O esboço histórico da génese da pretensa acumulação do capital em Inglaterra, é, relativamente, o melhor que se encontra no livro de Marx, e melhor seria se não se apoiasse na muleta sábia e na dialéctica. A negação da negação de Hegel joga, com efeito, o papel de parteira que tira o futuro do seio do passado. A abolição da propriedade individual, efectuada da maneira indicada desde o século XVI, é a primeira negação. Segue-se a esta uma segunda abolição, caracterizada como a negação da negação e que é como a restauração da «propriedade individual», numa forma ainda mais elevada, fundada na posse colectiva do solo e dos instrumentos de trabalho. Esta nova «propriedade individual» é chamada por Marx «propriedade social» e mostra-se nela a unidade superior de Hegel no seio da qual a contradição é aufgehoben, isto é, segundo o jogo de palavras de Hegel negada e conservada simultaneamente. «A expropriação dos expropriadores é, portanto, por assim dizer, o resultado automático da realidade histórica nos seus aspectos materiais e exteriores... Um homem sensato dificilmente se deixará convencer pelas cantilenas hegelianas, como a negação da negação, da necessidade da propriedade comum da terra e do capital... A nebulosa confusão dos conceitos de Marx não surpreenderá, de resto, a quem saiba o que se pode imaginar tendo por base a dialéctica de Hegel, ou ainda mais as extravagâncias que daí resultam. Observemos expressamente, para quem desconheça tais pormenores, que para Hegel a primeira negação é a ideia do pecado original, tirada do catecismo e, a segunda, a ideia de uma unidade superior que conduz à redenção. Como poderia fundar-se a lógica dos factos numa farsa análoga à da religião? ... O senhor Marx fica-se tranquilamente pelo nebuloso mundo da sua propriedade - simultaneamente individual e social - e deixa aos seus adeptos o cuidado de resolver, por si próprio, este profundo enigma dialéctico». É assim que fala Dühring.
Desta forma, Marx não pode provar a necessidade da revolução social à instauração de uma sociedade fundada na propriedade comum da terra e dos meios de produção criados pelo trabalho, a não ser invocando a negação de Hegel, e, fundando a sua teoria socialista «na farsa copiada da religião», chega ao resultado de que na sociedade futura existirá «uma propriedade simultaneamente individual e social», como unidade superior hegeliana da contradição superada.
Deixemos primeiro de lado a negação da negação e consideremos a «propriedade simultaneamente individual e social». O senhor Dühring diz-nos que é um mundo nebuloso, e nisso, coisa notável, tem verdadeira razão. Mas a desgraça está em que não é Marx quem se encontra nesse mundo nebuloso, mas antes, precisamente, o senhor Dühring em pessoa. Assim como anteriormente o senhor Dühring, graças ao seu desembaraço no método hegeliano do «delírio» podia ter sabido, sem esforço, o que conteriam os volumes ainda por acabar de O Capital, assim mesmo pode agora, sem grande esforço, corrigir Marx com Hegel, atribuindo-lhe uma unidade superior da propriedade, da qual Marx não disse uma palavra.
Marx disse: «É a negação da negação. Esta não restabelece a propriedade privada, mas sim a propriedade individual baseada nas conquistas da era capitalista: sobre a cooperação e a propriedade comum da terra e dos meios de produção produzidos pelo próprio trabalho. A transformação da propriedade privada e fragmentada, baseada no próprio trabalho dos indivíduos, é naturalmente, um processo muito mais prolongado, pesado e difícil, do que a transformação da propriedade capitalista baseada já, de facto, no modo social de produção, em propriedade social». Está tudo aí. O estado de coisas criado pela expropriação dos expropriadores caracteriza-se, deste modo, pelo restabelecimento da propriedade privada, mas sobre a base da propriedade social da terra e dos meios de produção criados pelo próprio trabalho. Para quem sabe entender, isto significa que a propriedade social se estende à terra e aos restantes meios de produção, e à propriedade individual, aos produtos e aos objectos de consumo. E para que a coisa resulte compreensível, mesmo para crianças de seis anos, Marx supõe (página 56) uma «associação de homens livres que trabalham com meios comuns de produção e empregam conscientemente as suas forças individuais de trabalho, como uma força de trabalho social», uma associação organizada segundo o plano socialista, e disse: «o produto total da associação é um produto social. Uma parte do dito produto serve de novo como meio de produção, continua sendo social, por outro lado consome-se, como meio de existência, para os membros da associação e, portanto, deve repartir-se entre eles». Não está bastante claro, nem mesmo para a cabeça hegelianizada do senhor Dühring?
