OS CHAVEZ DO GOVERNO PORTUGUÊS

Por Alexandre

Hugo Chavez correu o sério risco de ser derrubado por um golpe militar liderado pelo sector da burguesia intimamente ligada aos interesses económicos americanos e sob instigação e supervisão de Washington.

Várias foram as denúncias feitas por órgãos de informação internacional de figuras da burguesia venezuelana, incluindo o principal rosto civil do golpe - o Belmiro de Azevedo local - e das forças armadas que foram vistas com elementos importantes da administração Bush, momentos antes do golpe abortado. Indícios mais que evidentes do comprometimento dos EUA em mais uma pinochetada que poderia ter dado origem a um banho de sangue, caso não fosse o apoio enorme do povo e de sector importante dos oficiais a Chavez, perigo que ainda não está arredado.

Independentemente do que seja a política ou represente a figura do presidente venezuelano, o facto é que ele foi democraticamente eleito, as regras da democracia burguesa foram respeitadas, ninguém, na altura devida, contestou o resultado eleitoral que deu a vitória a Hugo Chavez. Mas como não é pessoa de confiança pelas suas ideias populistas de esquerda e ligações ao mau da fita, que é Fidel de Castro, e, para mais, teve a "triste" ideia de nacionalizar o sector fundamental da economia que é o do petróleo, há que o derrubar, os interesses americanos assim o exigem.

Até aqui nada que mereça menção especial se não fosse a posição de inteira rafeirice (o termo é feio mas é o mais adequado) manifestado pelo governo português e pela nossa ínclita e proba informação.

Logo que foi anunciado a vitória dos revoltosos e a "renúncia" presidencial, o governo português, indo atrás do espanhol, etiquetou a presidência derrubada de "boliviriana", termo nunca utilizado até aqui e com conotação negativa, ao contrário do que a história de libertação daquele país e de todo o subcontinenete americano nos diz, deixando vir ao de cimo os velhos recalcamentos de ex-potência colonizadora.

Os nossos ditos órgãos de informação democrática, com especial nota para os tais "de referência", não se ficaram atrás, então os televisivos de imediato, através de directos, não se cansaram de entrevistar emigrantes portugueses, claros apoiantes dos golpistas e que não hesitaram em atacar Chavez. Logo que foi restabelecido aquilo que os nossos indígenas democratas gostam de chamar a "ordem democrática", a nossa imprensa continuou nos ataques, agora mais disfarçados, aproveitando-se do rapto de duas jovens venezuelanas de ascendência portuguesa.

É aqui que queremos chegar. Os títulos de jornais como o "Público" são reveladores: "Governo português pressiona Venezuela no caso de rapto", como se estivessem em causa interesses do país e o governo venezuelano fosse um governo de trogloditas. Posição diametralmente oposta quando os raptados são cidadãos portugueses de corpo inteiro - caso dos jovens desaparecidos em Angola e que ninguém sabe o que é feito deles ou de algum nacional raptado no Brasil - em países em que o rapto é acontecimento quase corriqueiro ou em países governados por bandos de facínoras, casos do Brasil e de Angola, é que nestes casos nem o governo pia e nem a imprensa democrática se esforça nos adjectivos.

Engraçado foi ver as jovens vítimas do rapto (terão sido mesmo?) a ser entrevistadas para um dos canais de televisão portugueses a falar em castelhano - porque até vinham a Fátima em agradecimento da sua libertação! - e a mãe, emigrante de segunda geração, a falar numa mistura de castelhano e de italiano; afinal, pobre agradecimento ao tremendo esforço de um governo e de uma imprensa tão preocupadas com a sorte dos "seus" cidadãos. Como castigo, deveriam, mãe e filhas, acompanhadas pelos amigos, como não poderia deixar de ser, a ir a Fátima... mas a pé!