Esteve em Lisboa, entre o fim de Maio e o princípio de Junho, um dos mais conhecidos ex-presos políticos norte-americanos. Robert King visitou os bairros negros dos arredores de Lisboa, participou em várias sessões públicas e foi ainda convidado de uma muito viva sessão de música hip-hop no Bairro Alto. Uma agenda cheia que incluiu também algumas entrevistas com meios de comunicaçâo social e conversas com vários activistas e militantes revolucionários.
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| Robert King no dia da sua libertação |
Robert King passou mais de 30 anos encarcerado, 28 dos quais em prisão solitária, fechado 23 horas por dia numa minuscula cela de 1,5 por 3 metros (uma área inferior à da maioria das casas de banho), com direito a apenas 3 horas semanais de exercício e com poucas possibilidades de contactos exteriores. As mesmas condições têm sido aplicadas a Wallace e Woodfox.
King foi inicialmente preso por assalto em 1970, apesar de a vítima ter feito uma identificação que nem se parecia com ele. O tribunal tentou que King se declarasse culpado e aceitasse uma condenação a 15 anos de prisão, que ele não podia aceitar, por um acto que não cometera, e acabou por ser condenado a 35 anos. Essa pena seria aumentada para 43 anos após uma tentativa de fuga.
Foi nessa época que Robert King se aproximou do Partido dos Panteras Negras (PPN), tornando-se um rebelde consciente na prisão de Parrish (Nova Orleães), onde ajudou a organizar uma célula local do PPN. Mobilizaram, com muito sucesso, os outros presos contra as horríveis condições da prisão, que começaram a mudar, e tornaram-se um alvo a abater para as autoridades prisionais.
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| Robert King junto ao mural VERDADE (TRUTH) |
Em 1973, na ala onde ele estava, ocorreu uma luta entre dois presos, acabando um deles por morrer. Nesse momento havia 11 presos fora das celas. Inicialmente foram todos acusados da morte, mas 9 das acusações foram abandonadas, ficando apenas a acusação contra King e um outro preso, apesar de não haver nada que apontasse para eles em particular.
Os dois acusados assistiram ao seu julgamento acorrentados e amordaçados com fita adesiva a tapar-lhes a boca, mesmo à frente aos jurados. A sua condenação acabaria por ser anulada no ano seguinte, devido ao indevido uso da mordaça. O julgamento foi repetido em 1975. Desta vez, uma das duas anteriores testemunhas recusou-se a acusar King e o seu co-réu confessou a morte, alegando autodefesa. Apesar disso, os jurados condenaram King a prisão perpétua sem possibilidade de comutação. Refira-se que o julgamento se realizou em St. Francisville, a cidade mais próxima de Angola, fazendo com que os jurados fossem maioritariamente empregados da prisão, e seus familiares e amigos.
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| Herman Wallace e Albert Woodfox na prisão de Angola |
Só em 1994 (19 anos depois) é que o Tribunal de Recurso dos EUA reconheceu que os negros e as mulheres tinham sido inconstitucionalmente afastados do jurí que condenara King. Mas, meses depois, o mesmo tribunal decidiu rever o caso e anular a primeira decisão e manter tudo como dantes.
Foram precisos mais 6 anos para que um outro Tribunal de Recurso ordenasse a reabertura do processo, e que o Tribunal Distrital preferisse reduzir a pena de King de modo a libertá-lo imediatamente, em vez de reconhecer a sua inocência num novo julgamento.
Desde então, King tem-se dedicado a lutar pelos seus dois camaradas e pelos outros presos e a denunciar o verdadeiro complexo industrial em que se tornaram as prisões nos Estados Unidos. Foi no âmbito dessa missão a que se encarregou a si próprio que King esteve Portugal e noutros países europeus e recebeu o apoio de vastos sectores, incluindo as massas populares presentes nos concertos e nas sessões públicas.
7 de Junho de 2002