O QUE É QUE SE JOGA EM 17 DE MARÇO?

Por Alexandre

O governo PS foi ao chão contra vontade de muita gente, ou seja, contrariando todos os partidos da oposição, quer da dita "civilizada", quer da "fora do sistema", ninguém apostava na queda do governo, quem apostou foi a burguesia dos grandes grupos económicos que viu que o prazo de validade deste governo já tinha chegado ao fim há algum tempo.

Interessante, agora, é apreciar as voltas à cabeça que cada partido faz sobre os possíveis panoramas que se poderão construir com os resultados eleitorais do dia 17 de Março, e, quanto aos conhecidos analistas e teóricos burgueses, a visão ainda se torna mais interessante. Haverá maioria absoluta, ou não haverá? As sondagens e projecções sociológicas não são consistentes quanto a esta expectativa. Há, então, quem venha para a praça pública defender a constituição de um novo "bloco central", traçando um paralelismo com a situação de grave crise económica dos anos de 1983-85 que ditou a formação de um governo PS-PSD. Contudo, há quem discorde desta solução, apresentada por "tecnocratas" com ambições governativas, e ache que cada um dos dois partidos de governo deve assumir as sua posições, cada um governe só, e levá-las até ao fim, caso não haja maioria absoluta, com a concretização da sua política de alianças: o PSD que se entenda com o PP, o PS concretize a sua "maioria de esquerda" com o PCP.

O comportamento do eleitorado nas eleições autárquicas de 16 de Dezembro não é claro quanto à vitória no próximo mês de Março, qualquer um dos considerados partidos de governo poderá ganhar. O PS, após a sua operação de cosmética a nível de direcção e distanciando-se de tudo quanto fez no governo nestes seis anos, poderá ainda ter algumas esperanças de vir a ganhar as eleições legislativas, contando para isso com a benevolência dos partidos ditos de esquerda, desde o PCP ao PCTP passando pelo Bloco de Esquerda, pouco interessados que a "direita" volte para o poder governativo; o PSD, não tendo ainda encontrado o líder forte e carismático por que tanto anseia, obrigado a tolerar uma direcção de remedeio, corre o sério risco, um pouco à semelhança do que aconteceu com o PS em 1995, de ser obrigado a ganhar. O resultado de 17 de Março irá depender não só da orientação do voto da classe média, que em Dezembro terá oscilado para a direita, mas também e principalmente pelo voto e grau de abstenção dos operários.

O partido que ganhar deverá ser considerado como a solução que mais interessou à burguesia, e em especial à burguesia ligada ao grande capital europeu (não a burguesia nacional e provinciana estreitamente ligada à Igreja, que poderá ver alguns dos seus interesses prejudicados), inclusivamente dará a imagem da grandeza da crise económica que aí está à porta. Se for o PSD a ganhar, mesmo sem maioria absoluta, prova que a burguesia já não confia no partido socialista para a gestão dos seus negócios e entendeu entregá-los ao partido que é, por excelência, o partido de toda a burguesia portuguesa, que a crise que aí está é coisa séria e não há que fiar em intermediários. Se o PS conseguir dar a volta à situação e ser reconduzido às rédeas do poder executivo, quer dizer que a crise talvez não seja tão grave como isso, que os operários e demais sectores de trabalhadores ainda confiam no regime e estão dispostos a ser enganados mais uma vez.

No caso de vitória do PS, este partido terá que forçosamente de contar com o apoio aberto do PCP no Parlamento, disponibilidade essa já suficientemente demonstrada pela actual direcção, não sendo necessário para já o contributo prestimoso dos denominados "críticos", e, na eventualidade do PCP ir para o governo, será um acontecimento extraordinário naquilo que irá contribuir para o esclarecimento e avanço da consciência política dos operários. O partido revisionista no governo valerá mais do que mil discursos anti-revisionistas ou anti-social-fascistas, mesmo dos mais inflamados pronunciados em 1974-75, porque este governo terá que impor as medidas que o grande capital precisa para fazer frente à crise do seu sistema.

Se as medidas (já sobejamente conhecidas por usadas em períodos passados) de abaixamento dos salários reais, aumento do desemprego, falências fraudulentas em série, salários por pagar, agravamento dos impostos, diminuição dos investimentos na educação, na saúde e em todo o sector social, tiverem de ser impostas por um governo abertamente de direita, seja PSD ou PSD/PP, significará que os campos se clarificaram: de um lado, os operários e o povo que trabalha, do outro, o governo da burguesia. Provará também que os operários deixaram de confiar em falsos partidos de esquerda e em falsos profetas, embora ainda não saibam que caminho a seguir, e que é o seu destino que se encontra igualmente em jogo.

Antes da formação de mais um partido comunista, o mais importante é a compreensão por parte da classe operária portuguesa que para fazer frente à crises do capitalismo haverá que acabar com a sua origem, isto é, com o próprio capitalismo, e que para lhe por fim é necessário fazer o que não se fez após o 25 de Abril, que foi não se ter tomado o poder político, quando apenas se tomou conta de algumas fábricas, e principalmente o poder político para se poder reorganizar toda a economia do país. O esvaziamento eleitoral dos partidos pretensamente comunistas será uma coisa boa, porque também mostra que os trabalhadores não confiam em partidos que em momentos difíceis recentes (lembremo-nos novamente da crise da primeira metade dos anos oitenta) lhes viraram as costas e alguns dos seus dirigentes abandonaram o barco para ir tratar da vidinha.

Uma fraca votação nos partidos tradicionais de esquerda e uma alta relativa da taxa de abstenção, poderão expressar uma posição tanto de descrença no regime como um abandonar a sorte às mãos do grande capital, uma situação ambígua onde todos os oportunistas irão pescar, daí a atitude firme de se ir votar nem que seja para escrever no boletim de voto que o rei vai nú. Se não há uma alternativa claramente revolucionária nas próximas eleições de 17 de Março, haverá que a encontrar rapidamente com uma nova organização comunista, entretanto o nosso protesto deverá ser activo: escrever nos locais de voto, escrever nas paredes, escrever em todo o lado que o capitalismo não é o futuro da humanidade mas sim o socialismo e o comunismo.

08. 02. 2002