RTP - BERLUSCONI À PORTUGUESA

Por Alexandre

Já deita fumo a polémica quanto à existência ou não do serviço público de televisão devido à intensidade e confusão suscitadas. Deverá haver um só canal, ou dois canais? Com ou sem publicidade? O que é que se entende por serviço público de televisão? E outras questões do género se tem levantado, sem que ninguém tenha dado, ou nisso esteja interessado, em dar uma resposta clara e cabal.

Ninguém pergunta o porquê da pressa deste governo em pôr ordem numa casa que há muitos anos, e há muitos governos, tem andado aparentemente sem rei nem roque. E a quem é que interessa esta remodelação televisiva, ao povo português, que passará a pagar menos impostos ou a ver melhor geridos os dinheiros públicos? Ou haverá alguém, por detrás disto tudo, que irá lucrar com o negócio, porque é de um negócio que também se trata?

É de domínio público as dificuldades financeiras e de audiência que os canais privados de televisão sentiram nos primeiros tempos, o que fez com que a Igreja se tivesse livrado de um mau negócio financeiro e reconhecesse que para dominar consciências há outras formas mais baratas, e se a SIC conseguiu ultrapassar as dificuldades iniciais com o recurso aos programas pimba e das telenovelas, vê-se agora seriamente ameaçada com a concorrência frenética da TVI e com as despesas acrescidas dos investimentos nos canais temáticos - o sr. Balsemão vê o seu grupo ameaçado e com os credores à perna.

Logo que o governo PSD/PP lançou o ataque à RTP, as acções da Impresa subiram em flecha, porque se o intento governativo for avante, isto é, fique a RTP só com um canal, pago duas vezes pelo contribuinte e sem publicidade, os proventos só do ramo da publicidade irão aumentar em mais de 50% para cada um dos canais privados, para além das audiências. O mercado televisivo é pequeno, duas televisões privadas são demais, o próprio concurso que atribuiu o alvará às privadas foi viciado.

Tudo se fez para descapitalizar a estação pública, vender ao desbarato a rede transmissora, atribuir mordomias e ordenados chorudos a administradores laranjas e rosas e respectivos amigalhaços, no intuito deliberado de lançar a ruína e o descrédito de molde a criar uma opinião pública favorável ao encerramento da empresa, caso necessário, com criação de uma nova, com pessoal contratado e com um outro estatuto, uma mini-estação televisiva, redutora e que não faça concorrência - uma táctica já conhecida e usual nas empresas públicas lucrativas antes da privatização.

Todos os grupos económicos ditos nacionais têm-se constituído e reforçado à custa do estado, das empresas públicas vendidas ao desbarato, dos financiamentos a fundo perdido, dos perdões fiscais, das OPV´s e por aí fora, da mesma maneira o Berlusconi português irá ter o seu império e a ida para o conselho de administração da RTP de homens de mão da sua confiança não acontece por acaso.

Mas não é só uma questão de cifrões e de negócios televisivos que se trata, mais importante do que isso, é saber quem é que vai controlar o sistema dos media portugueses, principalmente aqueles que têm um maior impacto quanto a formação de opinião pública - se poucos portugueses lêem jornais, quase todos vêem televisão. O controlo do chamado "quinto poder" garante o acesso à cadeira governativa e constitui seguro para a sua manutenção pelo tempo que aprouver.

A destruição da televisão estatal com o engrandecimento do império Balsemão irá também fazer com que o PSD dificilmente venha a perder as eleições no futuro, como será quase certo que o próximo presidente da República seja um Cavaco Silva ou um Freitas do Amaral - com os votos do Bloco de Esquerda ou de um Garcia Pereira - porque a televisão, segundo opinião de perito encartado, até "vende presidentes como sabonetes".

Serge Halami dizia que "reverência ao poder e a prudência perante o dinheiro" - referindo-se à imprensa francesa na sua obra, Os novos cães de guarda, 1998 - "cria já... as condições de um pluralismo anémico"; ora, em Portugal, nem pluralismo anémico existe, tal é a reverência e o seguidismo aos interesses do capital; há, sim, o pensamento único, basta ler os editoriais dos dois principais jornais burgueses não ligados ao grupo Balsemão (DN e Público). Pensamento único que traduz, como muito bem diz o mesmo Halami, os "interesses do capital internacional".

Terá de ser contra estes interesses que os trabalhadores da RTP deverão travar a sua luta, não só pela manutenção do seu ganha-pão, mas pela criação do tão estafado serviço público de televisão.

Este serviço terá que passar pela liberdade de qualquer trabalhador, ou cidadão do Portugal profundo, de ali poder expressar as suas preocupações e ideias; serviço público que terá de dar voz a todas as correntes de opinião existentes, por muito minoritárias que sejam e em inteiro plano de igualdade; um serviço público que dê a conhecer as realidades sociais, económicas e culturais que somos.

Caso contrário, os trabalhadores da RTP arriscam-se a ficar completamente isolados, que é o que parece que está acontecer.