Da edição n.º 475, de 23 de janeiro de 2017, do jornal Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (revcom.us)

 

Há vidas em perigo... Qual dos lados vencerá?

Os primeiros dias de Trump:
A mão pesada do fascismo e a centelha de resistência

Atualizado online com uma nova introdução a 25 de janeiro de 2017

25 de janeiro: Este artigo foi escrito pouco depois da Marcha das Mulheres no sábado, 21 de janeiro. Milhões de pessoas saíram às ruas em todo o país e em todo o mundo. Aquilo a que o artigo apelava e que era necessário acontecer nos dias a seguir à Marcha não foi conseguido. Continuamos a chamar a atenção dos nossos leitores para a análise feita no artigo. Continua oportuna e relevante.

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No seu primeiro fim de semana no poder, o regime de Trump e Pence agiu rapidamente para estabelecer um estado inteiramente fascista. Ao mesmo tempo, milhões de pessoas em todo o mundo manifestaram-se contra Trump e Pence na Marcha das Mulheres, demonstrando o imenso potencial de resistência.

O destino de milhares de milhões de pessoas está agora diretamente dependente de se Trump e Pence irão conseguir consolidar plenamente este estado fascista... ou se esta gigantesca oposição poderá ser organizada numa força para impedir essa consolidação e poder agir para desalojá-los completamente do poder.

Dois futuros estão em contenda. Ainda há tempo para parar esta situação, mas temos de agir rapidamente.

Os termos do regime fascista estão estabelecidos

Através do discurso de tomada de posse de Trump e depois através do discurso dele perante a CIA, bem como através da utilização do sítio internet da Casa Branca e da maneira como lidou com a imprensa, o regime de Trump e Pence deixou aterradoramente claro a sua determinação de reordenar radical e rapidamente a atual forma de domínio político nos EUA em direção ao fascismo. Vamos rever aqui os pontos chaves do que isto representa e, num anexo a este artigo iremos comentar cada ponto com exemplos dos dois discursos de Trump.

O discurso de tomada de posse de Trump privilegiou como cidadãos legítimos aqueles que votaram nele, dirigindo-se diretamente a eles acima de todos os outros. Ele alegou que os apoiantes dele eram um “movimento” de “americanos esquecidos”, que agora iam ter quem cuidasse deles... ele próprio. Recitou uma lista das queixas deles – algumas reais, algumas imaginadas, e todas elas distorcidas pelos espelhos de feira fascistas e racistas da Trumplândia. Avivou o ressentimento deles contra “as elites” – com o Trump está a aludir claramente aos intelectuais, aos artistas, aos cientistas, aos políticos que por qualquer razão se tenham oposto à eleição dele, bem como aos que tentam conseguir fazer algumas reformas em relação aos abusos mais atrozes do atual sistema, e não aos multimilionários capitalistas financeiros, aos generais “cães raivosos”, aos racistas de coração frio e aos fanáticos religiosos lunáticos com que ele encheu o governo dele – e retratou-se a si mesmo como o paladino que agora irá derrotar esses inimigos.

O racismo, o sexismo e a discriminação sistémica embutidos na sociedade norte-americana são totalmente negados na Trumplândia – embora possa haver aí um certo “preconceito” impreciso, o qual pode ser lavado no sangue derramado por patriotas. Trump chegou ao ponto de dizer que “nos alicerces da nossa política estará uma fidelidade total aos Estados Unidos da América e, através da nossa lealdade ao nosso país, descobriremos a lealdade de uns para com os outros.” Notem bem: “alicerces” e “fidelidade total” (ênfase nossa). Se o leitor não consegue ver o quão chocante é esta declaração, então substitua pelas palavras Alemanha ou “volk” a expressão “Estados Unidos da América” e explique-nos se a declaração daí resultante não funcionaria com Adolf Hitler. Quem não for branco, quem alguma vez possa ter dissentido, talvez possa ser admitido neste novo mundo fantástico, mas apenas na condição da sua submissão e “fidelidade total”. É um mundo em que os fascistas, e os brancos em geral, terão direitos, privilégios e personalidade legal, e em que aqueles que não são fascistas – ou que não são brancos do sexo masculino – irão viver como cidadãos de segunda classe, no melhor dos casos.

