The Kite Runner [O Menino de Cabul em
Portugal e O Caçador de Pipas no Brasil], um romance do
afegão-americano Khaled Hosseini, tornou-se numa das obras de ficção
mais populares do mundo desde que foi inicialmente publicado em 2003.
Foi um best-seller nos EUA durante vários anos, chegou a muitos
milhões de pessoas e foi posteriormente publicado em cerca de 50
outros países e na maioria das principais línguas. Leitores, da
Islândia ao Brasil, da China ao Irão e, claro, muitos afegãos,
escreveram ao autor para descreverem a sua comovente experiência de
lerem o livro e o efeito que teve nas suas percepções do mundo (ver khaledhosseini.com). Um filme
com base no livro foi lançado em 2007, o mesmo ano em que foi
publicado o segundo romance do autor, A Thousand Splendid Suns
[Mil Sóis Resplandecentes em Portugal e A Cidade do Sol no
Brasil], também na lista para se tornar um filme. A seguinte
recensão foi escrita por um leitor do Afeganistão.
A história
Um rapaz (Amir) cresce sem a mãe. O seu pai (Baba) está ocupado a ser um homem entre homens. Sem que Amir o saiba, o seu criado e melhor amigo (Hassan) também é seu meio-irmão. Os três vivem num bairro abastado de Cabul (Wazir Akbar Khan) nos anos 70, durante os últimos anos do reinado do Rei Zahir, um período de bonança antes da tempestade. Mas esta família abastada e aparentemente perfeita tem profundas cicatrizes.
A mãe de Amir morreu quando o deu à luz. Ao crescer numa cultura cheia de desvios culpabilizantes, Amir sente-se, no seu subconsciente, culpado pela morte da mãe. Baba, que sofre pela perda da sua companheira amada, uma professora universitária, vive uma existência solitária. Ele é apanhado nas engrenagens do seu papel social de homem e patriarca. Luta por manter a sua imagem de homem de negócios bem-sucedido. Mas é Hassan que sofre o impacto de tudo isto.
Hassan é filho da empregada da família, com quem Baba dormiu depois da morte da sua companheira. A mãe dele, que fugiu de casa depois de ele ter nascido, pertencia a uma nacionalidade oprimida e historicamente discriminada, os hazara. Segundo a lei islâmica, Hassan é considerado um harami (“bastardo”). Vive nos aposentos dos criados da propriedade, com o seu padrasto que, tal como ele, é um serviçal de Baba e Amir. Como se isso não bastasse, Hassan nasceu com um lábio rachado, que se vem juntar aos outros fardos da sua infância.
Talvez tenha sido o fardo que
carrega que preparou Hassan para se manter firme perante as
adversidades. Ele ousa enfrentar a criança rica psicopata Assef, o
atormentador do bairro que quer fazer mal a Amir e sobretudo a Hassan
porque ele é um hazara. Amir é mais temeroso, por vezes mesmo
passivo, e anda confuso devido aos aparentemente inexplicáveis
presentes que o seu pai dá a Hassan, substitutos, motivados pela
culpa, do afecto que o pai não ousa mostrar para com o criado – e que
também nega a Amir. Acima de tudo, Amir é consumido pelo facto de o
seu pai parecer considerar Hassan o mais varonil dos dois rapazes.
Sem abandonar totalmente os modos da sua infância, Hassan ajuda afectuosamente Amir – embora tanto a ele como a Amir seja escondida a verdade sobre a sua ligação biológica. Ele serve as refeições a Amir e ajuda-o a arranjar-se para ir para a escola. Porque Hassan carrega o estigma de ser um hazara, nunca lhe foi dada a oportunidade de ir à escola. Como amigo, tenta proteger Amir da rudeza da vida. Nos seus momentos de lazer, Hassan e Amir sobem às árvores, fazem voar papagaios de papel, jogam às cartas e divertem-se sempre juntos.
Um dia, essa harmonia quebra-se quando Assef e o seu bando apanham Hassan. Violam-no como vingança por uma anterior rixa em que Hassan, para defender Amir, dominou Assef com a sua fisga. Amir testemunha a violação, fica com medo e esconde-se. Depois, Amir fica perturbado pela culpa devido à sua incapacidade de ter intervindo e retira a sua amizade para com Hassan.