A propriedade simultaneamente individual e social, essa representação confusa, essa extravagância inevitável da dialéctica de Hegel, esse mundo nebuloso, esse profundo enigma dialéctico que Marx deixa aos seus adeptos o cuidado de resolver, é também uma livre criação imaginativa do senhor Dühring. Marx, na qualidade de pretenso hegeliano, deve propor-nos como resultado da negação uma unidade superior verdadeira, mas como não o faz ao gosto do senhor Dühring, este volta, de novo, ao seu «estilo nobre e elevado» e atribui a Marx, «no interesse da inteira verdade», coisas que são da cozinha do senhor Dühring. Um homem tão total- mente incapaz de citar exactamente, mesmo por excepção, pode muito bem sentir indignação pela «erudição rebuscada» de outras pessoas que fazem sempre citações exactas e que, desse modo, «ocultam mal a falta de compreensão do sistema de ideias dos escritores que citam». O senhor Dühring tem razão. Viva a história em grande estilo!
Até agora, temos partido da suposição de que, se o senhor Dühring faz obstinadamente citações erradas, ao menos, é de boa fé, e que o facto provém de uma total incapacidade de compreender, que lhe é peculiar, ou também de um hábito peculiar da história em grande estilo, hábito a que é costume chamar-se negligência e que consiste em citar de cor. Mas parece que chegámos ao ponto em que, também no senhor Dühring, a quantidade se converte em qualidade, pois quando consideramos: 1º, que a passagem de Marx, em si, é completamente clara e, além disso, se completa por outra passagem do mesmo livro, que não pode ser mal interpretada; 2º, que nem na sua crítica de O Capital, citada anteriormente, nem na primeira edição de A História Crítica, o senhor Dühring descobriu semelhante monstruosidade, «a propriedade simultaneamente individual e social», mas só na segunda edição - à terceira leitura, portanto - e que nessa segunda edição, modificada no sentido socialista, o senhor Dühring devia fazer dizer a Marx as maiores extravagâncias possíveis acerca da organização futura da sociedade para poder apresentá-las em seu proveito como faz, e tão triunfalmente, dizendo: «a comuna económica, cujo esboço jurídico e económico foi dado no meu curso». Quando consideramos tudo isso, vemo-nos forçados a concluir que o senhor Dühring quase nos obriga a admitir que premeditadamente «ampliou proveitosamente» o pensamento de Marx (proveitosamente para o senhor Dühring).
Que desempenha, então, em Marx, a negação da negação? Nas páginas 791 e seguintes, resume o resultado das investigações económicas e históricas das cinquenta páginas precedentes, em que trata do que ele chama a acumulação primitiva do capital. Antes da era capitalista, existia a pequena indústria, pelo menos em Inglaterra, e o trabalhador tinha a propriedade individual dos seus meios de produção. O que se chama a acumulação primitiva do capital consiste numa expropriação destes produtores imediatos, quer dizer, na dissolução da propriedade privada tendo como base o próprio trabalho do proprietário, a qual foi possível porque a pequena indústria de que falamos só resulta compatível com uma produção e uma sociedade estreitamente limitadas por condições naturais e porque, em certo grau de desenvolvimento, engendra os meios materiais da sua própria destruição. Tal destruição, a transformação dos meios de produção individual e parcelar em meios de produção socialmente concentrados, constitui a pré-história do capital. Quando os trabalhadores se transformam em proprietários e as condições necessárias ao seu trabalho em capital; quando o modo de produção capitalista descansa sobre si mesmo, vê-se tomar uma forma nova a socialização do trabalho que se segue, assim como a transformação da terra e dos restantes meios de produção e, por conseguinte, a ulterior expropriação dos proprietários privados: «A quem se deve, então, expropriar não é ao trabalhador autónomo, mas ao capitalista que explora muitos trabalhadores. Esta expropriação realiza-se pela acção das leis imanentes da própria produção capitalista, pela centralização dos capitais. Cada capitalista mata muitos outros. A par desta centralização ou expropriação de muitos capitalistas por poucos, desenvolvendo-se a forma cooperativa do processo de trabalho numa escala sempre crescente, a aplicação técnica consciente da ciência, a exploração metódica da terra, a transformação dos meios de trabalho em meios de trabalho só utilizáveis em comum, a economia em todos os meios de produção de trabalho combinado e social... À medida que diminui o número dos magnates do capital, que usurpam e monopolizam todas as vantagens desse processo de transformação, crescem a miséria, a opressão, a escravidão, a degeneração, a exploração; mas também a rebelião da classe trabalhadora, cada vez mais numerosa e educada, unida e organizada pelo próprio mecanismo da produção capitalista. O monopólio do capital torna-se uma grilheta para o modo de produção que floresceu com ele e sob o seu regime. A centralização dos meios de produção e a socialização do trabalho chegam a um ponto em que são incompatíveis com o seu envoltório capitalista. O envoltório rompe-se. Soa a hora final da propriedade capitalista. Os expropriadores são expropriados». O Capital.