Em linha com isto, numa ação tão incomum quanto sinistra, no seu discurso Trump não disse nada sobre a Constituição e a primazia do estado de direito sobre os caprichos dos governantes individuais, mas disse que devia a fidelidade dele – e presumivelmente deriva a autoridade dele – de “vocês, o povo”.

Trump ameaçou agressivamente todo o resto do mundo com o poderio norte-americano, ressuscitando e popularizando o slogan fascista dos anos 1940 de “A América Primeiro”, chamando a isto uma “nova ordem” e “uma nova visão que governará a nossa terra”. Em todos os encontros internacionais, segundo Trump, os EUA reafirmarão os seus interesses e tramarão quem deve ser tramado para os obter. Trump prometeu “erradicar” aqueles que ele qualifica de inimigos, “por completo da face da Terra”.

Na CIA, Trump – que tem alegado falsamente ter-se oposto à guerra do Iraque desde o início – disse contudo que uma vez aí, os EUA deveriam ter ficado com o petróleo, e chegou ao ponto de enunciar o princípio de que “ao vencedor pertencem os despojos”. As forças armadas norte-americanas – que já são maiores e mais poderosamente armadas que o conjunto das seis forças armadas seguintes – serão agora ainda mais injetadas com esteroides. Trump disse que apoiaria a CIA a mil por cento – querendo dizer, dadas as suas promessas de campanha, que os sequestros, a tortura, os assassinatos, os ataques sem restrições com drones e a brutalidade em geral já não terão sequer um fingimento de controlo. O leitor deve ler a série sobre os Crimes Norte-Americanos (em inglês ou em castelhano) para saber, ainda que apenas uma amostra, dos literalmente milhões de pessoas que a CIA matou e torturou durante os últimos 70 anos, em todo o planeta, ao serviço do imperialismo norte-americano. Trump promete, num mundo em que o poderio norte-americano enfrenta novos desafios, levar esta exploração e dominação a todo um novo nível, impondo-as, se necessário, com armas nucleares, e deixar a CIA, as forças armadas e a polícia completamente sem trela, apoiando-os “como nunca antes”.

Trump iniciou uma guerra contra a imprensa. Trump, no discurso à agência, incitou a CIA contra a imprensa, uma ameaça descarada ao direito à liberdade de expressão. Além disso: violou o que tem sido uma norma aceite há séculos de que o exército e as outras forças do estado devem permanecer “neutras” ou “apolíticas”, no sentido de não alinharem com uma ou outra fação da classe dominante; em vez disso, Trump vangloriou-se do grande apoio que tem nas forças armadas, nas agências de informações e na polícia. Todo esse discurso – proferido num dia de descanso, para que a maioria das pessoas que a ele assistiram fossem aqueles que favorecem Trump e que lhe deram uma receção assustadoramente entusiástica – tinha um odor a formação de uma fação dentro da agência para servir diretamente os interesses dele contra outras forças. Isto está alinhado com o enxamear, por parte de Trump, do governo dele com generais “reformados”, de uma maneira sem precedentes. Voltando, porém, ao amordaçar da imprensa, é verdade que os grandes meios de comunicação na sociedade norte-americana geralmente treinam as pessoas do ponto de vista do capitalismo-imperialismo e da classe dominante, e geralmente agem como estenógrafos de “fontes governamentais”; mas Trump já começou a intimidar e a suprimir tudo o que na comunicação social ele considera estar no caminho dele e do reordenamento radical da sociedade que ele está a impor.

