Em Maio, ouvia-se Francisco Louçã dizer que «o Governo não caiu com a moção de censura do PP e não vai cair com a nossa». Palavras proferidas algum tempo antes da apresentação da moção de censura que permitiu ao engenheiro Guterres fazer figura de "esquerda" e encher-se de fôlego para poder sobreviver, porque, como dizia Louçã, a iniciativa destinava-se a provocar uma «clarificação política».
E a clarificação deu-se, este governo já não possui a confiança da classe que foi servir quando tomou posse. A burguesia, primeiro pela pessoa de um dos seus principais e representativos membros, Belmiro de Azevedo, depois pelo chefe da hierarquia católica, que mais tarde vem moderar o seu discurso, retirou o tapete dos pés do partido da pequena-burguesia portuguesa e apenas espera pela alternativa segura e credível, possivelmente por um salvador da pátria.
Voltando a Louçã: ficou-se a saber que «o Governo do PS está a abrir caminho a uma alternativa de direita» e que a iniciativa do Bloco se destinava a «contrapor uma alternativa à esquerda» para contrariar a vida do PSD, facilitada pela actuação do Governo que se encontra «em total decadência». Eis como o Bloco de Esquerda aparece como bóia de salvação do PS no governo.
O inimigo a abater é a "direita", há então que unir a «esquerda» e provocar um «sobressalto democrático», não especificando o que entendia por «sobressalto» e por cima «democrático», talvez Loução se referisse à mudança de estratégia da sua organização, ocorrida no mês seguinte, em defender eleições antecipadas, enquanto que, no final do ano passado, o seu candidato à Presidência da República considerava a queda do governo e a realização de eleições legislativas antes do tempo uma «bomba atómica».
Mas, nesta estratégia, o BE não está sozinho, o PCP afina pelo mesmo diapasão. Ao mesmo tempo que o seu eleitorado, ao ser inquirido por sondagem, lhe diz que deve negociar o Orçamento para que o Governo não caia, o PCP desdobra-se em exercícios contorcionistas a fim de conciliar o conluio em sede dos órgãos do poder, ou em negociações de bastidor, e a contestação de rua, liderada pela sua central sindical. Não é fácil, porque o descontentamento por parte dos operários, e também de sectores de trabalhadores dos serviços pior remunerados, é crescente.
Nos partidos abertamente de direita, PP e PSD, o primeiro vai cumprindo o seu papel de oposição radical, papel esse que lhe é atribuído pelo próprio Governo, enquanto fora de cena vai fazendo os acordos limianos necessários ao bom funcionamento do estado burguês e reaccionário; o segundo vai reagrupando forças e apoios para surgir como o messias salvador, após o descalabro da governação PS. E anda a procura de um chefe à altura, é neste sentido que se deve entender a nova aquisição do PSD: um economista de sucesso, reconhecido no estrangeiro e protegido dos deuses (terá sido por quase protecção divina que se salvou de morte certo em acidente de avião).
O apoio ao Governo existe em quase em todo o lado, menos na classe que sempre serviu e até dentro do próprio PS, onde toda a gente conspira e a facção mais activa - "os soaristas" - já marcou a data das eleições, porque mesmo fora do espectro dos partidos parlamentares a conciliação e o apoio tácito são visíveis.
Nos partidos considerados fora do sistema não há uma posição clara de afrontamento ao Governo e do PS, por exemplo, o PCTP não consegue iludir o seu direitismo que consiste em pedir a demissão do governo ao Presidente da República, mas só em tempo de eleições e pela boca da sua figura mediática, por quanto, fora desse período, tenta negociações eleitorais com o PS (e só com o PS!), camuflando-as com "semanas de luta" fantasmas, que ninguém conhece, e com apelos patéticos a "greves gerais", que nenhum trabalhador escuta e entende devido ao seu completo isolamento no meio operário e sindical.
O reactivamento de organizações da burguesia, tipo "SEDES", mostra à evidência que a burguesia já perdeu a confiança não apenas no seu governo, como não tem grande confiança no seu partido por excelência, que é o PSD (demasiado demorado em arrumar a casa e em substituir o idiota político que tem à sua frente), e há que encontrar outras vias.
O bonapartismo, mesmo que mitigado, e a "democracia musculada" são alternativas frequentemente procuradas em período de profunda e grave crise económica, com duração e desenlace imprevisíveis (como parece vir a ser a actual) e nestes casos é preferível prevenir a tempo do que remediar... e candidatos já se perfilam, beneficiando da ajuda de partidos da dita "extrema-esquerda".
Mas o descalabro do Governo PS não deve ser entendido como uma inépcia absoluta na gestão dos negócios do Capital em Portugal. Bem pelo contrário, o PS soube defender os interesses da burguesia portuguesa, especialmente a ligada ao grande capital monopolista estrangeiro, os interesses do imperialismo americano e dos monopólios europeus - Guterres foi um bom aluno e um servidor obediente. Só que já não possui o apoio social necessário para levar até ao fim as medidas que interessam ao Capital. Será despedido em breve, como tal aconteceu com o seu antecessor. É tudo uma questão de tempo e nada lhe valerá o seguro de vida.