A OESTE NADA DE NOVO

(A propósito do II Fórum Social realizado em Porto Alegre)

Por Carlos Cê

No II Fórum Social que se realizou há pouco tempo em Porto Alegre, Brasil, Mário Soares terá dito, dando crédito á nossa democrática imprensa, que os actuais partidos correm o risco de ser ultrapassados pelas ONG's (Organizações Não Governamentais) caso não repensem a sua estratégia. De toda a zoologia política deste país, Soares talvez seja dos animais com mais calo no cu, daí a importância das suas palavras. Talvez o alcance daquelas palavras seja maior do que aquele que o seu autor lhes quis dar, a falência dos actuais partidos não se dá apenas na luta contra a globalização capitalista, mas, entre nós, é clara e geral.

Não quer dizer que as propostas apresentadas em Porto Alegre ultrapassem pela esquerda a política seguida pelos partidos tradicionais, partidos que, obviamente, se reclamam de "esquerda". Bem pelo contrário. Aquilo que se ouviu são as velhas propostas dos antigos partidos social-democratas do início do século passado, agora revestidas de novos invólucros: "exercício de cidadania" para combater a globalização; "globalização com inclusão social"; "participação popular na gestão local"; "globalização com rosto humano"; "valores humanos"; "luta cívica e pacífica por um modelo de globalização alternativo", etc, etc....

Ninguém, contudo, conseguiu explicar como é que se concilia "inclusão social" ou "valores humanos" com a ânsia do lucro, isto é, a acumulação imparável do capital que para se realizar jamais poderá deixar de maximizar as suas taxas de mais-valia. Que espécie de globalização é essa de "rosto humano", ao serviço de quem se irá realizar, quem a porá em prática? Escamoteia-se a questão do poder político - quem é que detém o poder político? A economia está ao serviço de quem? Como se vai inverter a situação? A globalização do capital é também a globalização da guerra - onde há riqueza, onde há recursos naturais, onde há petróleo, lá estão as bombas do Tio Sam - como se vai acabar com esta ordem de coisas? E quem vai ser o sujeito de esta transformação?

Sobre esta questões, ninguém presente em Porto Alegre soube, ou quis, responder. Guina-se pela direita, como os partidos tradicionais se encontram desacreditados, haverá então que cumprir a missão que estes já não são capazes de levar a bom termo, então estão aí as ONG's para dizer o mesmo, embora com tonalidades diferentes - é assim que se ouve o zapatista Marcos afirmar que o importante não é tomar o poder político, mas reconhecer na prática o exercício da cidadania. Fica-se pelos meios, abandonam-se os fins, não há melhor revisionismo do que este, aquelas palavras definem bem o que foi aquela conferência sul-americana..

Entre nós e com o objectivo de branquear a natureza do capitalismo e do seu poder político, temos a consolação de ouvir atoardas semelhantes, de que é necessário "alertar os cidadãos para os riscos associados às limitações invisíveis da liberdade, impostas por poderosas forças internacionais, que em regra não são identificáveis" (Colóquio sobre Globalização, organizado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, 22 e 23 de Fevereiro).

Ficamos então a saber, segundo as doutas cabeças coimbrãs, que a limitação das liberdades do cidadão não é da responsabilidade do capitalismo, isto é, da burguesia, através do seu aparelho repressivo, que é o estado, mas sim de umas fantasmagóricas forças "invisíveis" e, ainda por cima, "internacionais", escamoteando que o capitalismo domina a nível mundial e que a principal potência hegemónica a nível do planeta é o Estados Unidos da América que tenta esmagar quem se lhe opõe. Temos a reedição da teoria dos "monstros" e das "bestas tenebrosas" com que se identificava o fascismo antes do 25 de Abril, com o intuito de se encobrir a impotência de lutar contra um regime ditatorial e, simultaneamente, escamotear a sua natureza económica e social.

Esta impotência da intelectualidade pequeno-burguesa da nossa praça está também patente em afirmações do género: "o poder político democrático está a perder capacidade reguladora e disciplinadora do económico e aceita-se isto como um fenómeno natural" (José Manuel Pureza). Invertendo-se a ordem dos termos, escondem-se as realidades e desarmam-se as consciências para a luta contra a ordem estabelecida. Ora, o poder económico controla e domina o poder político, historicamente, toda a classe social que domina em termos económicos, mais cedo ou mais tarde, terá que assumir o controlo dos negócios públicos; depois de ter tomado o poder à velha nobreza, a burguesia organizou sempre o seu estado segundo os seus interesses económicos, porquê querer-se agora rever a história?

Foi depois de grandes crises económicas e financeiras, como foi a de 1929/30, que abalaram profundamente o sistema capitalista, não só a nível da potência capitalista mais próspera da época como de todo o mundo do capital, que a burguesia entendeu que tem de intervir na economia, nomeadamente no mercado bolsista, com risco do sistema implodir. Soros, o famoso especulador e financeiro americano, na sua recente obra "A Crise do Capitalismo Global" (Editora Temas e Debates, 1999) aponta o dedo para o mesmo perigo, caso não se tome medidas reguladoras, o que (benzam-se as almas que já enterrarem o marxismo!) iria dar inteira razão a Marx e Engels e às previsões no seu "Manifesto do Partido Comunista" (págs. 22 e 23). O poder político quanto põe mão no económico é para salvar o capitalismo, não é para melhorar ou pôr fim à situação dos mais desfavorecidos.

As vagas de neoliberalismo que assolaram a Europa nos anos 80 e 90 representam, simplesmente, um avanço da exploração capitalista perante a derrota temporária dos movimentos revolucionários dos anos setenta, isto é, o cume de um ciclo - derrota aquela, diga-se, conduzida exactamente por estas mesmas ideias revisionistas - e não que o estado tenha deixado de ser a máquina de opressão dos capitalistas sobre os trabalhadores e as classe médias, ou os governos burgueses, incluindo os ditos "socialistas", os comités de negócios do capital - a promiscuidade entre cargos públicos e lugares nos conselhos de administração das empresas dos principais grupos económicos nacionais ou monopolistas são um bom espelho disso.

As parlapatices dos teóricos burgueses, onde têm lugar de destaque os "universitários" do Bloco de Esquerda, visam unicamente passar o manto diáfano da "democracia parlamentar", enfeitada com "direitos sociais", e da "inevitabilidade da globalização" sobre a exploração capitalista e o imperialismo, com o fim de impedir que os operários e os povos deste planeta, identificando e conhecendo bem o inimigo que têm pela frente, possam dar-lhe um combate sem tréguas até ao seu completo aniquilamento. A missão histórica desta gente já é velha e conhecida e está condenada ao fracasso, tudo será uma questão de tempo.

Coimbra, 4 de Março de 2002