Trump deixou claro no seu discurso de tomada de posse um ímpeto genocida contra as comunidades de cor, pintando estereótipos de comunidades sub-humanas e dando a entender uma extrema repressão para “parar a carnificina”. Não é sem motivo que Trump tem exprimido uma certa afinidade com Rodrigo Duterte, o governante das Filipinas que desencadeou um reinado de terror nos guetos desse país, levando a cabo milhares de assassinatos extrajudiciais nas ruas em menos de um ano. Poder-se-ia dizer o mesmo em relação ao apelo de Trump às operações de parar-e-revistar a nível nacional (contra os negros e os latino-americanos, para “acabar com o crime”), ou à nomeação por ele do senador mais consistentemente racista em todo o Senado norte-americano para ser o procurador-geral dele. E é extremamente significativo – e extremamente sinistro – que uma das primeiras coisas a surgir no sítio internet da Casa Branca tenha sido um apelo para a remoção das supostas restrições à polícia e para a imposição da lei e da ordem.

Trump e Pence fizeram do movimento fascista cristão teocrático uma parte central da aliança governamental deles, com Trump agora a vestir a roupagem de uma pessoa “escolhida por deus”. De que outra maneira se pode explicar os aparentemente sérios comentários dele perante a CIA sobre como deus parou a chuva para que ele pudesse pronunciar o seu discurso de tomada de posse? Ou a assustadora passagem medieval no seu discurso de tomada de posse em que, depois de ter detalhado as mudanças que ia fazer, disse que deus e as forças armadas e a polícia norte-americanas nos iriam proteger? Na realidade, o governo Trump-Pence é um formigueiro de fanáticos fascistas cristãos, a começar pelo próprio Pence, mas também incluindo Ben Carson, Betsy DeVos e Steve Bannon.

Trump tentou impor ao discurso público uma realidade alternativa de “Trumplândia”, um mundo em que os factos são o que Donald Trump diz que são e em que quem discorda é ameaçado e silenciado. Nesse mundo bizarro, os ataques de Trump à CIA ao longo de dezembro e janeiro, por esta ter concluído que os russos tinham levado a cabo uma “ciberguerra” com o objetivo de apoiar a eleição dele, nunca aconteceram; foi tudo uma tentativa da imprensa para criar uma querela. Nesse mundo bizarro, o número de pessoas presentes na tomada de posse de Trump bateu todos os recordes (quando na realidade foi bastante pequeno em comparação com o de Obama ou os de outras tomadas de posse anteriores). Nesse mundo bizarro, o secretário de imprensa não aceita nenhuma pergunta mas diz à imprensa o que é a realidade e lança insultos e ameaças por ela noticiar o que de facto aconteceu – por noticiar os factos mais simples e mínimos que toda a gente pode ver. Sim, há uma psicopatologia egomaníaca em Trump, mas isso não é o que está no centro disto: O fascismo procura sempre impor à sociedade uma versão absolutista e fantasmática da realidade e impôr um colete de forças a qualquer tentativa de chegar à verdade objetiva de qualquer coisa.1

Trump denunciou e atacou outros setores da classe dominante – com o objetivo de os silenciar e de obter à força a aquiescência deles para o reordenamento fascista da sociedade. Trump culpou diretamente aqueles que governaram os EUA durante o último quarto de século pelos problemas das massas, alegando que eles tinham enriquecido enquanto saqueavam o povo. É certamente verdade que sentados nas bancadas da tomada de posse estavam grandes criminosos e cúmplices de criminosos que de facto ordenaram ou fizeram coisas terríveis. Mas Trump está essencialmente a atacá-los e a ameaçá-los implicitamente por não serem suficientemente criminosos, aos olhos dele, e está a fazer isto para obter a cooperação deles, ou pelo menos o silêncio, na movimentação dele para o fascismo. Esqueçam os relatos escabrosos sobre prostitutas russas – Trump urinou figurativamente em cima de todos os rivais dele na própria tomada de posse dele. E depois, no banquete posterior, como o proxeneta e vigarista que é, representou o papel de “tipo simpático”, “congratulando-se”.

