UMA EXTRADIÇÃO MUITO BARATA

Por C. C.

«Nas vésperas da queda do império otomano, Istambul exigiu a cabeça de dois líderes (sérvios). A história repete-se...». Foi assim que o realizador bósnio Emir Kusturica respondeu quando lhe perguntaram sobre o que pensava acerca da entrega de Slobodan Milosevic ao tribunal de Haia.

Milosevic sentou-se no banco dos réus do tribunal dos vencedores da guerra, Milosevic não irá ser julgado pelos crimes cometidos contra os povos jugoslavos, mas porque se opôs à agressão militar levada a cabo pela NATO. Os crimes de Milosevic são os mesmos de Tudjman ou de Izbegovic e bem menores do que os cometidos no Vitname, no Ruanda, na Turquia ou na Colômbia, não esquecendo as atrocidades cometidas nas antigas colónias portuguesas em África.

A condenação de Milosevic, qualquer que seja, não iludirá a responsabilidade maior pelos crimes de genocídio e de limpeza étnica cometidos em todo o território da ex-Jugoslávia, que pertence a uns Estados Unidos, que continuam a fomentar a guerra na região - com os ataques perpetrados contra a Macedónia pela organização fantoche UÇK - de uma Alemanha ou até de uma Áustria ou de um Vaticano, aliados inestimáveis da Alemanha na sua política de desmembramento de um país soberano e de controlo da região balcânica.

Se os crimes "contra a Humanidade" são imprescritíveis, haverá que colocar ao lado de Milosevic todos os responsáveis das principais potências coloniais e imperialistas, no mínimo, da segunda metade do século XX e não somente os propalados Kissinger e Sharon, chefe nazi israelita, os agora apontados pelos órgãos de informação numa manobra, quase que diríamos, de diversão.

Milosevic deverá ser julgado e condenado pelo seu próprio povo, este sim o verdadeiro juiz, porque, independentemente do peso da pena, e parafraseando de novo Kusturica, «continuará a raiva, o ódio e amargura por aqueles que nos bombardearam». A entrega de Milosevic foi vendida muito barata pela actual clique no poder em Belgrado, os trezentos milhões de contos não pagarão a reconstrução da Jugoslávia, serão precisos quarenta vezes mais, e o ódio de um povo só se apagará com a destruição dos seus inimigos.