegada dos prisioneiros bonapartistas, Thiers sentiu-se tentado a retomar a sua comédia de conciliação tanto mais que os seus amigos republicanos tinham uma necessidade dolorosa de encontrar um pretexto para fechar os olhos aos preparativos do massacre de Paris. Ainda a 8 de Maio, ele respondia a uma deputação de conciliadores da classe média: «Quando os rebeldes estiverem decididos a capitular, as portas de Paris ficarão abertas a todos, durante uma semana, salvo aos assassinos dos generais Clément Thomas e Lecomte».

Alguns dias depois, como fosse violentamente interpelado pelos rurais por causa destas promessas, recusou entrar em explicações; não sem, no entanto, lhes dar esta indicação significativa: «Eu digo que há entre vós impaciência, homens demasiados apressados. É preciso esperar mais oito dias; ao fim destes oito dias já não haverá perigo e então a missão estará à altura da vossa coragem e da vossa capacidade». Logo que Mac-Mahon se encontrou em situação de lhe assegurar que poderia, dentro em pouco, entrar em Paris, Thiers declarou à Assembleia que «entraria em Paris com a lei na mão, exigiria uma expiação completa dos celerados que tivessem sacrificado a vida dos nossos soldados e destruído os nossos monumentos públicos»3. Como o momento da decisão se aproximava, diz à Assembleia: «Serei impiedoso», diz a Paris que ela estava condenada, e diz aos seus bandidos bonapartistas que tinham carta branca para se vingar de Paris, até à saciedade. Finalmente, quando a traição abriu as portas de Paris ao general Donay, a 21 de Maio, Thiers, a 22, revelou aos rurais, o «objectivo» da sua comédia de conciliação, que eles tão obstinadamente tinha persistido em não compreender.» Eu disse-vos, há alguns dias, que nos aproximávamos do nosso objectivo, hoje venho-vos dizer: «nós atingimos o objectivo. A ordem, a justiça, a civilização, alcançaram finalmente a vitória» !

Era justamente isso. A civilização e a justiça da ordem burguesa mostram a sua luz sinistra sempre que os escravos desta ordem se levantam contra os donos. Então, esta Civilização e esta justiça afirmam-se como a selvajaria sem máscara e a vingança sem lei. Cada nova crise na luta de classe entre explorador e produtor faz ressaltar este facto com mais clareza. As atrocidades dos burgueses em Junho de 1848 como que desaparecem diante da inenarrável infâmia de 1871. O heróico espírito de sacrifício com que a população de Paris - homens, mulheres e crianças - combateu durante oito dias depois da entrada dos Versalheses, reflecte tanto a grandeza da sua causa como as proezas infernais da soldadesca reflectem o espírito inato desta civilização de quem eles são os mercenários e os defensores. Gloriosa civilização, é certo, cujo grande problema uma vez passada a batalha é saber como se desembaraçar dos montões de cadáveres que provocou.

Para encontrar paralelo com a conduta de Thiers e dos seus cachorros, é preciso remontarmos aos tempos de Sila e dos dois triunviratos de Roma. O mesmo massacre em massa, executado a sangue frio; a mesma negligência no massacre, quanto à idade e sexo; o mesmo sistema de tortura dos prisioneiros; as mesmas proscrições mas desta vez de uma classe inteira; a mesma caça selvagem aos chefes refugiados, com receio que um só possa escapar; as mesmas denúncias por inimigos políticos e particulares; a mesma indiferença perante o massacre de pessoas inteiramente estranhas à luta. Não há senão esta única diferença: Os Romanos não tinham ainda metralhadoras para executar em conjunto os proscritos, e não tinham «a lei à mão», nem, nos lábios, a palavra da ordem «civilização».

E, depois destes horrores, olhai a outra face, ainda mais hedionda, desta "civilização burguesa, tal e qual foi descrita pela sua própria imprensa!

«Quando tiros perdidos, escreve o correspondente de Paris de um jornal tory de Londres, ressoam ainda ao longe quando infelizes feridos morrem abandonados entre as pedras tumulares do Pêre-Lachaise, quando seis mil rebeldes aterrorizados erram na agonia do desespero pelos labirintos dos subterrâneos, quando se vê passar pelas ruas infelizes, para serem abatidos às vintenas à metralhadora, é revoltante ver os cafés cheios de adoradores do absinto, do bilhar e do dominó; ver as mulheres perdidas deambular nas avenidas e ouvir o barulho dos débauches, que sai dos gabinetes particulares dos restaurantes da moda, a perturbar o silêncio da noite». M. Edouard Hervé escreve no Jornal de Paris, jornal versalhês suspenso pela Comuna: «A maneira como a população de Paris (!) manifestou a sua satisfação era mais que frívola, e cremos que isso não melhora com o tempo. Paris tem agora um ar de festa que é completamente descabido, e se não queremos que nos chamem os Parisienses da decadência, é preciso pôr fim a esta ordem de coisas». Depois ele cita a passagem de Tácito: «Enquanto, no dia seguinte ao desta terrível luta, mesmo antes dela ter completamente terminado, Roma, aviltada e corrompida, recomeçou a chafurdar no lodaçal da volúpia em que tinha destruído o corpo e desonrado a alma: alibi proelia et vulnera, alibi balnea popinoeque (aqui, combates e feridas, lá em baixo, banhos e cabarets)». M. Hervé esquece-se somente de dizer que a «população de Paris» de que ele fala não é senão a população de Paris de M. Thiers, os franc-fileurs voltando em peso de Versailles, Saint-Denis, Rueil e Saint-Germain, a Paris da «decadência».