A resistência à “nova ordem”

Ao longo da semana anterior à tomada de posse, a resistência começou a crescer. Na sexta-feira, a tomada de posse de Trump foi forçada a partilhar as manchetes com as manifestações nas ruas que se mantiveram durante todo o dia e pela noite dentro, repletas de ânimo e determinação.

Depois, no sábado, milhões de pessoas nos EUA e no resto do mundo participaram na “Marcha das Mulheres”, exprimindo uma séria mas exuberante oposição a Trump. Estas marchas atraíram muitas, muitas pessoas que normalmente não participam em manifestações e estão longe de ser politicamente radicais, mas que reservaram o dia e, nalguns casos, viajaram centenas e até milhares de quilómetros para se marcarem posição. Isto, por sua vez, representa uma camada mais alargada da humanidade e, potencialmente, milhares de milhões de pessoas. Em suma, isto foi algo que nos deve encher de ânimo e a que devemos dar as boas-vindas.

Ao mesmo tempo, é necessário encontrar – hoje mesmo – as formas para levar isto mais longe. Esta marcha evocava um precedente: o fim de semana antes de George W. Bush ter dado início à guerra contra o Iraque, um momento em que talvez oito milhões de pessoas em todo o mundo saíram às ruas para exprimirem a sua oposição. Também isto foi uma coisa importante; mas Bush manteve as mãos dele no poder de estado, ignorou os manifestantes e iniciou o que acabou por ser não só um desastre absoluto e verdadeiramente horrendo, não só para o povo do Iraque, como também para os povos de todo o Médio Oriente e, de facto, de todo o mundo. O saldo em mortes e os traumas dessa guerra são terríveis de contemplar, e continuam a sê-lo ainda hoje, e continuarão a sê-lo durante muito tempo.

As promessas de então de “os castigar nas urnas” foram pior que ocas; desviaram as pessoas da construção da oposição firme e inflexível que era necessária. As pessoas à volta de Bush alardeavam estar a “criar a realidade no terreno” com a qual os outros se teriam de relacionar – uma abordagem assumida por Trump, com gala – e estabeleceram de facto novas condições, silenciando efetivamente durante vários anos a maior parte da oposição, até a guerra que eles desencadearam ter terminado num tal desastre absoluto para os interesses imperialistas norte-americanos naquela região e em todo o mundo que eles perderam a iniciativa.

Uma tal abordagem no caso de Trump e Pence – a ideia de que o caminho a seguir é as pessoas se apoderarem e “revitalizarem” o Partido Democrata – é errada por muitas, muitas razões, mas em termos do atual momento é ainda mais errada porque desarma as pessoas perante uma ameaça extremamente grave. A “marca” de Trump e Pence, para usar a linguagem em voga, não é o conservadorismo, nem o populismo, nem sequer “apenas” o racismo, o sexismo e a xenofobia reacionários e repelentes (ainda que de facto seja tudo isso) – é o FASCISMO. O fascismo é maior que a soma das suas partes – é, para citarmos de novo a definição que temos usado nestas páginas durante os últimos meses:

...o exercício de uma ditadura aberta pela classe burguesa (capitalista-imperialista), que governa através do uso do terror aberto e da violência, esmagando o que é suposto serem direitos civis e legais e usando o poder do estado e mobilizando grupos organizados de capangas fanáticos, para cometer atrocidades contra as massas populares, em particular contra os grupos de pessoas que identifica como “inimigos”, “indesejáveis” ou “perigos para a sociedade”.

Ao mesmo tempo – e isto pode ser visto através do estudo dos exemplos da Alemanha nazi e da Itália de Mussolini –, embora provavelmente venha a agir rapidamente para impor certas medidas repressivas de consolidação do seu regime, também é provável que um regime fascista implemente o seu programa global ao longo de uma série de etapas e mesmo que tente, em diferentes momentos, sossegar as pessoas, ou certos grupos de pessoas, de que elas irão escapar aos horrores – se elas alinharem tranquilamente e não protestarem nem resistirem enquanto outras estão a ser aterrorizadas e são alvo de repressão, deportação, “conversão”, prisão ou execução.

