A farsa eleitoral que teve lugar há cerca de um ano e que levou ao poder G. W. Bush, candidato que iniludivelmente perdeu as eleições e vê a confirmada a sua eleição pelo partido concorrente, significa que a burguesia americana se uniu a quem lhe deu melhores garantias de pôr a casa em ordem em caso de necessidade. Costuma-se ouvir dizer que foram os grandes grupos económicos americanos que entraram directamente na Casa Branca, nós diremos mais: foi toda a clique militarista que se instalou por completo no poder.
Bush rodeou-se de todas as figuras mais reaccionárias e experientes na repressão e perseguição dos recalcitrantes em aceitar os ditames ianques, quer dentro ou fora de muros, Tenet, director da CIA, tinha já um bom curriculum na caça aos grupos "formais e informais" que ameaçavam as negociações de paz no Médio Oriente. Para além dos homens de mão, Bush recebeu do Congresso a autoridade e o financiamento necessários à expansão da super-estrutra militar e de informação. O 11 de Setembro foi um excelente pretexto para colocar em acção a máquina militar e, a nível interno, pôr fim à impopularidade causada por uma eleição presidencial contestada.
Mal se deu o atentado e ainda a poeira das torres não tinha pousado, já a repressão se fazia sentir: dezenas de cidadãos eram presos pelo simples facto de se vestirem à oriental ou possuírem a tez mais morena. Cidadãos eram assassinados em plena rua por bandos de rufias sem que a polícia esboçasse o menor gesto para o impedir ou para prender os autores do crime. E por todo o mundo, talvez para fazer jus à palavra de ordem xenófoba e reaccionária de "todos somos americanos" ("todos" os que matam) iniciava-se a caça ao oriental, que depressa se estendeu à Alemanha, à Itália, à França, à Inglaterra, à Espanha e até a Portugal, isto é, a toda a Europa civilizada.
O senado norte-americano não perdeu tempo a aprovar legislação antiterrorista que irá permitir fazer escutas telefónicas e vigilância na Net com uma maior liberdade do que aquela com que era feita até agora. Qualquer cidadão pode ser detido por período de tempo praticamente indeterminado à menor suspeita e sem uma acusação específica. A vida privada de cada cidadão irá ser devassada mais facilmente, tarefa que o FBI já encetou com o maior dos empenhos, tendo já contactado 18 mil organizações e 27 mil corporações de segurança. Seiscentos e catorze cidadãos já foram detidos e ainda falta encontrar duzentos e vinte e nove suspeitos "suspeitos"!
Aqui ao lado, na vizinha Espanha, o fascista Aznar não teve rebuço de ameaçar a "terrorista" ETA com a tropa e de congelar as contas de todos os que apoiam a causa da independência do país basco, o que levou ao próprio partido nacionalista conservador PNV a desafiar Aznar a construir prisões para os mais de 150 mil militantes da coligação independentista. Aznar também não perdeu tempo a dar os seus habituais conselhos ao seu ajudante de campo Guterres quanto à maneira de lidar com os refugiados bascos que aqui venham procurar refúgio.
Até o "nosso comissário europeu" - o little Vitorino - se colocou em bicos de pés e quis mostrar serviço feito ao apresentar "as medidas de combate ao terrorismo" e a "criação de um mandato de busca e captura" na União Europeia, medidas estas que se encontravam em forja desde algum tempo... "porque há a ETA, porque há o IRA" e "porque há terrorismo endémico" no espaço europeu. No entanto, o "nosso sargento" esqueceu-se das organizações terroristas "protestantes" irlandesas, criadas e financiadas directamente pelo governo de Londres, constituídas por rufias e indivíduos ligados ao tráfico de droga e à prostituição, e que se dedicam ao assassinato de cidadãos inocentes, como aconteceu recentemente com o assassínio de um jornalista irlandês pela organização fascista "Mão Vermelha".
As alterações recentes da Constituição portuguesa no sentido de adesão ao Tribunal Penal Internacional, que prevê a pena de prisão perpétua, e de facilitar a extradição de cidadãos para países que ainda incluem a pena de morte na sua orgânica jurídica, bem como das rusgas a cada qualquer das 24 horas do dia, são já e em parte o resultado desta sanha persecutória e repressiva desenvolvida pelos nossa burguesia reaccionária e revangista. Os seus fazedores de opinião, os seus comentadores de trazer por casa, não se cansam de incitar à guerra, basta passar uma ligeira vista de olhos pelos principais jornais de referência e ouvir os noticiários televisivos quase inteiramente preenchidos pela "guerra ao terrorismo".
Este terror sentido pela burguesia a nível mundial é o prenúncio mais do que claro de que as contradições entre os dois principais contendores se irão agravar a um ponto difícil de imaginar, ou seja, a revolução no seu avanço desencadeia uma contra-revolução proporcionalmente mais feroz: mais e mais duros combates se vislumbram no horizonte entre o imperialismo com os seus lacaios e os operários e os povos do mundo, à escala global.