E agora pergunto eu ao leitor: Onde estão os labirintos de dialéctica capciosa, ou os arabescos de ideias, ou a «ideia composta e mal nascida», segundo a qual, finalmente, «tudo é uno», ou os «milagres dialécticos para os fiéis», ou «os mistérios dialécticos» é as «contorções da doutrina hegeliana do logos», sem a qual, segundo o senhor Dühring, Marx não tinha podido realizar a sua «evolução»? Marx, na citada passagem, prova simplesmente e resume de maneira breve que, «assim como, no seu tempo, a pequena indústria engendrou, pela sua própria evolução, as condições da sua própria destruição, quer dizer, a expropriação dos pequenos proprietários, e isto de um modo necessário; assim também, hoje, a forma de produção capitalista engendrou as condições materiais da sua morte. Tal processo é um processo histórico e se, ao mesmo tempo, é um processo dialéctico, Marx não tem culpa, por muito que isso contrarie o senhor Dühring.
Só depois de ter terminado a sua prova histórica e económica, Marx continua: «A forma de produção e apropriação capitalista, a propriedade privada capitalista, portanto, é a primeira negação da propriedade individual fundada no trabalho pessoal. A negação da produção capitalista engendra-se por si, com a exactidão de um processo natural: é a negação da negação (e o que se segue é o que foi antes citado)...
Assim, quando Marx qualifica tal fenómeno de negação não pensa provar, por este meio, a sua necessidade histórica, antes muito pelo contrário. Quando provou pela história que, de facto, o fenómeno se produziu ou deve produzir-se, designa-o, ao mesmo tempo, como fenómeno que se cumpre segundo uma lei dialéctica determinada. E isto é tudo. O senhor Dühring atribui, pois, de novo, a Marx aquilo que ele nunca disse, quando afirma que a negação da negação deve, neste caso, desempenhar o papel da parteira, por cujos cuidados o porvir sai das entranhas do passado, ou quando afirma que Marx exige, como coisa de fé, que, pela negação, nos convençamos da necessidade da comunidade da terra e do capital (comunidade que é uma contradição própria do senhor Dühring).
É não ter o menor conhecimento da natureza da dialéctica considerá-la, como faz o senhor Dühring, qual um simples instrumento de prova, segundo a ideia limitada que poderia formar-se da lógica formal ou da matemática elementar. A lógica formal e, antes de tudo, o método para descobrir resultados novos, para progredir do conhecido para o desconhecido, e isto mesmo, só que no sentido mais elevado, é a dialéctica que, além de sair do horizonte estreito da lógica formal, contém, também, O gérmen de uma concepção mais ampla do mundo. Encontra-se a mesma relação com a matemática. A matemática elementar, a matemática das grandezas constantes, move-se nos quadros da lógica formal, pelo menos no geral e no principal; a matemática das grandezas variáveis, cuja parte mais importante é o cálculo infinitesimal, não é, essencialmente, outra coisa que não seja a aplicação da dialéctica às questões matemáticas. A simples demonstração desaparece ante as múltiplas aplicações do método a novos objectos de investigação. Mas quase todas as provas da matemática superior, e isto a partir do cálculo diferencial e das suas primeiras provas, considerando-as rigorosamente, são falsas do ponto de vista da matemática elementar. E não pode ser de outro modo se, como acontece aqui, se quer provar, por meio da lógica formal, os resultados obtidos no campo da dialéctica. Pretender provar algo a um metafísico tão declarado como é o senhor Dühring, mediante a pura dialéctica, seria tão vão como quando Leibniz e os seus discípulos quiseram provar aos matemáticos do seu tempo os princípios do cálculo infinitesimal. O diferencial produzia nesses matemáticos as mesmas convulsões que ao senhor Dühring a negação da negação na qual, por outro lado, como veremos, o diferencial desempenha o seu papel. Aqueles senhores cederam, por fim (aqueles que não morreram entretanto), não porque estivessem convencidos, mas porque os resultados eram sempre exactos. O senhor Dühring, segundo diz, tem quarenta anos, se chegar a uma idade avançada - o que lhe desejamos - poderá ver, também, algo semelhante.
