A CIMEIRA DE SEVILHA - ALGUMAS ILAÇÕES

Por Alexandre

Manifestação da Cimeira de SevilhaRealizou-se a Cimeira de Sevilha no último fim de semana sem que o plano inicialmente apresentado pela direcção madrilena tivesse sido aprovado - isto fazendo fé nas declarações finais dadas a conhecer através da comunicação social.

Mas uma coisa é o que se aprova num determinado momento, consoante as condições existentes, e outra coisa é o que se vai aplicar na prática, para mais tarde se colocar com letra de forma na lei quando houver melhores dias. Se os países de origem da grande massa de emigrantes que procuram a rica Europa não irão sofrer sanções por isso é porque já estão a ser castigados, nem que seja pelo agravamento das causas que obrigam a essa emigração.

A Europa comunitária é a fortaleza inexpugnável que o capitalismo deseja e que lhe interessa, na justa medida de ser permeável ao número exacto de trabalhadores necessários e na condição de se deixarem explorar como autênticos escravos. Uma Europa democrática, tolerante e respeitadora dos direitos dos cidadãos, indistintamente da sua nacionalidade, não interessa de modo algum porque assim acabaria a mão-de-obra ilegal. A ilegalidade, o tráfico de carne humana, os trabalhadores clandestinos, sem direitos e até sem existência, só quando são notícia de acidente ou de morte, são permitidos. Porque assim todos ganham, os empresários, as máfias e os governos que deles se podem descartar na melhor oportunidade.

Na cimeira de Sevilha assistiu-se a algumas encenações e prestidigitações, viu-se quanto vale o peso do governo português.

Chirac foi vedeta, ao contrário dos seus parceiros Aznar e Blair, mostrou-se tolerante, defendeu a Europa dos cidadãos e dos direitos sociais. Aquele que é apontado por todos como o paradigma do dirigente político crápula, corrupto e cabotino, depois de ter ganho a presidência da república e o governo (eleições estas que mostraram o real valor da extrema direita defraudando os temores da nossa pequena burguesia intelectual), revela-se o amigo dos povos e dos operários imigrantes. Enquanto que o nosso primeiro entrou mudo e saiu calado, mostrando que não tem voto na matéria.

Aznar, não conseguindo fazer melhor, entendeu por bem alardear a sua coragem perante o seu vizinho e parceiro menor fechando a fronteira do lado de cá: uma manifestação, tida e dita por antiglobalização, decorrendo no maior dos ambientes de calma e pacifismo, não podia ter a participação dos temíveis lusitanos que, eventualmente e como segunda ETA, iriam pôr em perigo a ordem e a segurança do estado espanhol, assim vários autocarros foram impedidos de entrar em território castelhano.

O vizinho de cá, e mais uma vez, não conseguiu evitar a sua tradicional cobardia, não protestando, não exigindo uma apresentação formal de desculpas por parte do governo de Madrid, não criando um incidente político do qual até poderia tirar algumas vantagens nem que fosse para consumo interno. Limitou-se a uma conversa informal entre os dois ministros dos negócios estrangeiros onde essas desculpas terão sido apresentadas em tom amigável e compreensivo, o governo de Durão (apenas no nome) já considerou encerrado o assunto.

Este fechar de fronteiras mostra, por outro lado, que os acordos de Schengen são para aplicar quando interessa, e quando interessa ao estado mais forte, que poderão ser ultrapassados no seu aspecto formal e jurídico, porque neste caso a fronteira foi completamente fechada de forma discriminatória a cidadãos de um país vizinho, lembrando os dias do franquismo e da guerra civil.

O alarido do Bloco de Esquerda e, em menor grau, do PCP é hipócrita e capcioso. Porque o putativo BE sabia que a comitiva não iria passar, ao dar a conhecer o percurso e a hora da chegada dos autocarros à fronteira de certeza que a polícia aí estaria à espera, que foi o que aconteceu, e que a boa vontade manifestada pelo embaixadora espanhol era falsa, como os factos também vieram a demonstrar.

Quem esteve no local do bloqueio pôde observar facilmente que a viagem foi por duas vezes retardada intencionalmente para que os autocarros chegassem à fronteira à hora do noticiário televisivo, que, depois dos incidentes vistos parcialmente na televisão, a pressa foi grande para se regressar a Lisboa, afirmando Louçã que não estava disposto a fazer "manifestações pindéricas" na fronteira, quando confrontado pelas pessoas presentes que defendiam a tomada de uma posição localmente já que o trânsito se estava a fazer livremente num só sentido e que havia carros a entrar em Espanha - vítimas e heróis sim, mas só para a televisão.

Porque curioso foi verificar que a viagem de retorno foi bem mais rápida que a de ida, e só se parou em Beja o tempo necessário para se comer alguma coisa, porque... havia de se estar em Lisboa antes do horário do noticiário da noite. E aqui sim, para quem esteve lá, esta foi indubitavelmente uma manifestação pindérica com meia centena de simpatizantes bloquistas e outros tantos do PCP que entretanto chegaram daquilo que se pode considerar um logro, um autêntico passeio à senhora da asneira.

A crescente dominação económica de Portugal por Espanha tornará cada vez mais frequentes episódios deste género em que seremos, portugueses e trabalhadores, humilhados e subjugados em termos políticos, razão que inevitavelmente nos levará a lutar contra o governo de Madrid, ao mesmo tempo que lutamos contra os governos fantoches de Lisboa, até que na Península Ibérica vários estados e várias comunidades possam estabelecer-se e coexistir em pleno termo de igualdade - todas as reivindicações autonómicas e independentistas do outro lado da fronteira devem ser vigorosamente defendidas e apoiadas do lado de cá.

Quanto à cimeira em si, nada se poderia esperar, como é óbvio, da manifestação antiglobalização, continua-se a assistir a uma falta confrangedora (mas essencialmente preocupante) de uma perspectiva revolucionária de luta. Em falta de uma modificação do mapa político em termos de tomada de poder por parte dos operários, estes terão que decididamente colocar-se na linha de frente e fazer valer o seu espírito internacionalista, à Europa do Capital terá que se opor a Europa do Trabalho, a greve geral dos trabalhadores em Espanha poderia ter sido acompanhada por uma greve geral em Portugal, em vez das falácias de luta que a CGTP/Intersindical andou a promover, e um bom ensaio para uma greve geral, e por isso mesmo mais geral, em toda a Europa dita comunitária num breve intervalo de tempo.

Contudo, os caminhos de luta terão que ser outros, não aquele do passado dia 22, e os louçãs deste país, que jamais ousarão derrubar a mão que os afaga e suporta, irão ficar na história, no mínimo, como Os Pindéricos, e como exemplo para algumas organizações que se pretendem de antiglobalização e anticapitalismo de que há determinados "sócios" em quem não se pode confiar - podia-se ter atravessado a fronteira caso a intenção tivesse sido realmente essa, num local diferente e em grupos mais pequenos -, isto que fique de emenda para iniciativas futuras.

24 de Junho de 2002