O perigo é este: enquanto vocês se estão a preparar para fazerem “o trabalho árduo de desenvolver organizações de base para o longo termo”, Trump e Pence estão a engrenar a maquinaria de um estado plenamente fascista, ativando a sua base social e agindo para esmagar as massas populares e todos os esforços para desenvolver essas organizações de base que eles não consigam neutralizar, num período de tempo extremamente alongado.

Quanto aos Democratas, e a todas aquelas pessoas que eram contra a guerra e que então foram atraídas para trabalhar arduamente para “refazerem” o Partido Democrata, apenas para se descobrirem a apoiar o candidato essencialmente pró-guerra John Kerry, temos de citar a amarga verdade realçada por Bob Avakian:

Se tentamos fazer com que os Democratas sejam aquilo que eles não são nem nunca serão, acabamos a ser mais parecidos com o que os Democratas de facto são. (O BÁsico 3:12)

Agora, para que fique claro, de facto uma via de esperança, um caminho a seguir. Mas para encontrarmos esse caminho, devemos romper com os canais e, de facto, com os constrangimentos que estabelecem os termos da nossa forma de pensar.

Que fazer?

A lógica do fascismo é manter-se ao ataque, agir rapidamente e ameaçar e matraquear toda e qualquer coisa que se interponha no seu caminho. O método do fascismo é o choque e a intimidação, afronta atrás de afronta, até que reduza as pessoas a ficarem agachadas e encolhidas perante os golpes repetidos e imprevisíveis.

Enfrentamos agora uma situação em que Trump e Pence têm nas mãos deles o poder do estado e em que eles começaram a trabalhar segundo essa lógica. Mas, até agora, esse poder ainda não está consolidado.

Não temos muito tempo... mas ainda há uma janela de tempo.

Se na segunda e na terça-feira desta semana, as pessoas responderem ao apelo da refusefascism.org em número suficiente para começarem a parar a situação do costume, e se apelarem a outros para fazerem o mesmo...

Se, à medida que a semana avançar, outros responderem a esse apelo, num efeito de bola de neve, e – tal como aconteceu ainda no outono passado na Coreia do Sul quando milhões de pessoas saíram às ruas e em poucos meses fizeram cair a presidente – milhares e depois milhões de pessoas saírem às ruas, em muitas diferentes formas de protesto...

Se estes homens e mulheres e jovens se recusarem a se deixar dividir e dissuadir, e se antes aderirem à simples verdade do NÃO! ao fascismo de Trump e Pence...

Se isto chegar a todos os cantos da sociedade civil e da cultura em geral...

Se isto se combinar com excessos por parte de Trump e Pence, ou com mais uma afronta que “passe os limites”, e se tudo isto abrir ainda mais os olhos às pessoas sobre a verdadeira natureza deste regime e do que isto significaria para a humanidade, e se houver um cada vez mais crescente número de pessoas, que se estenda a toda a sociedade, incluindo ao próprio governo, que encontrem maneiras de resistir...

Se aqueles que conhecem e têm acesso aos factos se inspirarem para encontrar maneiras de divulgar qualquer das verdadeiras histórias por trás de Trump e Pence e dos meios, métodos, motivos e histórias deles, e se isto criar uma ainda maior inquietação, escândalo e crise...

Se um enorme número de pessoas começar a desmoralizar e mesmo a retirar ou a conquistar alguns dos apoiantes de Trump (ainda que inevitavelmente energizasse outros), e se o impulso começasse a mudar ainda mais de maneira a tornar clara não só a falta de apoio mas também a oposição férrea e crescente a este regime fascista, e se houver ruturas no campo da oposição...