Mas o que é, então, essa horrível negação da negação que tanto amargura a vida do senhor Dühring, e que representa, para ele, a falta imperdoável, como o pecado contra o Espírito Santo no Cristianismo? Um processo muito simples que se realiza por toda a parte, e todos os dias, que uma criança pode compreender logo que se lhe tirem os véus do mistério com que o cobriu a antiga filosofia idealista e com que ainda o encobrem os incuráveis metafísicos' do calibre do senhor Dühring. Tomemos um grão de cevada. Milhares de grãos semelhantes são triturados, fervidos, postos em fermentação e, finalmente, consumidos em forma de cerveja. Mas se um grão de cevada encontra as condições que lhe são normais, se cai em terreno favorável, sofre uma transformação específica sob a acção do calor e da humidade, quer dizer, germina, e o grão desaparece como tal, é negado; é substituído pela planta nascida dele, que é a negação do grão. Mas qual é o curso da vida normal nessa planta? Cresce, floresce, é fecundada e, por fim, produz novos grãos de cevada; e quando estes chegam a amadurecer, o caule morre, e também, por sua vez, é negado. E como resultado de semelhante negação da negação, temos, de novo, o grão de cevada inicial, mas multiplicado dez, vinte, trinta vezes. Sem dúvida, os cereais variam muito lentamente e, por isso, a cevada de hoje é muito semelhante à de há cem anos. Mas colhamos uma planta de adorno, fácil de modificar- por exemplo, uma dália ou uma orquídea -, tratemos o gérmen e a planta que dele nasce segundo os princípios da arte da jardinagem e obteremos, como resultado da negação da negação, não só gérmens em maior quantidade, mas também gérmens melhorados qualitativamente, que produzirão flores mais belas e, em cada renovação do processo, cada nova negação da negação acentuará o dito aperfeiçoamento. Esse processo cumpre-se na maior parte dos insectos - nas borboletas, por exemplo -, de maneira igual à do grão de cevada. Tais insectos nascem do ovo pela negação do próprio ovo, sofrem as suas metamorfoses até à maturidade sexual, copulam-se e são negados, de novo; morrem quando o processo gerador se efectua e a fêmea pôs numerosos ovos. Que para outras plantas e outros animais o processo não se efectue de forma tão evidente, que estes produzam, antes de morrer, não uma mas, até, várias vezes grãos, ovos ou crias, isso não importa, para já. Uma só coisa temos que provar: que em ambos os reinos do mundo orgânico existe realmente a negação da negação. De igual modo, toda a geologia é uma série de negações negadas, uma série sucessiva de antigas formações minerais destruídas e de formações novas que se depositam.
Assim, a crosta terrestre primitiva, nascida do arrefecimento da massa fluida, abre-se sob a acção das águas, sob a acção meteorológica e, em virtude da composição química da atmosfera, os materiais, reduzidos de tal modo a fragmentos, estratificam no fundo dos mares. As elevações locais que, em certos lugares, sobem do fundo do mar acima da superfície das águas expõem, de novo, essas partes jazentes primitivas à acção da chuva, do calor variável das estações e do oxigénio e do carbono da atmosfera. As mesmas influências actuam nas massas rochosas que, provenientes do interior da terra, atravessaram camadas sucessivas, fundiram-se e, depois, esfriaram. Sem cessar, durante milhões de anos, formam-se novas camadas, destroem-se, na sua major parte, e servem, sempre de novo, de materiais para novos estratos. Resultado muito positivo de tudo isso é a constituição de um solo mesclado, composto dos mais diversos elementos químicos e num estado de pulverização mecânica que permite a vegetação mais variada e abundante.
