Pierre Pican foi condenado a três meses de prisão, com pena suspensa, por ter silenciado os actos pedófilos praticados por um padre durante três anos, mais precisamente entre 1996 e 1998.
Quem é Pierre Pican? Bispo francês que foi condenado por não revelar os segredos do confessionário às autoridades judiciais. E o padre em referência é o pedófilo René Bissey, condenado, no ano passado, a 18 anos de prisão por abuso sexual e maus tratos físicos contra crianças com menos de 15 anos, actos cometidos ao longo de 10 anos, de 1987 a 1996.
A pena de dezoitos anos foi considerada severa porque o réu em causa não mostrou qualquer compaixão pelas suas vítimas durante o julgamento. A pena de três meses a que foi condenado, por sua vez, o seu superior hierárquico e protector não primou pela severidade mas pelo seu objectivo pedagógico. Esta condenação é considerada importante pelos diversos meios sociais franceses porque foi a primeira vez, desde a Revolução Francesa, que um bispo é condenado - a última condenação foi em 1791!
Quem teve a oportunidade de ouvir as declarações de algumas figuras de proa da Igreja Católica portuguesa sobre esta condenação não terá com certeza ficado surpreso com as mesmas, conhecendo-se as posições geralmente retrógradas e seguidistas com as posições oficiais do Vaticano. Tanto D. Januário Torgal Ferreira, bispo das Forças Armadas, bem como Vaz Pinto, padre jesuíta, saíram a terreiro defendo a inviolabilidade do segredo da confissão.
Vaz Pinto, para fazer jus aos pergaminhos da ordem a que pertence, teorizou largamente sobre a questão, defendendo os segredos do confessionário, mesmo que tivesse em causa crimes graves e com a destruição da vida humana. Refinada hipocrisia, sabendo-se de como a Igreja Católica se serve da confissão para dominar as pessoas e para arrancar segredos a fim de os utilizar em seu proveito, basta conhecer um pouco de história.
Mas, quanto a sexo, a Igreja Católica tem andado, nos últimos tempos, pelas ruas da amargura. Ainda não há muito que a opinião pública ficou a saber que os padres têm preferência em fazer sexo com as freiras, por estas serem sexualmente mais seguras, com menos probabilidades de transmissão de doenças sexuais, exemplo, a temível sida. Abuso sexual (realidade ou questão de semântica?) ocorrido em 23 países do mundo, onde se incluem os Estados Unidos, a Itália e a Irlanda, e não apenas os países africanos, e que terá levado a algumas situações de gravidez.
Pela mesma altura, Abril deste ano, a Igreja Católica inglesa e do País de Gales dá a conhecer um relatório sobre a pedofilia praticada intramuros, relatório esse que propõe 50 recomendações a fim de combater o flagelo, uma das quais será a realização de inspecções policiais a todos os clérigos, pessoal religioso auxiliar e voluntários da Igreja. Revelando-se cada vez mais igual a si própria, a Igreja preconiza o cacete para a repressão sexual dos seus membros, já não chega a sua doutrina obscurantista e por natureza repressiva.
Esta iniciativa é despoletada pelo grande número de padres condenados por pedofilia - vinte um clérigos, em apenas cinco anos (1995-99)! - e com o objectivo de "transformar a Igreja Católica no mais seguro dos lugares para as crianças" (segundo o noticiado pela imprensa) - é mesmo para se dizer: a Igreja Católica é um local perigoso para as criancinhas!
A pedofilia é que está a dar, a prostituição já passou de moda, quase que seríamos obrigados a afirmar, a fazer fé nos casos que têm surgido e saindo dos sítios e de quem menos seria de esperar, pelo menos na aparência. Até os padres, com longa tradição de fama de mulherengos e de pais "incógnitos" já descambaram em práticas sexuais, unanimemente condenadas em palavras, mas, na prática, nem por isso. Talvez, contradições de um sistema (o capitalismo, do qual a Igreja Católica é um dos pilares fundamentais) que já não tem mais nada para globalizar (só faltaria o sexo) e de uma classe dominante, hipócrita, medularmente corrupta até desaparecer de vez da história.
Segundo o Washington Post, que cita peritos religiosos, só na terra do Tio Sam e num período de menos de vinte anos, foram condenados perto de dois mil padres (numa população de 51 mil, é obra!), e as indemnizações às vítimas já atingiram os 148 milhões de contos.
Mas, cá entre nós, temos também os nossos casos: o padre Frederico, pedófilo confesso, secretário e amante do bispo do Funchal, será uma pequena amostra do que, e do que foi, neste país à beira mar plantado - país, segundo a opinião de alguns estudiosos, terá sido um projecto da Igreja na luta contra o infiel, em tempos do Afonso Henriques. Ler o nosso maior historiador, talvez possamos compreender o que por aí se passa quanto a esta matéria.
Diz-nos Alexandre Herculano, na sua obra História da Origem e Estabelecimento da inquisição em Portugal: "... A imoralidade pululava por toda a parte, sobretudo entre o clero, e especialmente entre o regular... Os eclesiásticos, por exemplo, da vasta diocese de Braga eram um tipo acabado de dissolução....Os mosteiros ofereciam os mesmos documentos de profunda corrupção, distinguindo-se entre eles o de Longovares, da Ordem de Santo Agostinho, e os de Seiça e Tarouca, da Ordem de Cister, ou antes nenhum dos mosteiros cistercienses se distinguia, porque em todos eles os abusos eram intoleráveis". Assim se referia Alexandre Herculano ao estado moral dos monges em pleno século XVI, mas quanto aos conventos das freiras a situação não era melhor: "Os conventos de freiras não se achavam em melhor estado, sendo o de Chelas, o de Semide e outros teatro de contínuos escândalos. A história de Lorvão e da sua abadessa, D. Filipa de Eça, é um dos quadros mais característicos daquela época ... Das freiras então actuais uma parte nascera no mosteiro; suas mães não só não se envergonhavam de as criar no claustro e para o claustro, mas aí mantinham também seus filhos do sexo masculino".