Se as forças na própria estrutura do poder, algumas das quais, por várias razões, estão inquietas com a movimentação para o fascismo ou seriamente preocupadas e opostas a parte do que Trump planeia fazer (o que, afinal de contas, É uma reestruturação radical e extremamente arriscada da forma como a classe dominante “normalmente” governa), e algumas delas podem sentir-se diretamente ameaçadas por isto, mas não irão agir a menos que as ações de toda a sociedade comecem a fazê-las sentir que têm de agir... se essas forças começarem a aparecer em séria oposição, num esforço para pôr o regime na defensiva (tal como aconteceu, de facto, nos anos 1970, quando as forças da classe dominante se juntaram para forçar Nixon a abandonar o cargo)...

Se, em suma, surgir uma crise política séria... então este regime poderia ser parado.

Àqueles que dizem que isto não pode acontecer da noite para o dia, somos tentados a dizer que seria melhor que acontecesse da noite para o dia; que circunstâncias comparáveis como as da Coreia do Sul no outono passado ou as do Egito em 2011, quando o ditador há 30 anos no poder foi afastado do cargo em menos de um mês, mostram a possibilidade de o fazer; e que a terrível e dolorosa experiência da Alemanha – em que Hitler usou o tempo que teve depois da ascensão inicial dele ao poder para eliminar passo a passo a oposição e para alterar radicalmente (ainda que “legalmente”) as leis da Alemanha – mostra os perigos de não se agir com rapidez. Mas, em vez disso, só iremos dizer que isto É possível e que as tentativas para derrotar e extirpar este regime mais tarde seriam imensuravelmente mais difíceis do que seriam neste momento.

Isto não quer dizer que este caminho não será difícil, nem é minimizar os perigos. É dizer que o caminho de esperar para ver será pior.

O impulso deste fim de semana criou uma abertura rara; não durará para sempre. Não deixemos que a história conclua que nós a desperdiçámos.

 

 

Anotações

O discurso de tomada de posse de Trump privilegiou como cidadãos legítimos aqueles que votaram nele...

Trump começou o discurso de tomada de posse dirigindo-se à população em geral. Disse que agora “as pessoas irão voltar a ser os governantes desta nação”. Imediatamente a seguir a esse parágrafo, porém, Trump fez uma prestidigitação retórica e deixou claro que estava a dirigir-se apenas àqueles que votaram nele, dizendo que “vocês vieram às dezenas de milhões para se tornarem parte de um movimento histórico, como o mundo nunca antes viu.” Durante o juramento do cargo, em nenhum momento do discurso mencionou a Constituição ou a importância do estado de direito (não há nenhuma frase no sentido de que “isto é um governo de leis, não de homens e mulheres”). Toda a essência da primeira parte do discurso dele foi de facto estabelecer uma nova legitimidade de eleitores de Trump.

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Trump ameaçou agressivamente todo o resto do mundo com o poderio norte-americano...

No seu discurso de tomada de posse, Trump disse: “Nós aqui reunidos hoje estamos a emitir um novo decreto para ser ouvido em todas as cidades, em todas as capitais estrangeiras e em todos os corredores do poder. A partir deste dia, uma nova visão governará a nossa terra. A partir deste momento, vai ser só os Estados Unidos primeiro, os Estados Unidos primeiro.” E depois: “Os Estados Unidos irão começar a voltar a ganhar e irão ganhar como nunca antes.” Trump então deixou claro o que isto significa e que medidas militares extremas irá tomar, quando disse: “Iremos reforçar antigas alianças e formar novas – e unir o mundo civilizado contra o terrorismo islâmico radical que erradicaremos por completo da face da Terra.”