O mesmo sucede, nas matemáticas. Seja uma grandeza qualquer cuja expressão algébrica é a. Negando-a, teremos –a (menos a). Neguemos esta negação multiplicando –a x –a e obteremos +a2, quer dizer, a grandeza positiva inicial, mas elevada a um grau superior, elevada à segunda potência. Também neste caso importa pouco que possamos obter o mesmo valor a2 multiplicando a grandeza positiva a por si mesma, o que dá por resultado, igualmente, a2, porque a negação negada é de tal modo inerente à grandeza a2 que esta tem, de qualquer maneira, duas raízes quadradas, a saber a e –a. A impossibilidade em que nos achamos de eliminar do quadrado a raiz negativa implícita adquire uma significação sumamente notável nas equações do segundo grau. A negação da negação manifesta-se, todavia, mais precisa na análise superior, nessas «adições de grandezas infinitamente mais pequenas» que, para Dühring, constituem as mais altas operações matemáticas e que, na linguagem comum, se chama cálculo diferencial e integral. Como se efectua esse género de cálculo? Num problema dado tenho, por exemplo, as grandezas variáveis x e y, das quais uma não pode variar sem que a outra varie ao mesmo tempo numa proporção determinada em cada caso particular. Diferencio x e y, quer dizer, suponho que x e y são tão infinitamente pequenas que desaparecem em relação a toda a grandeza real, por pequena que seja, de tal modo que x e y não subsistem senão na sua relação recíproca, sem nenhum fundamento material, por assim dizer, como uma relação quantitativa sem quantidade. A expressão dy/dx, quer dizer, a razão dos dois diferenciais de x e y é, pois, igual a 0/0, mas este 0/0 põe-se como a expressão y/x. Diga-se de passagem que a dita relação entre duas grandezas desaparecidas e a fixação do momento do seu desaparecimento implicam uma contradição; mas semelhante contradição não pode embaraçar-nos mais do que tem perturbado os matemáticos há duzentos anos. Mas o que se fez senão negar x e y, negar, como a metafísica que omite e prescinde do que nega, senão negar de modo conforme com o caso presente? Em vez de y em substituição de x e y tenho agora a sua negação, quer dizer, dx e dy, nas suas fórmulas, ou melhor, nas suas equações. Continuo, pois, o meu cálculo com estas fórmulas; considero dx e dy como grandezas reais submetidas apenas a certas regras excepcionais e, chegado a certo ponto, nego a negação, quer dizer, integro a fórmula diferencial e, em vez de dx e dy, obtenho, de novo, as grandezas reais x e y; mas não estou no mesmo ponto de que parti, pois resolvi, através desse procedimento, um problema em que a geometria e a álgebra vulgares se teriam debatido em vão.
Com a história não acontece outra coisa. Todos os povos civilizados começaram com a propriedade comum do solo. Mas para todos os povos que, em certa medida, superam essa frase primitiva, a chamada propriedade comum torna-se, com o decorrer da evolução da agricultura, um obstáculo para a produção; assim, é abolida, negada, transformada, depois de fases de transição mais ou menos largas, em propriedade privada. Agora, numa fase posterior de desenvolvimento da agricultura, fase que resulta, justamente, da propriedade privada do solo, a propriedade privada é, pelo contrário, um obstáculo à produção: é o que actualmente sucede tanto com a grande como com a pequena propriedade. Então impõe-se, como uma fatalidade, a necessidade de negá-la também, de convertê-la de novo em bem comum. Mas esta necessidade não implica o restabelecimento da propriedade comum original e primitiva; o que implica é o estabelecimento de uma forma muito superior, mais desenvolvida, de posse comum, que, muito longe de converter-se em obstáculo para a produção, pelo contrário, lhe dará pleno desenvolvimento e lhe permitirá utilizar por completo as descobertas da química e os inventos da mecânica moderna.
Eis outro exemplo. A filosofia antiga foi um materialismo imediato e espontâneo e, como tal, era incapaz de pôr a claro as relações do pensamento e da matéria; mas a necessidade de dar-se conta das relações deu origem à doutrina da alma separável do corpo, depois à afirmação da imortalidade dessa alma, e, por último, ao monoteísmo. O antigo materialismo foi negado, pois, pelo idealismo. Mas no decurso do posterior desenvolvimento da filosofia, o idealismo também se tornou insustentável e foi negado pelo materialismo moderno. Este último, que é a negação da negação, não é a simples restauração do antigo materialismo, mas sim os fundamentos duráveis daquele, que juntam todo o pensamento da filosofia e das ciências da natureza ao longo de uma evolução de dois mil anos, bem como o produto dessa mesma história. De resto, já não é, tão-pouco, uma filosofia como tal, mas uma simples intuição do mundo que deve provar-se e realizar-se, não numa ciência das ciências que tem uma existência isolada, mas nas diversas ciências positivas, Portanto, aqui a filosofia é aufgehoben, quer dizer, «ao mesmo tempo conservada e superada», superada quanto à forma, conservada quanto ao conteúdo. Aí, onde o senhor Dühring não viu mais do que «um jogo de palavras», e se olharmos mais atentamente, há um conteúdo positivo.