Em todos os seus sangrentos triunfos sobre os grandes campeões da abnegação por uma sociedade nova e melhor, esta civilização celerada, fundada na escravidão do trabalho, abafou os gemidos das suas vítimas sob um coro de calúnia, cujo eco se repercute em todo o mundo. A calma Paris operária da Comuna é de repente transformada num pandemónio pelos cães da «ordem». E que prova esta monstruosa metamorfose ao espírito burguês de todos os países? É simples, que a Comuna conspirou contra civilização! O povo de Paris deixa-se matar no seu entusiasmo pela Comuna. O número dos seus mortos ultrapassa o de qualquer outra batalha conhecida na história. O que é que isso prova? É simples, que a Comuna não era o governo do povo, mas o fruto da usurpação dum punhado de criminosos. As mulheres de Paris jogam alegremente a sua vida nas barricadas e diante do pelotão de execução. O que é que isso prova? É simples, que o demónio da Comuna as mudou em Mégeres e Hècates! A moderação da Comuna durante dois meses dum domínio incontestável não tem paralelo senão no heroísmo da sua defesa. O que é que isso prova? É simples, que durante meses, a Comuna ocultou cuidadosamente, sob uma máscara de moderação e de humanidade, a sede de sangue dos seus instintos demoníacos que não deviam ser desencadeados se não à hora da agonia! A Paris operária completando sobre ela própria o seu heróico holocausto, envolveu-se nas chamas dos prédios e dos monumentos. Quando estiram em pedaços o corpo vivo do proletariado os donos da sociedade nada têm que pensar em entrar triunfalmente na arquitectura intacta dos seus imóveis. O governo de Versailles grita: «Incendiários!» e transmite esta senha a todos os seus agentes, até ao mais recuado dos lugarejos: dar por toda a parte caça aos seus inimigos, sob a acusação de serem incendiários. A burguesia de todo o Mundo, que contempla compassivamente o massacre em massa depois da batalha, está excitada de horror diante da profanação do tijolo e da argamassa!

Quando os governantes dão ordem aos seus marujos de «matar, queimar e destruir», será isto uma autorização de incêndio? Quando as tropas britânicas deliberadamente deitam fogo ao capitólio de Washington e ao palácio de Verão do Imperador da China, será isso um acto de incendiários? Quando os prussianos, não por razões militares, mas por simples gosto da vingança, queimam com petróleo cidades como Châteaudun e inumeráveis aldeias, será isto acto de incendiários? Quando Thiers, durante seis semanas bombardeava Paris com o pretexto de que queria deitar fogo unicamente às casas que estavam habitadas, seria isto acto de incendiários? Na guerra, o fogo é uma arma tão legítima como qualquer outra. Os edifícios ocupados pelo inimigo são bombardeados para ser incendiados. Se os seus defensores têm que bater em retirada, deitam-lhes fogo para impedir os assaltantes de se servir dos edifícios. Ser incendiadas tem sido sempre a sorte inevitável de todas as construções situadas na frente de combate de todos os exércitos regulares do mundo. Mas na guerra dos explorados contra os seus opressores, a única guerra justa na história, isso já não é completamente verdade! A Comuna empregou o fogo estritamente como meio de defesa. Ela empregou-o para interditar às tropas de Versailles as longas avenidas completamente rectas que Haussmann tinha expressamente aberto para o fogo de artilharia; ela empregou-o para cobrir a sua retirada do próprio lado em que os Versalheses, no seu avanço, empregavam os seus obuses que destruíam pelo menos tantos edifícios como o fogo da Comuna. Que edifícios foram queimados pela defesa e quais foram queimados pelo ataque ainda hoje se discute. E a defesa não recorreu ao fogo senão quando as tropas Versalhesas começaram o seu massacre em massa dos prisioneiros. Por outro lado, a Comuna tinha, muito antes, notificado publicamente que, se ela fosse empurrada até às últimas, ela se amortalharia a si própria sob os escombros de Paris e faria uma segunda Moscovo, como o governo da Defesa Nacional, mas ele, unicamente para disfarçar a sua traição, tinha prometido fazer. Foi para este efeito que Trochu mandou vir o petróleo necessário. A Comuna sabia que os seus adversários não tinham qualquer respeito pela vida do povo de Paris, mas tinham grande estima pelos seus imóveis. E Thiers, por seu lado, tinha-os notificado de que seria implacável na sua vingança. Logo que teve o seu exército completamente preparado de um lado e os Prussianos que fechavam as saídas do outro, proclamou: «Serei implacável! A expiação será e completa e a justiça inflexível.» Se os actos dos operários de Paris eram de vandalismo, era o vandalismo da defesa desesperada, não o vandalismo do triunfo, com que os cristãos perpetraram sobre as obras-primas realmente inestimáveis de antiguidade pagã; e até este vandalismo foi justificado pela história como o acompanhamento inevitável e relativamente insignificante do combate gigantesco entre uma nova sociedade ascendente e uma velha sociedade a desmoronar-se. Ainda bem menor era o vandalismo de Haussmann, arrasando a Paris histórica para dar lugar à Paris do turista.

