UMA RECESSÃO ANUNCIADA

Por César II

Ainda se ouvia o estrondo dos aviões a esmagar-se contra as torres gémeas de Manhattan e já o papa da especulação financeira, o sr. Georges Soros, sentenciava que "... isto é um choque enorme para todo o mundo, pelo que penso que irá afectar o consumo, com risco de empurrar a economia para uma recessão". Logo outros entendidos na matéria, nomeadamente economistas da nossa praça corroboravam esta tese, só César das Neves, o ex-conselheiro de Cavaco para economia colocava algumas reticências a que o atentado de 11 de Setembro fosse causa de uma recessão económica.

Ao mesmo tempo, as seguradoras americanas anunciavam que teriam de pagar entre 2,2 a 3,4 mil milhões de contos de indemnização às famílias das vítimas, logo secundadas pelas principais empresas de aviação que se lamentaram de prejuízos de muitos milhões de dólares e que seriam obrigadas a despedir: a American Airlines anunciou o despedimento de 20 mil trabalhadores, a Delta 13 mil e a Continental 12 mil - com o anúncio da Boeing em despedir cerca de 25 mil trabalhadores, 180 mil trabalhadores são lançados na rua em todo o mundo pelas principais empresas de transporte e de construção de aviões.

Na sua maioria americanas e europeias, outras empresas, como a Bayer que anuncia o despedimento de mais de 5 mil trabalhadores, após uma série de escândalos com a prescrição e lançamento de medicamentos indevidos e de ver afundar a cotação da suas acções na bolsa, reconhecem a crise em que se encontram. A finlandesa Nokia vê os seus lucros diminuir em 22%; a SAP, a maior empresa alemã dos sector das TMT (tecnologias, media e telecomunicações) vê baixar a cotação das suas acções em bolsa em 17%, quando se conhece que os lucros também baixaram em 55 por cento; o maior fabricante do mundo em equipamento telefónico, a canadiana Nortel, reconhece que os seus prejuízos subiram em 492%; o maior construtor mundial de automóveis, a americana GM, vê os ganhos na bolsa a descer 54%; a inglesa Rolls Royce vai despedir 5 mil funcionários devido à quebra de 30% nas vendas previstas para 2002; a brasileira Telefónica vai despedir 1400 trabalhadores, embora os sindicatos apontem para os 4 mil.... e por aí fora!

A recessão económica está aí, é um facto iniludível e o acontecimento de 11 de Setembro foi uma benção para o capitalismo, porque irá servir de justificação a medidas gravosas, anunciadas e aplicadas de imediato, e constituirá a explicação e o álibi da crise cíclica e fatalista de que o capitalismo não consegue fugir. Álibi piedoso que alguma classe média irá aceitar, especialmente dentro dos Estados Unidos, mas que os operários dos países capitalistas mais desenvolvidos não irão engolir. A classe operária não irá ajoelhar como não irão ajoelhar, excepto para cumprir as suas obrigações religiosas, os povos muçulmanos atacados pela aviação e pela soldadesca do Ocidente dito civilizado.

O capitalismo precisa da guerra porque, ao destruir uma grande quantidade de forças produtivas, cria as condições necessárias para o início de um novo ciclo de acumulação de mais-valias. A guerra de pilhagem gera lucros fabulosos às principais potências capitalistas do globo e, simultaneamente, lança a intimidação sobre os povos e os operários. E esta guerra não acontece por acaso, ela surge na altura própria, quando a economia americana se encontra em início de recessão, com a produção industrial a diminuir, o dólar a perder sucessivamente em relação às principais moedas.

A Casa Branca reconheceu esta semana, pela pessoa do chefe dos seus conselheiros económicos, Lawrence Lindsey, que o país "caminha para a recessão", forma eufemística de dizer que já se encontra em recessão, porque em dois trimestres consecutivos que o crescimento económico é negativo e o número de desempregados este ano aumentou em mais de um milhão. Mas os EUA não estão sós, a Alemanha está claramente "em território de recessão", havendo muito poucas hipóteses de se vir a confirmar a previsão do crescimento do PIB para este ano em 0,75%.

As principais empresas alemãs estão em sérias dificuldades, não só as duas já referidas, a Bayer e a SAP, mas uma Siemens, uma Opel e, no sector financeiro, um Comerzbank, ou uma Lufthansa prevêem o despedimento de mais de 20 mil trabalhadores; o euro baixou logo a seguir ao índice Ifo que se ficou pelos 85 pontos, o seu mais baixo nível desde 1993 e bem abaixo da dos 88,1 pontos previstos pelos analistas de serviço. Situação de recessão para a qual o comissário dos Assuntos Económicos e Financeiros, o espanhol Pedro Solbes, já chamara a atenção.

A crise asiática de 1997-98 enfiou nos bolsos dos especuladores e empresas americanas os milhões de contos, agora transformados em muitos biliões, que criaram nos anos oitenta a bolha especulativa no Japão e nos países do Sudoeste Asiático, os ditos "tigres asiáticos", tendo transformado os EUA no tempo de Ronald Reagan no maior devedor do mundo. Com o Wall Street a subir, os EUA viram a sua economia a expandir-se numa forma de bolha muito semelhante àquela que atingiu os países asiáticos e que se encontra prestes a rebentar. O equilíbrio instável das economias americana e europeia chega agora ao fim. Os sintomas da "gripe" estão aí, há que fazer o tratamento de choque: eis então a guerra.

O imperialismo é a guerra

A guerra das bombas e dos mísseis, mas também e principalmente a guerra da desinformação e da intimidação, o denominado bioterrorismo, mais enformado na ameaça do que na sua concretização, lançado pelos serviços secretos americanos e pelos orgãos de comunicação ao serviço do imperialismo, tem-se mostrado tão útil como o atentado de 11 de Setembro. A simples perspectiva de um eventual atentado com o bacilo da doença do carbúnculo, que ainda só aconteceu no imaginário da propaganda de guerra americana, é justificação suficiente para a descida dos índices bolsistas americanos e para o encerramento das principais praças financeiras da Europa comunitária, com excepção de Frankfurt que acabou por fechar com uma perda superior de dois por cento.

Com os bombardeamentos do povo e do território do Afeganistão a culminar já duas semanas de avançada e imparável destruição, analistas e economistas ao serviço do Capital referem que, para além das "ameaças do bioterrorismo" nos Estados Unidos e na Europa "condicionaram a evolução positiva das bolsas, o início da ofensiva terrestre, prevista para os próximos dias, talvez não consiga "resolver o clima de desconfiança" que invadiu as bolsas. A burguesia americana e europeia devem estar à espera que os cadáveres se empilhem para que as cotações na bolsa subam.

Assim, por esta teoria linear, é a "insegurança", provocada pelo "terrorismo internacional e fundamentalista", que leva à crise económica e financeira, e como remédio faz-se a guerra. E como, após quinze dias de tratamento, não se vislumbra melhoras no doente, continua-se o tratamento até o doente melhorar. Bush já proclamou, por mais do que uma vez, que esta guerra não terá duração certa, poderá, inclusivamente, demorar uns dois anos. Cremos que, pela duração do tratamento agora em curso, este ainda levará à morte do paciente!

19 Outubro 01