Por último, a mesma teoria igualitária de Rousseau, da qual a teoria do senhor Dühring não é mais do que uma pálida adulteração, não teria podido resultar se a negação da negação, no sentido hegeliano - em verdade, isto passava-se vinte anos antes do nascimento de Hegel - não o tivesse ajudado, tal como a parteira faz, para que saísse à luz. E muito longe de envergonhar-se da sua primeira exposição, tal doutrina usa, com ostentação, o selo da sua origem dialéctica. No estado natural, quer dizer, no estado selvagem, os homens eram iguais, e como Rousseau considera já a linguagem como uma exaltação do estado natural, tem inteira razão ao estender a igualdade perfeita dos animais de uma espécie determinada a esta espécie hipotética de animais-homem, que Haechel coloca na classificação com o nome de alalos (privados de linguagem). Mas os ditos animais-homem iguais entre si tinham sobre os restantes animais uma superioridade: a possibilidade de aperfeiçoamento, quer dizer, a faculdade de desenvolver-se posteriormente, e essa foi a causa da desigualdade. Rousseau vê, pois, na origem da desigualdade um progresso, mas tal progresso era antagónico em si, pois constituía, ao mesmo tempo, uma regressão. «Todos os progressos posteriores (fala dos que superaram o estado primitivo), em aparência, foram outros tantos passos para o aperfeiçoamento do indivíduo e para a decrepitude da espécie. A agricultura e a metalurgia foram as duas artes cuja invenção produzia esta grande revolução» (a transformação da floresta virgem em solo cultivado e, ao mesmo tempo, a introdução da miséria e da escravidão por causa da propriedade). «Para os poetas são o ouro e a prata que civilizaram os homens e perderam o género humano; mas para o filósofo foram o ferro e o trigo.» Cada novo progresso da civilização é, ao mesmo tempo, um novo progresso da desigualdade. Todas as instituições que a sociedade se dá, nascidas da civilização, frustram o seu fim primitivo. «É, pois, incontestável - e é a máxima fundamental de todo o direito político - que os povos se deram chefes para defender a sua liberdade e não para submeter-se à escravidão, e, apesar disso, esses chefes convertem-se, necessariamente, nos opressores dos seus povos e levam essa opressão até ao ponto em que a desigualdade, levada ao extremo, se torna de novo na sua contrária e chega a ser causa de igualdade; ante o déspota todos são iguais: iguais a nada. Tal é o último término da desigualdade e o ponto extremo que fecha o círculo e toca o ponto de partida, assim é quando todos os homens voltam a ser iguais, porque não são nada, e os súbditos não têm outra lei do que a vontade do amo. Mas o déspota não é amo senão enquanto tem a força e, por conseguinte, «no ponto em que pode ser expulso, não tem por que reclamar contra a violência... Só a força o mantinha; só a força o derruba, tudo se produz como na ordem natural».
Deste modo, a desigualdade muda-se, de novo, em igualdade, não na antiga igualdade espontânea dos primeiros homens sem linguagem, mas na igualdade superior do contrato social. Os opressores convertem-se em oprimidos, é a negação da negação.
Portanto, já em Rousseau encontramos uma ordem de pensamentos que se assemelha exactamente à que Marx seguiu em O Capital, e grande número de raciocínios dialécticos de que Marx se serve; estão aí processos que, antagónicos pela sua natureza, encerram em si mesmos contradição; ai está a conversão de um extremo no seu contrário; aí está, por último, como centro de tudo, a negação da negação. E se Rousseau não podia, em 1754, falar a gíria de Hegel, nem por isso deixava de estar grandemente infectado, vinte e três anos antes de nascer Hegel, pelo contágio hegeliano, pela dialéctica dos contrários, pela teoria do logos, pelo teologismo, etc. E o próprio senhor Dühring quando, empobrecendo a teoria igualitária de Rousseau, actua com os seus dois vitoriosos homenzinhos, já resvala pelo plano inclinado, por onde irremediavelmente cai nos braços da negação da negação. O estado, em cujo seio floresce a igualdade de ambos os homens, descreve-se como um estado ideal e qualifica-se, na página 271 da Filosofia como «estado primitivo» (Urzustand). E esse estado primitivo (refiro-me a essa página 271) é necessariamente abolido pelo «sistema de depredação» (Raubsystem), primeira negação. Mas eis-nos chegados, graças à «filosofia da realidade», ao ponto em que abolimos «o sistema da depredação» e instauramos, no seu lugar e em sua substituição, a «Comuna económica», descoberta pelo senhor Dühring e baseada na igualdade: negação da negação; igualdade superior. Oh espectáculo regozijante, espectáculo benfeitor que amplias o horizonte visível e deixas ver a pessoa augusta do senhor Dühring cometendo o pecado máximo da negação da negação!