Mas a execução pela Comuna dos sessenta e quatro reféns, com o arcebispo de Paris à cabeça! A burguesia e o seu exército tinham restabelecido um costume que tinha já há muito e desaparecido da prática da guerra, a execução dos prisioneiros desarmados. Este hábito brutal foi depois mais ou menos seguido aquando da repressão de todos os levantamentos populares na Europa e na Índia, o que prova que ele constitui bem real «progresso da civilização»! Por outro lado, os Prussianos, em França, tinham restabelecido o hábito de tomar como reféns pessoas inocentes que tinham que responder com o risco da sua vida pelos actos dos outros. Quando Thiers, como nós vimos desde o próprio início do conflito, estabeleceu a prática humana de abater os communards prisioneiros, a Comuna, para proteger a sua vida, viu-se na obrigação de recorrer à prática dos Prussianos capturando alguns reféns. Os reféns já tinham mil vezes merecido a morte pelas execuções contínuas de prisioneiros praticadas pelos Versalheses. Como podia a sua vida ser poupada por mais tempo, da carnificina com que os pretorianos4 de Mac-Mahon tinham celebrado a sua entrada em Paris? A última garantia contra a ferocidade sem escrúpulos dos governos burgueses - a captura de reféns - devia ela própria tornar-se fingimento? O verdadeiro assassino do arcebispo Darboy, é Thiers. A Comuna, por diversas vezes, tinha proposto trocar o arcebispo e ainda por cima um bando de padres, unicamente por Blanqui, então às mãos de Thiers. Thiers recusou obstinadamente. Ele sabia que com Blanqui daria uma cabeça à Comuna; enquanto que é sob a forma de cadáver que o arcebispo melhor serviria aos seus desígnios. Thiers seguia o exemplo de Cavaignac. Que gritos não soltaram, em Junho de 1848, Cavaignac e os homens da ordem, para acusar os rebeldes como assassinos do arcebispo Affre! E além disso eles sabiam perfeitamente que o arcebispo tinha sido abatido pelos soldados da ordem. Jacquement, vigário geral do arcebispo, presente no local tinha provado isso imediatamente.

Todo este concerto de calúnias que o partido da ordem nunca deixa, nas suas orgias de sangue, de lançar contra as suas vítimas, prova somente que o burguês dos nossos dias se considera como o sucessor legítimo do barão de ontem, para o qual na sua própria mão toda a arma era justa contra o plebeu, enquanto que nas mãos do plebeu a mais pequena arma constituía um crime.

A conspiração da classe dominante para abater a revolução por intermédio de uma guerra civil prosseguida com o patrocínio dos invasores estrangeiros, conspiração que nós seguimos desde 4 de Setembro até à entrada dos pretorianos de Mac-Mahon pela porta de Saint-Cloud, atingiu o seu ponto culminante com a carnificina de Paris. Bismarck contempla com satisfação as ruínas de Paris, em que ele vê talvez o primeiro ajuste de contas da destruição geral: das grandes cidades para que apelava quando era um simples rural na Câmara fantasma da Prússia de 1849. Ele contempla com satisfação os cadáveres do proletariado de Paris. Para ele, isto não representa somente a exterminação da revolução, mas a extinção de França, agora decapitada e pelo próprio governo francês. Com a falta de penetração própria de todos os homens de Estado satisfeitos, não vê senão o lado superficial deste formidável acontecimento histórico. Quando é que antes a história nos deu o espectáculo dum vencedor que coroa a sua vitória fazendo não só de gendarme, mas de vagabundo a soldo do governo vencido? Não havia guerra entre a Prússia e a Comuna de Paris. Pelo contrário, a Comuna tinha aceitado os preliminares da paz, e a Prússia tinha proclamado a sua neutralidade. A Prússia, pois, não era um beligerante. Ela se comportou como vagabundo; como um vagabundo abandonado, pois que não correu nenhum risco; como vagabundo assalariado, pois que tinha feito depender o pagamento do preço de sangue, os seus 500 biliões da queda de Paris. E assim, aparecia finalmente o verdadeiro carácter desta guerra, ordenada pela providência para castigo da França ateia e libertina pelo braço da piedosa e moral Alemanha! E esta violação sem exemplo do direito dos povos exactamente como o entendiam os juristas do mundo antigo, em lugar de levar os governos «civilizados» da Europa a expor à execração das nações o pérfido governo prussiano, simples instrumento do ministério de Saint-Pétersbourg, levou-os somente a pedir que algumas das vítimas que escapam ao duplo cordão formado à volta de Paris não fossem entregues também ao carrasco de Versailles.