Para fugir a um passado que não consegue esquecer, Amir quer que Baba despeça Hassan de criado e insiste em que Hassan e o padrasto sejam afastados do complexo familiar do pai. Amir chega mesmo a planear sabotar a relação de Baba com o padrasto de Hassan. Por fim, Amir consegue o seu objectivo. O padrasto de Hassan decide que ele e o rapaz sairão. Afastam-se para uma aldeia distante.
O enquadramento
Como pano de fundo deste complexo microcosmos de vida familiar e amizade – cheio de falsidades, traições e violações, acentuadas por injustas relações sociais – começa a delinear-se um ainda mais complexo enredo. As duas superpotências rivais combatem pela supremacia mundial e o Afeganistão é apanhado entre elas. Antes de Amir ter tido tempo para redimir o seu fracasso de não ter defendido Hassan, antes de Baba ter conseguido enfrentar o que fez e ter podido enfrentar as suas traições e antes de Hassan ter tido oportunidade de usar a sua fisga contra Assef (um futuro líder talibã) para retomar a sua dignidade, a União Soviética violou o Afeganistão.
A invasão russa ocorreu em Dezembro de 1979. Destruiu completamente o tecido social e familiar de todos os afegãos. Os tanques russos rolaram sobre as normas sociais e as tradições do país – tanto as boas como as más.
Um novo capítulo, ainda mais
trágico que a vida de Hassan, abre-se na história do país. Dezenas de
milhares de pessoas perderam as suas vidas. Algumas resistiram e
sobreviveram à invasão sem qualquer recompensa à vista. Alguns – como
a família do novelista – procuraram refúgio noutros países. As facções
islâmicas tiraram partido da situação. No meio da carnificina, os
islamitas mantiveram os olhos fixos no seu prémio – o poder político.
Traíram as lutas do povo, aceitando desfrutar dos lugares de
presidente, ministro ou deputado, ou simplesmente a profissão de
combatente santo no rol salarial da superpotência ocidental contra a
não menos imperialista União Soviética.
O sonho dos islamitas tornou-se realidade e o sofrimento foi pior do que alguém pudesse ter imaginado. Em primeiro lugar, houve um regime islâmico de senhores da guerra e uma horrível guerra civil em que Cabul foi devastada e, depois, os talibãs, levados ao poder pelo Ocidente. A invasão norte-americana trouxe um novo regime islâmico de senhores da guerra, embora isso não tivesse sido suficiente para muitos deles, e tivesse mantido a guerra civil que há muito existia entre eles. Isso abriu ainda um outro capítulo, não mais nem menos trágico que o da era soviética no Afeganistão. Quem acabará por escrever esse capítulo e como terminará ainda está para ser visto.
Rostos de oposição
Na sequência dos bombardeamentos norte-americanos do Afeganistão de Outubro de 2001, e antes de O Menino de Cabul ter sido escrito, Tamim Ansari criticou firmemente os EUA. No seu livro A Oeste de Cabul, A Leste de Nova Iorque, escreveu:
“Tenho andado a ouvir muita conversa sobre ‘bombardear o Afeganistão até à Idade da Pedra’, ‘estamos em guerra, temos que aceitar danos colaterais’ e ‘ter a coragem para fazer o que tem que ser feito’, ‘que outra coisa podemos fazer?’.”
“Bombardear o Afeganistão de regresso à Idade da Pedra[?]. O problema é que isso já foi feito. Os soviéticos já se encarregaram disso. Fazer sofrer os afegãos? Eles já estão a sofrer. Arrasar as suas casas? Feito. Transformar as suas escolas em pilhas de escombros? Feito. Aniquilar os seus hospitais? Feito. Destruir a sua infra-estrutura? Afastá-los dos medicamentos e dos cuidados de saúde? Demasiado tarde. Alguém já fez tudo isso.
“Novas bombas apenas irão remexer os escombros das bombas anteriores. Pelo menos, apanharão os talibãs? É pouco provável. No Afeganistão actual, só os talibãs comem, só eles têm meios para se movimentarem. Eles fugirão e esconder-se-ão.
“As bombas talvez atinjam alguns desses órfãos inválidos – eles não se movimentam muito rapidamente, nem sequer têm cadeiras de rodas. Mas sobrevoar por cima de Cabul e despejar bombas não seria realmente um ataque contra os criminosos que fizeram essas coisas horríveis. Na realidade, apenas seguiria uma causa comum à dos talibãs – ao violar uma vez mais as pessoas que eles têm violado todo este tempo.”