E o que é, então, a negação da negação? Uma lei do desenvolvimento da natureza, da história e do pensamento, extremamente geral e importante, e, pela mesma razão, da maior extensão; uma lei que, como já vimos, tem aplicação em geologia, em matemática, em história, em filosofia; uma lei que o próprio senhor Dühring é obrigado a reconhecer à sua maneira, e sem se dar conta, ainda que levante obstáculos e se defenda contra ela. Disto resulta que nada acrescento a respeito do processo especial de evolução, a respeito do desenvolvimento que se opera num grão de cevada, desde a germinação à morte da planta que produz um novo fruto, e me limito a indicar que semelhante processo constitui uma negação da negação. Pois se afirmasse o contrário, e posto que o cálculo integral é também negação da negação, cairia no absurdo de sustentar que o processo biológico de um grão de cevada é um cálculo integral, ou também (porque não?) o próprio socialismo. No fundo, isto é o que os metafísicos constantemente criticam na dialéctica. Quando digo de todos estes processos que são a negação da negação, pressuponho-os em conjunto, nessa única lei da evolução e, pela mesma razão, prescindo dos detalhes de cada processo em particular. A dialéctica não é mais do que a ciência das leis gerais do movimento e evolução da natureza, da sociedade humana e do pensamento.
Mas objectar-se-á que essa negação não é a negação verdadeira. Nego também um grão de cevada se o esmago, ou um insecto se o piso, ou uma grandeza positiva a se a anulo, etc. Ou então nego a proposição «a rosa é uma rosa», se digo «a rosa não é uma rosa»; que resultaria se, negada por sua vez esta negação, dissesse: e «por conseguinte, a rosa é uma rosa»? Tais objecções constituem, com efeito, os principais argumentos dos metafísicos contra a dialéctica, e são inteiramente dignos dessa limitada maneira de pensar. Negar, em dialéctica, não é dizer simplesmente que não, ou declarar que uma coisa não existe, ou destruí-la de um modo qualquer. Já Espinosa disse: Omnis detemitio est negatio; quer dizer, toda a limitação ou determinação é, ao mesmo tempo, uma negação. Além disso, o género particular de negação determina-se aqui, ao mesmo tempo, pelo carácter geral e pela natureza especial do processo. Eu devo não só negar mas também superar (aufheben), de novo, a negação. Devo constituir a primeira negação de tal maneira que a segunda seja ou chegue a ser possível. E como? Segundo a natureza específica de cada caso particular. Se esmago um grão de cevada, se piso um insecto, efectuo a primeira negação, mas torno impossível a segunda. Cada género de coisas implica, portanto, uma forma particular de negação, da qual resulte um desenvolvimento, e o mesmo em cada género de representações e de conceitos. No cálculo infinitesimal nega-se, de outro modo, para constituir potências positivas por meio de raízes negativas. É necessário saber isto como outra coisa qualquer. Se sei unicamente que a planta de cevada e o cálculo infinitesimal estão submetidos à negação da negação, isso não me permitirá cultivar a cevada com êxito, nem diferenciar, nem integrar; do mesmo modo que não sei tocar violino, quando o meu conhecimento se reduz às leis segundo as quais as dimensões das cordas determinam a natureza do som. E claro que o passatempo infantil em pôr e tirar alternadamente a, ou em afirmar sucessivamente que uma rosa é e não é uma rosa, não demonstra mais do que a estupidez de quem se entrega a esses fastidiosos exercícios. Não obstante, os metafísicos desejariam convencer-se do que não podemos fazer mais do que isso, quando queremos efectuar a negação da negação.
Logo, uma vez mais, o senhor Dühring é o único que mistifica quando afirma que a negação da negação é uma analogia tola inventada por Hegel, a imitação da religião; uma coisa tomada da história da queda original e da redenção. Os homens pensaram dialecticamente muito antes de saber o que era a dialéctica, da mesma maneira que falaram em prosa muito antes de conhecer esta palavra. A lei da negação que se desenvolve inconscientemente na natureza e na história e, ainda, nas nossas cabeças até que chegássemos a reconhecê-la, foi formulada, e unicamente formulada, por Hegel, com a maior clareza e pela primeira vez. E se o senhor Dühring deseja, em segredo, continuar a fazer uso da coisa, e só o nome lhe parece insuportável, procure outro melhor. Mas se o que pretende é tirar do pensamento a própria coisa, tire-a primeiro da natureza e da história e invente uma matemática em que –a x –a não dê +a2 e em que esteja proibido, sob penas severas, diferenciar e integrar.
