OS FANTASMAS QUE RONDAM A EUROPA

Por Carlos Cê

A passagem à segunda volta do fascista Le Pen revela não exactamente que a democracia se encontra em perigo, marca mais propriamente a falência da putativa "esquerda", esquerda reformista, bem comportada e que gere com zelo a máquina do estado burguês, uma falsa esquerda que se vem travestindo de "terceira via", refinando-se na via do caviar e do champanhe - o PS francês é o partido da ordem, onde se encontram algumas das maiores fortunas do país, o PCF é o seu leal ajudante-de-campo.

O resultado eleitoral não poderia ser outro, Jospin não vai à segunda volta, o PCF é pulverizado, ficando aquém dos tradicionalmente considerados pequenos partidos da também pretensa extrema-esquerda, verdes e trotsquistas, que jamais deixou de apoiar o PSF. A vitória esmagadora do escroque Chirac no passado dia 5 de Maio era esperada por toda a gente e não deslumbrou.

Engraçado foi ver toda a esquerda tradicional e conformista a engolir o enorme sapo que foi votar no candidato que sempre atacou como medíocre e corrupto, o representante por excelência de toda a burguesia francesa. Eis como esta "esquerda" levou em ombros o símbolo (afinal, o verdadeiro e o único) da exploração, da opressão dos operários franceses, da corrupção, da xenofobia e da discriminação social exercidas pela burguesia conservadora, revanchista e reaccionária que sempre foi a burguesia francesa, o sr. Jacques Chirac.

Le Pen foi o espantalho e o isco lançado aos incautos. O número de votos desta criação do parlamentarismo burguês pouco ultrapassou o resultado das últimas eleições em que tal senhor participou.

O avanço da direita em vários países da Europa comunitária, Itália, Dinamarca, Holanda, Bélgica, Áustria, França e Portugal, ou mesmo fora dela, caso da Hungria, exprime uma só coisa: o avanço da velha toupeira é caso sério e há que tomar as devidas medidas. O aparecimento de velhos e novos fascistas, a sua exposição perante os olhos do eleitorado é considerado remédio eficaz para levar os trabalhadores a apoiar a decadente e nauseabunda democracia burguesa como a única e a melhor forma de governação política, porque fora disto, só o fascismo.

Ilustrativo foi ver a maneira como os diferentes órgãos de comunicação social andaram a correr atrás do famigerado fascista francês, quer antes, durante e após as eleições, e como foi o próprio Jospin em pessoa que deu a mão a fim que tão prestimoso participante no "jogo democrático" conseguisse as assinaturas necessárias para poder concorrer. É ver a democrática e zelosa imprensa fazer eco de todos os detalhes da vida e da actividade política destes chefetes fascistas que vão aparecendo por aí - a democracia burguesa e os seus diferentes órgãos, com especial relevância para os seus meios de comunicação e propaganda, é quem promove este tipo de fenómeno.

O descontentamento de franjas cada vez maiores de trabalhadores, em particular de desempregados, dos estatutariamente excluídos da sociedade, de alguma pequena burguesia temerosa de perder o pequeno emprego porque estão aí os emigrantes, é como que entregue a estes candidatos a "salvador da pátria" pelos partidos que se autoproclamam da esquerda (esquerda da ordem) que se encontram eles também atolados até ao pescoço no jogo dos interesses e da corrupção burgueses, eles próprios que, há muito, mais não representam do que pequenos sectores das classe médias e do funcionalismo público e sindical.

A classe operária tem um caminho próprio a percorrer, não lhe compete a ela aperfeiçoar este sistema de democracia parlamentar, como bem pretendem os partidos revisionistas (veja-se a intervenção de António Filipe do PCP quanto à "reforma do sistema político") ou do tipo "bloco de esquerda", é sua tarefa histórica o derrube desse sistema corrupto, a exemplo da Comuna de Paris ou da Revolução Bolchevique. Só que neste momento encontra-se dividida e sem um rumo, é este o seu principal problema e não os fascistazinhos, reais ou virtuais, com que a burguesia acena.

Enquanto não consegue reunir forças suficientes para atingir esse objectivo, e como tarefas imediatas, então deverá proceder a um trabalho paciente de sapa de todo o mundo burguês, transformar a globalização capitalista em globalização da revolta e do internacionalismo proletário; desenvolver e reforçar a sua organização, quer a nível nacional quer a nível transnacional, ultrapassando as redutoras fronteiras nacionais; endurecer o seu espírito de luta e, agora mais do que nunca, proceder a uma salto qualitativo na sua consciência política, defendendo intransigentemente a sua ideologia marxista revolucionária.

Preparar-se para combates mais duros até que o poder lhe esteja nas mãos e ter a firme consciência que o socialismo e o comunismo são as metas mais importantes (e historicamente inevitáveis) na sua missão de libertação de toda a Humanidade - é isto que constitui o caminho da classe dos proletários e que nenhum fascismo conseguirá desviar ou impedir.

Mais do que o fascismo, é o fantasma da revolução que faz correr a burguesia e todos os seus representantes e agentes propagandistas. É esta democracia parlamentar burguesa que choca os ovos de víbora do fascismo; assim, todo o chefete fascista, ou candidato a tal, deverá ser denunciado e combatido bem como a galinha que o choca.

Coimbra, 7 de Maio de 2002