Que depois da mais terrível guerra dos tempos modernos, o vencido e o vencedor confraternizem para massacrar em comum o proletariado, este espantoso acontecimento prova não, como o pensa Bismarck, o esmagamento definitivo duma nova sociedade ascendente, mas a desagregação completa da velha sociedade burguesa. O mais alto esforço de heroísmo de que a velha sociedade ainda é capaz é uma guerra nacional; e está agora provado que ela é uma pura mistificação dos governos, destinada a retardar a luta das classes, e que é posta de lado, logo que esta luta de classe desencadeia uma guerra civil. O domínio da classe não pode pois dissimular-se sob um uniforme nacional, os governos nacionais não são senão um só contra o proletariado!

Depois do Pentecostes de 1871, já não pode haver nem paz nem trégua aceitável entre os operários da França e aqueles que se apropriam do produto do seu trabalho. A mão de ferro duma soldadesca mercenária pode conter por um momento as duas classes debaixo duma comum opressão. Mas a luta retomar-se-á sem cessar, com um esplendor sempre crescente, e não pode haver dúvida quanto ao vencedor final; o pequeno numero dos monopolistas, ou a imensa maioria trabalhadora. E a classe operária francesa não é senão a vanguarda do proletariado moderno.

Enquanto que os governos europeus testemunham diante de Paris o carácter internacional do domínio de classe, eles gritam a sua indignação contra a Associação Internacional dos Trabalhadores, a contra-organização internacional do Trabalho oposta à conspiração cosmopolita do Capital, segundo eles a fonte mestra de todas as infelicidades. Thiers denuncia-a como o tirano do Trabalho, pretendendo passar por libertador. Picard dá ordem de cortar todas as comunicações entre as internacionais francesas e as do estrangeiro; o conde Jaubert, esta velha múmia, já cúmplice de Thiers em 1835, declara que o grande problema para todos os governos civilizados é extirpar a Internacional. Os rurais da Assembleia Nacional rugem contra ela e toda a imprensa europeia se junta ao coro. Um honorável escritor francês, completamente estranho à nossa associação exprime a sua opinião nestes termos: «Os membros do comité central da guarda nacional, assim como a maior parte dos seus membros da Comuna, são os espíritos mais activos, mais inteligentes e os mais enérgicos da Associação Internacional dos Trabalhadores..., homens que são profundamente honestos, sinceros, inteligentes, puros e fanáticos no bom sentido do termo». O entendimento burguês, todo impregnado de espírito policial, imagina naturalmente a Associação Internacional dos Trabalhadores como uma espécie de conjuração secreta, cuja autoridade central comanda, de tempos a tempos, explosões em diferentes países. A Nova Associação, não é, com efeito, nada mais que a ligação internacional que une os operários mais avançados dos diversos países do mundo civilizado. Em qualquer lugar, sob qualquer forma, e em condições em que a luta de classe teve consistência, é bem natural que os membros da nossa Associação se encontrem na primeira fila. O solo em que ela cresce é a própria sociedade moderna. Ela não pode dela ser extirpada, a não ser ao preço da maior efusão de sangue.

Para extirpar, os governos teriam que extirpar o despotismo do capital sobre o trabalho, condição da sua própria existência parasitária.

A Paris operária, com a sua Comuna, será sempre celebrada como o glorioso intróito duma sociedade nova. A recordação dos seus mártires conservar-se-á piedosamente no grande coração da classe operária. Aos seus exterminadores, a história pregou-os já ao eterno pelourinho, e nem sequer todas as preces dos seus padres os conseguirá remir.

Londres, 30 de Maio de 1871

Redigido por Marx em Abril-Maio de 1871 e aprovado em sessão do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores a 30 de Maio de 1871.

Publicado pelo primeira vez em brochura, em Londres, em 1871. Publicado na mesma altura em alemão e francês. O texto alemão sob a direcção e com a introdução de Engels apareceu em edição à parte, em Berlim em 1871.


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