Acabámos a parte de filosofia. O que resta ainda das fantasias proféticas do Curso ocupar-nos-á ao tratarmos da revolução feita pelo senhor Dühring no socialismo. Que tinha o senhor Dühring prometido? Tudo. E cumpriu alguma das promessas? Nenhuma. «Os elementos de uma filosofia real e, por consequência, orientada para a realidade na natureza e na vida», «a concepção rigorosamente científica do inundo», as «ideias sistemáticas» e todos os demais méritos do senhor Dühring, e que o senhor Dühring celebra de maneira ressonante, tudo isso parece, em todos os lados que temos explorado um pouco, pura loucura. Esse «esquematismo do universo» que sem nada perder da profundidade do pensamento tinha fixado, certamente, «os aspectos essenciais do ser», mostrou-se como um eco empobrecido da lógica de Hegel e partilha com ele o último preconceito, segundo o qual essas «formas essenciais», essas categorias lógicas, implicam, não se sabe onde, uma existência misteriosa, antes e fora do mundo a que era preciso «aplicá-las». A filosofia da natureza oferece-nos uma cosmogonia cujo ponto de partida é uma «matéria em estado indiferente, idêntico a si mesmo», estado que não pode representar-se senão confundindo desesperadamente a matéria, o movimento e a sua relação; estado que tão-pouco poderia representar-se a não ser admitindo a existência de um deus pessoal, transcendente, único capaz de produzir a passagem do dito estado para o movimento. No estudo do mundo orgânico, a filosofia da realidade, depois de condenar a luta pela existência e a selecção darwiniana como «brutalidade contrária à humanidade», teve que fazê-las entrar pela porta do cavalo e admitir que elas existiam na natureza como factores activos, ainda que de segunda ordem. Todavia, a filosofia da realidade encontrou meio de demonstrar, no domínio da biologia, uma tal ignorância que, depois das «Conferências científicas populares», nem se encontraria entre as meninas das classes «cultivadas». No que respeita à moral e ao direito, a pobre e triste cópia que faz de Rousseau é tão infeliz como a que anteriormente tinha feito de Hegel, e provou, apesar dos seus esforços em contrário, uma ignorância da ciência jurídica rara até nos mais vulgares juristas do antigo estilo puritano. Esta filosofia, «que não admite nenhum horizonte aparente», contenta-se, no que toca ao direito, com um horizonte muito real, que se confunde com o território em que se aplica a Landrecht prussiano. Esperamos, todavia, «as terras e os céus do mundo exterior ou interior que prometia desenvolver essa filosofia num potente movimento no decurso das suas revoluções; esperamos também «as verdades definitivas e de última instância», «os princípios absolutos e fundamentais». O filósofo, cujo método «exclui toda a concepção do mundo subjectivo e limitado», mostra-se-nos limitado, subjectivamente, não só pelos seus conhecimentos inteiramente insuficientes (já o temos mostrado), pelo seu método metafísico e pela grotesca vaidade, mas também pelos caprichos fúteis que o caracterizam. Assim, não consegue acabar a sua filosofia da realidade sem impor a sua antipatia contra o tabaco, os gatos e os judeus, como lei universal para toda a humanidade, inclusivamente dos judeus. O seu «ponto de vista verdadeiramente crítico» com respeito a outros consiste em atribuir constantemente às pessoas coisas que jamais foram ditas e que são produto do próprio senhor Dühring. As elucubrações sobre temas dignos de filisteus, como o valor da existência e os melhores meios de gozar a vida, são tão vulgares que se explica a sua cólera contra o Fausto de Goethe. Certamente que Goethe é imperdoável por ter escolhido como herói um ser imortal como Fausto e não o grave filósofo da realidade, Wagner. Numa palavra, a filosofia da realidade, tomada em conjunto, mostra-se, tal como disse Hegel, como «o mais pobre empobrecimento da pobre filosofia das luzes», ténue e transparente na sua vulgaridade no solo espesso e turvo de troços de estilo oraculares molhados nele próprio. Quando se termina o livro sabemos tanto como dantes e vemo-nos obrigados a confessar que o novo pensamento, «os resultados e ideias originais» e as ideias sistemáticas nos oferecem muitas loucuras novas, mas nem uma palavra de que se possa tirar alguma informação. E este homem que, como o mais vulgar aldrabão, faz propaganda dos seus talentos e produtos, ao som de trombetas e que, por detrás das grandes frases, oculta a sua nulidade, este homem permite-se chamar a homens como Fichte, Schelling e Hegel charlatães, quando mesmo o menos importante de entre eles parece, ao lado dele, um gigante. Charlatão, sem dúvida! Mas quem?