A devassidão misturava-se com o grande número de sacerdotes, como os proventos eram imensos assim as "vocações" não faltavam: "Um dos males que mais afligiam o reino era a excessiva multidão de sacerdotes. Havia pequena aldeia onde viviam até quarenta, do que resultava andarem sempre em competências, disputando uns aos outros as missas, enterros e solenidades do culto, com altíssimo escândalo do povo". E mais adiante o nosso historiador não se cansa de apontar: "Um dos abusos frequentes que estes tais cometiam era casarem clandestinamente, podendo assim delinquir sem perigo, porque, se os processavam por algum crime de morte, declinavam a competência dos tribunais seculares, e suas mulheres, para os salvarem, não hesitavam em se envilecerem a si próprias perante os magistrados, declarando-se concubinas."
Mas esta situação de casamentos clandestinos entre os padres levava ao surgimento de um outro fenómeno, o da bigamia, tudo sob a benção da Santa Madre Igreja, e continuando com Alexandre Herculano: "Os casamentos clandestinos que facilitavam tais horrores, e que eram vulgaríssimos, produziam ainda outros resultados não menos deploráveis. Negava-se não raro, depois, a existência de um facto que se não podia provar, e o receio do rigor dos pais fazia com que muitas filhas aceitassem segundas núpcias pertencendo já a outro homem". Os casamentos clandestinos não tinham como resultado apenas a bigamia, mas conduziam ao aborto em escala alargada: "Ainda quando não chegavam a esta situação extrema, a vergonha e o temor produziam infanticídios em larga cópia".
Como se pode constatar já não é nada como antigamente em que os conventos e mosteiros pouco se distinguiam de vulgares bordéis, onde freiras e abadessas recebiam os seus amantes, na maioria padres, aí tinham os filhos e os criavam, como no célebre convento do Lorvão, nas proximidades de Coimbra, cuja abadessa ficou na História por ter sido encontrada em alegre ménage à quatre com uma outra freira, o bispo de Coimbra e a sua amante (é o mesmo Alexandre Herculano que nos elucida).
Mas é alguém, que vem de dentro da própria Igreja Católica, que pretende dar uma explicação para isto. É o teólogo e médico psiquiatra alemão Eugene Drewermann - atacado e marginalizado por razões óbvias - que, numa perspectiva psicanalítica, vê os "desvios sexuais do homem da igreja" como resultado da repressão sobre a consciência e a sexualidade humanas; nas suas palavras: «o menosprezo do ego, a "mortificação" da pulsão sexual e a submissão do indivíduo ao grupo (isto é, hierarquia da Igreja)» - para a Igreja, a sexualidade humana é ainda considerada como uma "sobrevivência pagã", posição reiterada em 1975 pela Sagrada Congregação da Fé quanto a questões de sexo e de castidade.
O mesmo autor reconhece, fruto da sua experiência de psicoterapeuta, que a percentagem de homossexuais dentro da Igreja católica é grande, como consequência principal da sua moral repressiva e da atitude quanto ao celibato, quer entre religiosos de sexo masculino como do sexo feminino, chegando aos 25% os jovens seminaristas que, de forma permanente ou esporádica, se dedicam a práticas homossexuais. Homossexualidade que era considerada pela Igreja como uma das formas mais graves de pecado, os acusados pelo "crime nefando" eram sentenciados à fogueira pela Santa Inquisição - se fosse agora, muito havia que queimar!
É entre os padres que decidem abandonar o caminho do onanismo (prática muito vulgar entre os eclesiásticos) para se ligar a alguma mulher, confrontam-se as mais das vezes com o problema dos filhos não desejados, sendo, por isso, e segundo aquele teólogo alemão, os abortos coisa frequente. Realidade que entra em frontal contradição com as posições oficiais da Igreja quanto ao aborto, ou melhor dizendo, interrupção voluntária da gravidez, mas, ao que parece, esta proibição é só para os outros.
Contudo, a hipocrisia não fica por aqui. Enquanto que a masturbação - considerada pela Teologia católica como "um acto gravemente oposto à ordem", tal como o álcool, outro refúgio bastante solicitado - funciona como droga para vencer o medo e a insegurança, o "concubinato" é tolerado, desde que o sacerdote em causa não persista ou "não dê escândalo" (cânone 1395 do Direito Canónico), isto é, que não haja conhecimento do "pecado", por outras palavras, que fique pelo segredo do confessionário.
A Igreja Católica (continuamos a citar a obra de Drewermann, Funcionários de Deus) «falsifica a neurose em santidade, a doença em eleição divina e a angústia em confiança em Deus», separando, como realidades opostas, o pensamento da sensibilidade, a actividade intelectual da vivência emocional. Filosofia própria de uma religião que «é inimiga da natureza e oposta ao amor» e que tem como objectivo não a sua libertação, mas a subjugação do homem: a sua destruição como indivíduo livre e senhor do seu destino.
Contrariamente ao que pensam alguns renovadores da Igreja católica, temerosos desta não se saber moldar aos novos tempos e por isso apressar o seu desaparecimento, jamais esta Igreja aceitará as palavras de Jesus (de Kazantzakis) para a sua amante, Maria Madalena: "Eu não sabia, minha bem-amada, que o mundo era tão belo e a carne tão santa... Eu não sabia que a alegria do corpo não era pecado."
09 Setembro 01