No discurso dele perante a CIA, Trump reiterou a sua ameaça: “Temos de eliminar o ISIS. Temos de eliminar o ISIS. Não temos outra opção. O terrorismo islâmico radical – e eu disse-o ontem – tem de ser erradicado por completo da face da Terra.” Logo no início, Trump enunciou um dos temas do seu discurso: “Vamos fazer grandes coisas. Vamos fazer grandes coisas. Temos feito estas guerras há mais tempo que qualquer outra guerra que alguma vez fizemos. Não temos usado as verdadeiras capacidades que temos. Temos sido contidos.” Então disse: “Pode haver guerras entre países. Pode haver guerras.” Trump falou sobre todos os militares que está a colocar no seu governo, dizendo: “Os generais são maravilhosos e combater é maravilhoso.” E depois falou sobre a guerra do Iraque para expor o programa dele sobre porque é que os EUA deveriam utilizar sempre o seu poderio militar de uma maneira cada vez mais agressiva e mais cruel no mundo. Disse: “A velha expressão: ‘ao vencedor pertencem os despojos’ – lembram-se? Vocês sempre disseram ‘fiquem com o petróleo’.” Trump depois mentiu: “Eu não quis que fossemos para o Iraque.” Mas então continuou com: “Talvez tenhamos outra oportunidade.” Desta maneira, Trump deixou claro que pretende usar toda a extensão do poderio militar norte-americano, incluindo as armas nucleares, para eliminar da face da Terra todos os que considere inimigos dos EUA. E ao dizer perante a CIA “Estou convosco a mil por cento”, Trump deixou claro que irá apoiar toda e qualquer medida, incluindo a tortura e outras práticas inconstitucionais, ao serviço dos interesses imperialistas norte-americanos.

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Trump iniciou uma guerra contra a imprensa...

Trump vangloriou-se do apoio dele entre as forças armadas, a polícia e a CIA. No discurso perante a CIA, disse: “Sabem, as forças armadas, e as forças da ordem em geral – mas todas elas –, mas as forças armadas deram-nos uma enorme percentagem dos votos. Fomos incrivelmente bem-sucedidos nas eleições ao obtermos os votos das forças armadas e provavelmente quase toda a gente nesta sala votou em mim, mas eu não vos vou pedir para levantarem a mão se o fizeram. Mas eu juraria que foi uma grande parte. Porque estamos todos no mesmo comprimento de onda, pessoal. Estamos todos no mesmo comprimento de onda.”

Uma parte importante do discurso dele perante a CIA foi a continuação do ataque dele à imprensa. Nos primeiros minutos, disse: “Chamo-os sempre ‘os média desonestos’.” Também disse: “Eles [os média] estão entre os seres humanos mais desonestos na Terra.” Trump encheu o discurso dele perante a CIA com mentiras sobre o público presente na tomada de posse dele. Estas alegações – ou aquilo a que pessoas do campo de Trump chamam “factos alternativos” – têm sido demonstradas pela imprensa, através de fotografias, factos históricos e outras evidências, ser mentiras. Trump chamou mentirosa à imprensa por esta dizer que as presenças foram 250 mil: “Tínhamos um campo massivo de pessoas. Vocês viram isso. Abarrotado... Parecia um milhão e meio de pessoas. Fosse lá o que fosse... e eu vejo uma cadeia televisiva a mostrar um campo vazio. E a dizer que atraímos 250 mil pessoas. Ora isso não é mau. Mas é uma mentira.” E depois Trump ameaçou: “Assim, apanhámo-los. E apanhámo-los em grande. E acho que eles vão pagar um preço enorme.” Assim, logo no primeiro dia da sua presidência, Trump deixo claro que vai intimidar e suprimir tudo o que na comunicação social se interpuser no caminho do programa fascista dele.

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Trump deixou claro no seu discurso de tomada de posse um ímpeto genocida contra as comunidades de cor, pintando estereótipos de comunidades sub-humanas e dando a entender uma extrema repressão para “parar a carnificina”...