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| Cartaz do
filme «O Menino de Cabul» |
A situação tem sido e continua a ser muito difícil para os escritores do Afeganistão. As duas últimas décadas testemunharam regimes queimadores de livros sucederem-se uns aos outros. Durante os anos 80, na sequência da invasão russa, quem possuísse livros maoistas ou outros livros suspeitos enfrentava a prisão e a morte às mãos dos ocupantes e dos islamitas que combatiam os invasores. Nos anos 90, após o colapso da União Soviética, os islamitas vitoriosos proibiram completamente as escolas e queimaram todos os livros, à excepção do Corão. Actualmente, Hosseini assumiu a causa de salvar um jovem estudante condenado à morte pelo regime de Hamid Karzai, instalado pelos EUA, por ter descarregado da internet materiais “blasfemos” sobre as mulheres. No meio de tudo isto, o aparecimento e o sucesso internacional de O Menino de Cabul é um acontecimento bem-vindo.
Isabel Allende chamou-lhe “Uma dessas histórias inesquecíveis que ficam connosco durante anos. Todos os grandes temas da literatura e da vida combinam-se neste extraordinário romance.”
Um crítico literário da The New York Times Book Review descreveu O Menino de Cabul como “Uma história de feroz crueldade e de um feroz, ainda que redentor, amor. Ambas transformam a vida de Amir, o privilegiado jovem narrador de Khaled Hosseini, que cresce durante os últimos dias pacíficos da monarquia pouco antes da revolução do país e da sua invasão pelas forças russas. Mas os acontecimentos políticos, mesmo que tão dramáticos como os apresentados em O Menino de Cabul, são só uma parte dessa história. Em O Menino de Cabul, Khaled Hosseini dá-nos uma história viva e magnetizante que nos recorda há quanto tempo o seu povo tem lutado para derrotar as forças da violência. Forças essas que ainda hoje continuam a ameaçá-lo.”
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| Imagens de «O
Menino de Cabul» |
Uma palavra para alguns críticos e uma crítica
Como qualquer outra obra de arte e de literatura, pessoas de diferentes inclinações abordam O Menino de Cabul com diferentes sentimentos. Deixando de lado os queimadores de livros que acreditam que não há outro Deus senão Alá e que não deveria haver nenhum outro livro que não o Corão, alguns críticos alegam que Hosseini colocou o seu dedo em questões que são culturalmente muito sensíveis para os afegãos discutirem em público. Alguns acusam-no de revelar segredos a estranhos para sua própria publicidade e lucro.
Porém, é uma coisa boa, e não uma coisa má, alguém escrever um romance que ilustra e expõe a opressão nacional, como o chauvinismo que os pashtuns, a nacionalidade dominante no Afeganistão, têm praticado historicamente contra os hazara e outras nacionalidades. Esta verdade essencial sobre a sociedade afegã não deve permanecer um domínio sagrado fora do alcance dos artistas, os quais podem fazer com que toda a gente compreenda e odeie essa opressão.
Da mesma forma, a violação sexual, de carácter supremacista masculino, de mulheres, crianças e outros homens – o modus operandi comum dos jihadistas – não deve ser escondida no guarda-roupa das questões “culturalmente sensíveis para os afegãos”.
O sofrimento infligido pelos papéis masculinos tradicionais e pelo sistema patriarcal é um importante componente de O Menino de Cabul. Depois de o livro ter sido publicado, Hosseini escreveu que estava atento às limitações que derivavam do facto de os seus principais personagens serem todos do sexo masculino. O seu livro mais recente, Mil Sóis Resplandecentes, foi escrito do ponto de vista de duas mulheres, uma delas um espírito livre criada numa família intelectual e a outra uma filha ilegítima oprimida de uma empregada engravidada pelo seu patrão rico. Os seus destinos entrelaçam-se quando acabam casadas com o mesmo marido abusador que se vinga nas “suas” mulheres das humilhações que sofre às mãos dos mais poderosos. Também este romance é frequentemente magnânimo quanto à severa luz que lança sobre as relações tradicionais que escravizam a sociedade afegã.
Talvez esta seja uma das razões por que tantos leitores de tantos e tão diferentes países, do terceiro mundo e do Ocidente, tanto adorem os livros de Hosseini: os leitores reconhecem as suas próprias vidas nos sujos segredos sociais e na dignidade, integridade e força última dos seus personagens. De uma forma ou de outra, eles próprios aí estiveram e são por vezes levados às lágrimas por esse reconhecimento e pelo que Hosseini fez com o seu mundo.