No final da primeira parte do seu discurso de tomada de posse, Trump mencionou a situação das “mães e crianças apanhadas na pobreza nas comunidades marginalizadas das nossas cidades” e demoliu o sistema de ensino, terminando com: “E o crime e os gangues e as drogas que têm roubado demasiadas vidas e retirado ao nosso país tanto potencial não realizado.” É esta última frase que carrega o peso do parágrafo – visando claramente os jovens negros e latino-americanos presos na vida dos gangues como fonte do problema. E depois continuou com: “Esta carnificina americana acaba aqui mesmo e acaba agora mesmo.” Na única menção à situação dos negros e latino-americanos nas comunidades marginalizadas das cidades, Trump atirou claramente as culpas desta situação para uma secção das próprias vítimas, omitindo qualquer menção ao racismo institucional e sistémico, incluindo o encarceramento em massa e a brutalidade e os assassinatos policiais, e foi ao ponto de plagiar um importante slogan do movimento contra os assassinatos policiais (Nem Mais Uma Vida Roubada!) ao serviço dos seus próprios objetivos. Neste contexto – e com uma página colocada nesse mesmo dia no sítio internet da Casa Branca intitulada “Defendendo A Nossa Comunidade de Forças da Ordem” que dizia que “A Administração Trump será uma administração de lei e ordem” – e isto é uma ameaça, não uma promessa.

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Trump e Pence fizeram do movimento fascista cristão teocrático uma parte central da sua aliança governamental...

No discurso perante a CIA, como parte da diatribe dele contra a imprensa por ela noticiar o facto de que houve um público reduzido na tomada de posse, Trump disse: “E eles disseram que ‘Donald Trump não atraiu muita gente’. E eu disse: ‘Bem, estava quase a chover’. A chuva deve tê-los assustado. Mas Deus olhou para baixo e disse: ‘Não vamos deixar que chova no discurso dele’.” Isto é, de certa maneira, demência – mas isto é mortalmente sério. Trump estava a alegar ter a bênção de deus, e ele irá usar essa alegação para justificar todo o tipo de ações horripilantes. Num registo semelhante, Trump declarou no seu discurso de tomada de posse: “Seremos protegidos pelos grandes homens e mulheres das nossas forças armadas e forças da ordem e, mais importante, seremos protegidos por Deus.” A íntima ligação que ele faz aqui entre as forças armadas e policiais e deus visa promover a alegação de que tudo o que as forças armadas e policiais fizerem é, uma vez mais, abençoado por deus.

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Trump tentou impor ao discurso público uma realidade alternativa de “Trumplândia”...

No discurso perante a CIA, uma vez mais como parte dos ataques dele à imprensa, Trump disse: “E como que deram a entender que eu tinha uma querela com a comunidade dos serviços de informações. E eu apenas quero fazer-vos saber, a razão por que vocês são a minha escala número um é exatamente a oposta. Exactamente.” Aqui Trump simplesmente nega o facto – amplamente registado nas muitas citações e publicações dele no Twitter – de ter atacado repetidamente a CIA e outras agências de espionagem no último par de meses.

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Trump denunciou e atacou outros setores da classe dominante – com o objetivo de os silenciar e de obter à força a aquiescência deles para o reordenamento fascista da sociedade...

Depois de um reconhecimento superficial da presença de anteriores presidentes na tomada de posse e da ajuda dos Obamas durante a transição, Trump lançou-se de imediato num ataque verbal a outros setores da classe dominante: “Durante demasiado tempo, um pequeno grupo de pessoas na capital da nossa nação colheu os benefícios da governação, enquanto as pessoas suportavam os custos. Washington floresceu – mas as pessoas não beneficiaram dessa riqueza. Os políticos prosperaram – mas os empregos fugiram, e as fábricas fecharam. O sistema protegeu-se a si mesmo, mas não aos cidadãos do nosso país. As vitórias deles não têm sido as vossas vitórias; os triunfos deles não têm sido os vossos triunfos; e enquanto eles celebravam na capital da nossa nação, havia pouco para celebrar nas famílias em situação difícil ao longo de toda a nossa terra.” Trump não mencionou nomes – mas era claro que estava a incluir neste ataque muitos daqueles que, entre a audiência, ele vê como opositores dentro da classe dominante à visão e ao programa fascistas dele.


1.  De facto, o narcisismo de Trump vem diretamente do manual fascista, no sentido em que os seus seguidores se identificam pessoalmente com ele e colocam uma fé cega no “homem forte”, visto como ungido por deus para “redimir” a nação.